Introdução à inferência estatística
Perguntar a mil pessoas e dizer alguma coisa sobre dez milhões. O que é uma amostra aleatória, o que é um estimador, porque é que a média amostral se comporta sempre da mesma maneira — o Teorema Limite Central — e como daí sai um intervalo de confiança. Um dos três temas opcionais das Aprendizagens Essenciais. Teoria, laboratórios interativos e exercícios com resolução passo a passo.
Revisão · Médias e o modelo Normal
Três coisas que vêm de trás e de que este capítulo não larga a mão: a média e o desvio-padrão de uma amostra, a forma da curva Normal, e a diferença entre olhar para todos e olhar para alguns.
- Retomar as noções de população, amostra, média e desvio-padrão, e o modelo Normal, como base do raciocínio inferencial.
1 · Média e desvio-padrão de uma amostra
Para uma amostra
A
Existem as duas fórmulas. A de
2 · O modelo Normal, e os três números
Uma variável com distribuição Normal de valor médio
| Intervalo | Probabilidade |
|---|---|
A última linha é a que este capítulo usa sem parar. O
3 · Toda a população, ou só uma parte
População: o conjunto de todos os elementos sobre os quais se quer concluir. Amostra: o subconjunto que se observa de facto. Censo: observar a população inteira. Às vezes é caro; muitas vezes é impossível.
Quando a população é infinita — todos os lançamentos possíveis de um dado, todas as peças que uma máquina virá a produzir — o censo não é caro: é impossível por princípio. É aí que a inferência deixa de ser uma comodidade.
Determina a média e o desvio-padrão amostral de
- A média:
\bar{x} = \dfrac{4+7+7+10+12}{5} = \dfrac{40}{5} = 8 . - Os desvios e os quadrados:
-4, -1, -1, 2, 4 e16, 1, 1, 4, 16 , que somam38 . - O desvio-padrão amostral, com
n-1 = 4 :s = \sqrt{\frac{38}{4}} = \sqrt{9{,}5} \approx 3{,}08. - Verificação rápida: a soma dos desvios tem de dar zero —
-4-1-1+2+4 = 0 . ✓Essa verificação apanha erros de sinal em dois segundos, e vale a pena fazê-la sempre antes de elevar ao quadrado.
O tempo de vida de uma lâmpada é Normal com
Determina a percentagem aproximada de lâmpadas que duram mais de
- Quantos desvios-padrão:
\dfrac{1400-1200}{100} = 2 . É{\mu}+2{\sigma} . - Dentro de dois desvios fica
0{,}954 , logo fora fica1-0{,}954 = 0{,}046 . - Por simetria, à direita fica metade:
P(X > 1400) \approx \frac{0{,}046}{2} = 0{,}023. - Cerca de
2{,}3\% das lâmpadas.Passar do valor para «quantos desvios-padrão» é o gesto que dispensa a calculadora — e é o mesmo que a secção 3 vai fazer com a média amostral.
Python A regra empírica, verificada por simulação
import random
import statistics
mu, sigma = 100, 15
n = 200000
amostra = [random.normalvariate(mu, sigma) for _ in range(n)]
for k in (1, 2, 3):
dentro = sum(1 for x in amostra if mu - k*sigma < x < mu + k*sigma)
print('%d desvios-padrao -> %.4f' % (k, dentro / n))
print('media :', round(statistics.mean(amostra), 3))
print('desvio :', round(statistics.stdev(amostra), 3))
# A regra empirica nao e' um palpite: e' uma propriedade da curva Normal.
# Este programa comprova-a gerando duzentos mil valores.
import random
import statistics
mu, sigma = 100, 15
n = 200000
amostra = [random.normalvariate(mu, sigma) for _ in range(n)]
for k in (1, 2, 3):
# conta quantos caem dentro de k desvios-padrao da media
dentro = sum(1 for x in amostra if mu - k*sigma < x < mu + k*sigma)
print('%d desvios-padrao -> %.4f' % (k, dentro / n)) # 0.683, 0.954, 0.997
print('media :', round(statistics.mean(amostra), 3)) # perto de 100
print('desvio :', round(statistics.stdev(amostra), 3)) # perto de 15
Saem n para
Exercícios propostos
Doze exercícios de revisão. Os que falam de amostras enviesadas não são acessórios: tudo o que este capítulo constrói assenta em a amostra ser aleatória.
A cor do título dá o grau de dificuldade: verde, aplicação direta · amarelo, exige uma ideia intermédia · vermelho, justificação ou generalização, ao nível do Exame.
Considera a amostra
a) Determina a média.b) Determina o desvio-padrão amostral, com três casas decimais.
Seja
Indica, sem calculadora, o valor aproximado de
Sendo
Numa turma de
Determina a nova média, com três casas decimais.
Numa escola com
a) Indica a população em estudo.b) Explica por que razão perguntar apenas aos alunos do 12.º ano não daria uma amostra representativa.
Seja
Uma amostra de
Determina o quarto valor.
Explica a diferença entre população e amostra, e dá um exemplo em que a população é infinita.
Sendo
Mostra que, se a cada valor de uma amostra se somar uma constante
Uma máquina enche pacotes com peso Normal de valor médio
Determina a percentagem aproximada de pacotes rejeitados.
Uma sondagem por telefone fixo, realizada às
Aponta duas razões pelas quais esta amostra pode não ser representativa da população portuguesa.
O desvio-padrão amostral divide por
- a)
\bar{x} = \dfrac{2+5+5+8+10}{5} = 6 . - b) Os desvios são
-4, -1, -1, 2, 4 , e os quadrados16, 1, 1, 4, 16 , que somam38 .s = \sqrt{\frac{38}{5-1}} = \sqrt{9{,}5} \approx 3{,}082. On-1 não é capricho: é ele que faz des^{2} um bom estimador da variância da população. Comn no denominador, o valor sai sistematicamente pequeno demais.
É o intervalo
85 = {\mu} - {\sigma} e115 = {\mu} + {\sigma} .- Pela regra empírica,
P({\mu}-{\sigma} < X < {\mu}+{\sigma}) \approx 0{,}954 ? Não: esse é o de2{\sigma} . Para1{\sigma} ,P(85 < X < 115) \approx 0{,}683. Os três valores a ter na cabeça:68{,}3\% a um desvio-padrão,95{,}4\% a dois,99{,}7\% a três. O1{,}96 dos intervalos de confiança é o que dá exatamente95\% .
Aplica a fórmula e usa a regra empírica.
\left]20-8,\ 20+8\right[ = \left]12,\ 28\right[ .P(12 < X < 28) \approx 0{,}954 .
A média é a soma a dividir pelo número. Reconstrói a soma antiga.
- A soma antiga:
25 \times 1{,}68 = 42 . - A nova:
42 + 1{,}94 = 43{,}94 , agora com26 alunos. \bar{x} = \frac{43{,}94}{26} \approx 1{,}690\ \text{m}. Um valor extremo mexe pouco numa amostra grande e muito numa pequena. É essa a intuição que a secção 2 vai transformar em fórmula.
Uma amostra é representativa quando todos os elementos da população têm hipóteses de lá entrar.
- a) Os
800 alunos da escola. - b) Os alunos do 12.º ano são mais velhos, vivem eventualmente mais longe e alguns já conduzem — a percentagem que vai a pé pode ser sistematicamente diferente da do resto da escola. A amostra ficaria enviesada.Uma amostra grande mal escolhida é pior do que uma pequena bem escolhida: o enviesamento não desaparece por se recolherem mais dados.
Não são exatamente dois desvios-padrão: o valor que dá
- Para
95\% exatos,a = 1{,}96\,{\sigma} . a = 1{,}96 \times 50 = 98. - O intervalo é
\left]402,\ 598\right[ .O1{,}96 vai aparecer em todos os intervalos de confiança a95\% deste capítulo. Vale a pena saber de onde vem: é o valor que deixa2{,}5\% de cada lado.
A soma dos quatro é
- A soma:
4 \times 10 = 40 . - O quarto:
40 - (7+9+12) = 40 - 28 = 12 .
Pensa num processo que possa ser repetido sem limite.
- População é o conjunto de todos os elementos sobre os quais se quer concluir; amostra é o subconjunto efetivamente observado.
- População infinita: todos os lançamentos possíveis de um dado; ou todas as peças que uma máquina virá a produzir. Não se podem observar todos — nem sequer existem todos ao mesmo tempo.Quando a população é infinita, o censo é impossível por princípio, e não por falta de dinheiro. É aí que a inferência deixa de ser uma comodidade e passa a ser a única via.
A curva Normal é simétrica em relação a
- Fora do intervalo fica
1 - 0{,}95 = 0{,}05 . - Por simetria, metade de cada lado:
P(X > 1{,}96) = \frac{0{,}05}{2} = 0{,}025. É esta a leitura do1{,}96 : é o valor que deixa2{,}5\% à direita — e por isso se escrevez_{0{,}975} .
Escreve a nova média e os novos desvios em relação a ela.
- A nova média. Se
y_{i} = x_{i}+k , então\bar{y} = \frac{\sum(x_{i}+k)}{n} = \frac{\sum x_{i} + nk}{n} = \bar{x} + k. - Os desvios:
y_{i}-\bar{y} = (x_{i}+k)-(\bar{x}+k) = x_{i}-\bar{x} . São exatamente os mesmos. - Logo a soma dos quadrados não muda, e o desvio-padrão também não.Somar uma constante desloca tudo em bloco: a dispersão é a mesma. Já multiplicar por uma constante multiplica o desvio-padrão por ela.
Quantos desvios-padrão abaixo da média está
- Quantos desvios:
\dfrac{484-500}{8} = -2 . É exatamente{\mu}-2{\sigma} . - Pela regra empírica,
P({\mu}-2{\sigma} < X < {\mu}+2{\sigma}) \approx 0{,}954 , logo fora fica0{,}046 . - Por simetria, à esquerda fica metade:
0{,}023 , ou seja cerca de2{,}3\% .
Pergunta-te: quem é que pode entrar nesta amostra, e quem é que fica sistematicamente de fora?
- O telefone fixo. Uma parte grande da população já não tem telefone fixo, e essa parte não é aleatória — tende a ser mais jovem e mais urbana.
- A hora. Às
15 horas de um dia útil, quem atende tende a ser quem está em casa: reformados, desempregados, quem trabalha por turnos. Quem está a trabalhar fica de fora. - A amostra é enviesada: há grupos com probabilidade nula, ou muito reduzida, de serem escolhidos.Tudo o que este capítulo constrói — estimadores, intervalos, margens de erro — assenta na hipótese de a amostra ser aleatória. Se ela falhar, nenhuma fórmula salva o resultado.
Da amostra à população
Toda a estatística que vem antes deste capítulo descreve dados. A partir daqui faz-se outra coisa: a partir de uma parte, afirma-se alguma coisa sobre o todo — e assume-se que se pode estar enganado.
- Distinguir raciocínio indutivo ou inferencial de raciocínio dedutivo.
- Distinguir parâmetro de estatística, e estimador de estimativa.
- Compreender o conceito de amostra aleatória.
1 · Um raciocínio de outro tipo
Até aqui, a matemática deste livro foi sempre dedutiva: das hipóteses tira-se a conclusão, e a conclusão é certa. A inferência estatística é indutiva: do particular tira-se o geral, e a conclusão vem sempre com uma medida de incerteza colada.
Numa demonstração, a conclusão é verdadeira. Numa inferência, a conclusão é provável — e a estatística serve, precisamente, para dizer quão provável.
2 · Parâmetro e estatística
Parâmetro: um valor da população — fixo e, em geral, desconhecido. Estatística: um valor calculado a partir da amostra — conhecido, mas diferente de amostra para amostra.
| População (parâmetro) | Amostra (estatística) | |
|---|---|---|
| Valor médio | ||
| Desvio-padrão | ||
| Proporção |
A notação faz metade do trabalho: letra grega ou
3 · Estimador e estimativa
Estimador: a regra usada para estimar um parâmetro — por exemplo,
A distinção parece formal e não é. O estimador, sendo variável aleatória, tem uma distribuição — e é essa distribuição que permite dizer alguma coisa sobre o erro que se está a cometer. É o assunto da secção 2.
Diz-se centrado quando o seu valor médio é o próprio parâmetro. A média amostral é centrada:
4 · Amostra aleatória
Uma amostra diz-se aleatória quando todos os elementos da população têm a mesma probabilidade de nela figurar, e a escolha de um não influencia a dos outros.
Tudo o que vem a seguir — a distribuição de amostragem, o Teorema Limite Central, os intervalos de confiança — assenta em a amostra ser aleatória. Se não for, nenhuma fórmula corrige o problema: uma amostra enviesada de dez mil pessoas é pior do que uma amostra aleatória de mil.
Uma fábrica quer conhecer o peso médio dos pacotes que produz. Pesa
Identifica a população, a amostra, o parâmetro, o estimador e a estimativa.
- População: todos os pacotes produzidos pela fábrica.
- Amostra: os
60 pacotes pesados. - Parâmetro:
{\mu} , o peso médio de todos os pacotes — desconhecido. - Estimador: a média amostral
\bar{X} . - Estimativa:
\bar{x} = 498{,}2 g.O7{,}1 é também uma estatística —s , a estimativa de{\sigma} . Vai fazer falta na secção 3, quando o{\sigma} da fórmula tiver de ser substituído por alguma coisa conhecida.
Para estimar o tempo médio que os alunos demoram a chegar à escola, um professor pergunta aos alunos da sua turma da primeira aula da manhã.
Explica por que razão a amostra não é aleatória e em que sentido a estimativa é previsivelmente enviesada.
- Não é aleatória. Os alunos das outras turmas têm probabilidade nula de entrar na amostra — e a condição exige que todos tenham a mesma.
- O enviesamento. Quem se inscreve numa turma com aula à primeira hora tende a morar mais perto, ou a ter transporte mais fiável. Quem mora longe evita essas turmas.
- A estimativa será, previsivelmente, inferior ao verdadeiro tempo médio.
- A correção não é inquirir mais alunos da mesma turma: é sortear alunos de toda a escola.Identificar a direção do enviesamento — para cima ou para baixo — é o que distingue uma crítica útil de uma objeção vaga.
Python A mesma população, cinco amostras
import random
import statistics
random.seed(7)
populacao = [random.normalvariate(70, 12) for _ in range(100000)]
print('mu verdadeiro :', round(statistics.mean(populacao), 3))
print()
for k in range(5):
amostra = random.sample(populacao, 30)
print('amostra %d -> media = %7.3f desvio = %6.3f'
% (k + 1, statistics.mean(amostra), statistics.stdev(amostra)))
# Aqui conhecemos a populacao toda - o que na vida real nunca acontece.
# Serve para VER a variabilidade amostral em vez de acreditar nela.
import random
import statistics
random.seed(7) # para o resultado ser sempre o mesmo
populacao = [random.normalvariate(70, 12) for _ in range(100000)]
print('mu verdadeiro :', round(statistics.mean(populacao), 3))
print()
for k in range(5):
amostra = random.sample(populacao, 30) # 30 elementos, sem repeticao
# cinco amostras da MESMA populacao dao cinco medias diferentes
print('amostra %d -> media = %7.3f desvio = %6.3f'
% (k + 1, statistics.mean(amostra), statistics.stdev(amostra)))
Cinco médias diferentes, todas à volta de
Exercícios propostos
Doze exercícios. Metade deles não tem contas nenhumas — são sobre o que se pode e não se pode afirmar, que é onde a inferência se decide.
Classifica cada valor como parâmetro ou estatística.
a) A altura média dos
Indica o que representa cada símbolo:
Numa amostra de
a) Indica o estimador utilizado.b) Indica a estimativa obtida.
Indica, justificando, qual dos processos seguintes dá uma amostra aleatória dos
a) Perguntar aos primeiros
Três amostras de dimensão
Explica por que razão isto não significa que houve erro em alguma delas.
Numa sondagem a
a) Determina
Para estimar o número médio de livros lidos por ano, uma revista publica um questionário e recolhe as respostas de quem quiser participar.
Explica por que razão a estimativa obtida será, previsivelmente, demasiado alta.
Para estimar o valor médio de uma população, alguém propõe usar, em vez da média, o maior valor da amostra.
Explica por que razão este estimador não é adequado.
Numa população, sabe-se que
Indica quais destes quatro números são conhecidos ao investigador numa situação real.
Mostra que, se
Uma empresa tem
Explica por que razão sortear
Um jornal escreve: «A sondagem revela que
Reescreve a frase de modo estatisticamente correto, admitindo que a sondagem inquiriu
A pergunta é sempre a mesma: o número foi calculado a partir de toda a população, ou só da amostra?
- a) Parâmetro — vem da população inteira.
- b) Estatística — vem de uma amostra.
- c) Estatística — também vem de uma amostra.Um parâmetro é um número fixo e, em geral, desconhecido. Uma estatística é conhecida — mas muda de amostra para amostra.
As letras gregas e o
- Da população:
{\mu} valor médio,{\sigma} desvio-padrão,p proporção. São parâmetros. - Da amostra:
\bar{x} média,s desvio-padrão,\hat{p} proporção. São estatísticas.A notação faz metade do trabalho: assim que se vê um chapéu ou uma barra, sabe-se que aquilo veio de uma amostra e que muda se a amostra mudar.
O estimador é a regra; a estimativa é o número que ela devolveu nesta amostra.
- a) O estimador é a média amostral
\bar{X} . - b) A estimativa é
1180 horas.A distinção não é preciosismo: o estimador é uma variável aleatória, com distribuição própria — e é essa distribuição que a secção 2 estuda. A estimativa é só um valor que ela tomou desta vez.
Numa amostra aleatória, todos os elementos têm de ter a mesma probabilidade de ser escolhidos.
- a) Não. Quem chega cedo não é um grupo aleatório — mora perto, vem de transporte próprio, tem hábitos diferentes.
- b) Sim. Cada aluno tem probabilidade
\frac{50}{1200} de ser escolhido, e a escolha não depende de nenhuma característica sua.
O que é que muda de amostra para amostra: o parâmetro, ou a estatística?
- O valor médio
{\mu} da população é um só e não muda. - A média amostral
\bar{X} é uma variável aleatória: depende de quais elementos calharam na amostra, e por isso muda de amostra para amostra. - As três estimativas diferentes são o comportamento esperado, e não um erro. Chama-se variabilidade amostral.É esta variabilidade que torna uma estimativa pontual insuficiente — e que obriga, na secção 3, a dar um intervalo em vez de um número.
A proporção amostral é a contagem a dividir pela dimensão.
- a)
\hat{p} = \dfrac{430}{1000} = 0{,}43 . - b) O parâmetro é
p , a proporção de toda a população de eleitores com essa intenção de voto — que é desconhecida.Dizer «43\% vai votar naquele partido» é confundir\hat{p} comp . O que se sabe é\hat{p} ; o que se quer ép , e entre os dois há uma margem de erro.
Quem é que responde voluntariamente a um questionário de uma revista sobre leitura?
- A amostra é de resposta voluntária: só entra quem decide participar.
- Quem lê a revista e se dá ao trabalho de responder a um questionário sobre leitura lê, previsivelmente, mais do que a média da população.
- A estimativa fica enviesada por excesso, e aumentar a amostra não corrige nada — só torna o valor errado mais preciso.É o erro mais caro da estatística aplicada: um enviesamento não se cura com mais dados. A única correção é mudar o processo de amostragem.
Um bom estimador deve acertar em média. Onde é que o maior valor da amostra cai, em relação a
- O maior valor de uma amostra é, quase sempre, maior do que o valor médio da população.
- Repetindo o processo muitas vezes, as estimativas ficariam sistematicamente acima de
{\mu} : o estimador é enviesado. - Pior: aumentar a dimensão da amostra agrava o problema, porque o máximo tende a crescer.A média amostral não tem este defeito: em média acerta em
{\mu} , e a variabilidade diminui comn . É por isso que é a escolha.
Numa situação real, o que é que se conhece: os parâmetros ou as estatísticas?
- Conhecidos:
\bar{x} = 68{,}5 es = 11{,}2 — calculam-se a partir dos dados recolhidos. - Desconhecidos:
{\mu} e{\sigma} — são exatamente o que se quer estimar. Se fossem conhecidos, não haveria problema nenhum.Nos exercícios dá-se{\mu} para se poder verificar se o método funciona. Na vida real, ninguém o conhece — e é isso que torna o intervalo de confiança necessário.
Usa a linearidade do valor médio: o valor médio de uma soma é a soma dos valores médios.
- Cada
X_{i} tem valor médio{\mu} . - Pela linearidade,
E\left[\bar{X}\right] = \frac{1}{n}\left(E[X_{1}] + \cdots + E[X_{n}]\right) = \frac{1}{n} \times n{\mu} = {\mu}. - Diz-se que
\bar{X} é um estimador centrado de{\mu} : em média, acerta.Acertar em média não é acertar sempre. Falta saber quanto se desvia — e essa é a pergunta da secção 2.
Calcula a probabilidade de um trabalhador da produção ser escolhido, e a de um dos escritórios.
- Na produção:
\dfrac{100}{3000} = \dfrac{1}{30} \approx 0{,}033 . - Nos escritórios:
\dfrac{100}{1000} = \dfrac{1}{10} = 0{,}1 . - Um trabalhador dos escritórios tem três vezes mais probabilidade de entrar. Os escritórios ficam sobre-representados.
- Para respeitar as proporções, seriam
150 da produção e50 dos escritórios.Isto não quer dizer que a amostragem por grupos seja má — é até muito usada. Mas exige que os resultados sejam depois ponderados, e não simplesmente misturados.
O que a sondagem observou foi
- O que se observou:
\hat{p} = 0{,}38 numa amostra de1000 . - O que a frase afirma: que
p = 0{,}38 na população inteira — o que a sondagem não permite garantir. - Uma redação correta: «Numa amostra de
1000 portugueses,38\% declararam-se a favor da medida. Estima-se assim que a percentagem na população esteja próxima de38\% , com uma margem de erro a indicar.»A margem de erro não é um pormenor técnico para o rodapé: sem ela, a frase afirma sobre dez milhões de pessoas o que se observou em mil.
Distribuição de amostragem e o Teorema Limite Central
Se cada amostra dá uma média diferente, então a média amostral é ela própria uma variável aleatória — e tem distribuição. Descobrir qual é resolve o problema todo: é o resultado mais surpreendente da estatística, e um dos mais úteis de toda a matemática.
- Compreender que, para averiguar da eficácia de um estimador, é necessário conhecer a sua distribuição de amostragem.
- Compreender que a distribuição de amostragem depende da dimensão das amostras e apresentará tanto menor variabilidade quanto maior for a dimensão.
- Compreender a utilização do Teorema Limite Central na obtenção da distribuição de amostragem da média.
1 · A distribuição de amostragem
Fixe-se uma dimensão
Chama-se distribuição de amostragem de uma estatística à distribuição dos valores que ela toma quando se consideram todas as amostras possíveis de uma dada dimensão.
Na prática, ninguém recolhe todas as amostras — recolhe-se uma. Mas conhecer esta distribuição é o que permite dizer quão longe de
Para amostras aleatórias de dimensão
A média amostral acerta em média — e varia tanto menos quanto maior for
É
2 · O Teorema Limite Central
Falta o essencial: que forma tem a distribuição de
Seja
qualquer que seja a distribuição da população.
O TLC não diz que a população se torna Normal. A população fica como está — assimétrica, discreta, com duas corcovas, o que for. O que se aproxima da Normal é a distribuição das médias das amostras. São duas distribuições diferentes, e é preciso não as trocar.
Laboratório · O Teorema Limite Central
interativoEscolhe exponencial — nada mais assimétrico — e deixa o
A primeira versão do teorema é de Abraham de Moivre (1667-1754), em 1733: mostrou que o número de caras em muitos lançamentos de uma moeda se aproxima de uma curva em sino. Pierre-Simon Laplace (1749-1827) generalizou-o em 1810, e Carl Friedrich Gauss (1777-1855) tornou a curva indissociável do seu nome. A demonstração no grau de generalidade em que hoje se usa só chegou no início do século XX, com a escola russa de Andrei Markov (1856-1922) e Aleksandr Lyapunov. Dois séculos entre a intuição e a prova.
O peso dos sacos de cimento produzidos por uma fábrica tem
Determina a probabilidade aproximada de a média da amostra ser inferior a
- A distribuição de
\bar{X} , pelo TLC — que não precisa de saber a forma da população:{\sigma}_{\bar{X}} = \frac{0{,}6}{\sqrt{36}} = \frac{0{,}6}{6} = 0{,}1. - A quantos desvios-padrão está o
24{,}8 :\frac{24{,}8 - 25}{0{,}1} = -2. - Pela regra empírica, abaixo de
-2 desvios-padrão fica\frac{1-0{,}954}{2} = 0{,}023. - Cerca de
2{,}3\% .Não foi preciso saber nada sobre a forma da distribuição dos sacos. É isso que faz do TLC o teorema mais usado da estatística aplicada: dispensa a informação que quase nunca se tem.
Numa população com
Determina a menor dimensão da amostra.
- Traduzir a condição. Com probabilidade
0{,}95 ,\bar{X} fica a menos de1{,}96\,{\sigma}_{\bar{X}} de{\mu} . Logo exige-se1{,}96 \times \frac{18}{\sqrt{n}} < 2. - Resolver:
\sqrt{n} > \frac{1{,}96 \times 18}{2} = 17{,}64 \iff n > 311{,}2. - A menor dimensão inteira é
n = 312 .Arredonda-se sempre por excesso: com311 a condição ainda não se cumpre. É o único arredondamento deste capítulo que não segue a regra habitual.
Python O TLC, medido
import random
import statistics
def media_amostral(n):
return statistics.mean(random.expovariate(1) for _ in range(n))
print('populacao exponencial: mu = 1, sigma = 1')
print('%4s %10s %10s %10s' % ('n', 'media', 'observado', 'previsto'))
for n in (1, 2, 5, 10, 30, 100):
medias = [media_amostral(n) for _ in range(20000)]
print('%4d %10.4f %10.4f %10.4f'
% (n, statistics.mean(medias), statistics.stdev(medias), 1 / n**0.5))
# A exponencial e' muito assimetrica - o pior caso para o TLC.
# Mesmo assim, o desvio-padrao das medias segue sigma/raiz(n).
import random
import statistics
def media_amostral(n):
# media de n observacoes de uma exponencial de parametro 1
return statistics.mean(random.expovariate(1) for _ in range(n))
print('populacao exponencial: mu = 1, sigma = 1')
print('%4s %10s %10s %10s' % ('n', 'media', 'observado', 'previsto'))
for n in (1, 2, 5, 10, 30, 100):
medias = [media_amostral(n) for _ in range(20000)]
# a coluna 'observado' tem de bater com 'previsto' = 1/raiz(n)
print('%4d %10.4f %10.4f %10.4f'
% (n, statistics.mean(medias), statistics.stdev(medias), 1 / n**0.5))
As duas últimas colunas coincidem em todas as linhas, desde
Exercícios propostos
Doze exercícios. Em quase todos, o primeiro passo é o mesmo: calcular
Uma população tem
a) Indica o valor médio de
Com
Indica se cada afirmação é verdadeira ou falsa, e justifica.
a) O TLC exige que a população tenha distribuição Normal. b) O TLC diz respeito à distribuição da média amostral, e não à da população.
Uma população tem
Com
Duas amostras da mesma população têm dimensões
Quantas vezes menor é o desvio-padrão da média na segunda?
Uma população só tem os valores
Explica por que razão, mesmo assim, a média de amostras de dimensão
O tempo de atendimento num balcão tem
Determina a probabilidade aproximada de a média de
Pretende-se que o desvio-padrão de
Determina a menor dimensão de amostra que serve.
Explica por que razão a fórmula
Um elevador suporta
Determina a probabilidade aproximada de
Duas amostras da mesma população, uma de dimensão
Mostra que a amplitude do intervalo
O valor médio de
- a)
E\left[\bar{X}\right] = {\mu} = 60 . - b)
\frac{{\sigma}}{\sqrt{n}} = \frac{15}{\sqrt{25}} = \frac{15}{5} = 3. - A média de
25 observações varia cinco vezes menos do que uma observação isolada.É o\sqrt{n} que faz a estatística funcionar — e é também ele que a torna cara: para dividir a variabilidade por2 é preciso quadruplicar a amostra.
Resolve
\frac{20}{\sqrt{n}} = 2 \iff \sqrt{n} = 10 \iff n = 100.
Volta ao enunciado do teorema: sobre que variável é que ele fala?
- a) Falsa. É precisamente o contrário: o TLC vale seja qual for a distribuição da população, desde que a amostra seja suficientemente grande.
- b) Verdadeira. O teorema descreve o comportamento de
\bar{X} . A população continua com a forma que tinha.Confundir as duas distribuições é o erro central deste tema. A população pode ser assimétrica, discreta, com duas corcovas — a média amostral aproxima-se da Normal na mesma.
Pelo TLC, é Normal. Falta dizer com que valor médio e que desvio-padrão.
- Valor médio:
500 . - Desvio-padrão:
\dfrac{40}{\sqrt{64}} = \dfrac{40}{8} = 5 . - Logo
\bar{X} é aproximadamente Normal com{\mu} = 500 e desvio-padrão5 .
É
- O desvio-padrão de
\bar{X} :5 . - A margem:
1{,}96 \times 5 = 9{,}8 . \left]500-9{,}8,\ 500+9{,}8\right[ = \left]490{,}2,\ 509{,}8\right[. Repara no sentido desta frase: aqui{\mu} é conhecido e o intervalo apanha\bar{X} . Na secção 3 vai inverter-se —\bar{x} é que é conhecido, e o intervalo apanha{\mu} .
Compara
\frac{{\sigma}/\sqrt{50}}{{\sigma}/\sqrt{200}} = \sqrt{\frac{200}{50}} = \sqrt{4} = 2. - É duas vezes menor — e não quatro, apesar de a amostra ser quatro vezes maior.A raiz quadrada é a má notícia da estatística: o ganho em precisão cresce muito mais devagar do que o custo de recolher dados.
O TLC não pede nada à forma da população — só que a amostra seja grande.
- A população é discreta e só toma dois valores: nada mais longe de uma Normal.
- Mas o TLC não impõe condições à forma da população. Com
n = 100 , suficientemente grande,\bar{X} é aproximadamente Normal com valor médio0{,}3 e desvio-padrão\frac{0{,}458}{\sqrt{100}} \approx 0{,}046. - Note-se que
\bar{X} , aqui, é a proporção de uns na amostra — é o\hat{p} da secção 4.É este caso que faz as sondagens funcionarem: uma população de zeros e uns, e uma média amostral que se comporta como uma Normal.
Calcula o desvio-padrão de
- Desvio-padrão de
\bar{X} :\dfrac{2{,}5}{\sqrt{100}} = 0{,}25 . - A quantos desvios:
\dfrac{4{,}5-4}{0{,}25} = 2 . - Pela regra empírica, acima de
2 desvios-padrão fica\dfrac{1-0{,}954}{2} = 0{,}023 . - Cerca de
2{,}3\% .A distribuição dos atendimentos é assimétrica, e para um só atendimento a regra empírica não valeria. Para a média de cem, vale — é o TLC a trabalhar.
Resolve a inequação
\frac{12}{\sqrt{n}} \leq 1 \iff \sqrt{n} \geq 12 \iff n \geq 144. - A menor dimensão é
n = 144 .A dimensão sai sempre de uma inequação, e arredonda-se por excesso: com143 a condição já não se cumpre.
Substitui
- Com
n = 1 :\dfrac{{\sigma}}{\sqrt{1}} = {\sigma} . Faz sentido — a «média» de uma só observação é essa observação, e varia tanto como ela. - Com
n \to +\infty :\lim_{n \to +\infty} \frac{{\sigma}}{\sqrt{n}} = 0. A média amostral deixa de variar: com a população inteira,\bar{X} é exatamente{\mu} . - A fórmula liga corretamente os dois extremos.Testar uma fórmula nos casos extremos é o hábito mais barato que há para apanhar erros — e aqui confirma que o
\sqrt{n} está no sítio certo.
Exceder
- Traduzir: a soma excede
600 exatamente quando a média excede\dfrac{600}{8} = 75 kg. - Desvio-padrão de
\bar{X} :\dfrac{12}{\sqrt{8}} \approx 4{,}243 . - A quantos desvios:
\dfrac{75-70}{4{,}243} \approx 1{,}18 . - Consultando a Normal,
P(Z > 1{,}18) \approx 0{,}119 : cerca de12\% .Comn = 8 , a aproximação Normal é frágil se a população for muito assimétrica. Aqui o peso das pessoas já é aproximadamente Normal, e por isso a conta vale.
Escreve as duas amplitudes e divide uma pela outra.
- As amplitudes:
2 \times 1{,}96\dfrac{{\sigma}}{\sqrt{n}} e2 \times 1{,}96\dfrac{{\sigma}}{\sqrt{4n}} . - A razão:
\frac{{\sigma}/\sqrt{4n}}{{\sigma}/\sqrt{n}} = \frac{\sqrt{n}}{\sqrt{4n}} = \frac{1}{2}. - Para reduzir a amplitude a metade é preciso quadruplicar a amostra — quatro vezes o custo e o tempo, para o dobro da precisão.É a razão económica por que as sondagens param nos mil inquiridos: passar de mil para quatro mil só reduz a margem de erro a metade, e custa quatro vezes mais.
Intervalos de confiança para o valor médio
Uma estimativa pontual dá um número e não diz nada sobre o erro. A alternativa é dar um intervalo, e dizer com que frequência um método destes acerta. Toda a dificuldade está em perceber o que essa frequência quer dizer — e o que não quer.
- Reconhecer as limitações das estimativas pontuais, devido à variabilidade amostral.
- Utilizar o modelo Normal como aproximação da distribuição de amostragem da média, para estimar o valor médio
{\mu} . - Reconhecer a fórmula geral para o intervalo de confiança com uma confiança de
100(1-{\alpha})\% .
1 · Porque é que um número não chega
A secção 1 mostrou que amostras diferentes dão estimativas diferentes. Uma estimativa pontual — «
2 · De onde vem a fórmula
Pelo Teorema Limite Central, para
Agora o passo decisivo: a condição «
Substituindo
Na prática quase nunca se conhece
3 · O que «95% de confiança» quer dizer
Lê-se «a probabilidade de o intervalo conter
A leitura correta é sobre o método: se se recolhessem 100 amostras e se construísse um intervalo para cada uma, esperar-se-ia que cerca de 95 contivessem
Laboratório · Cem intervalos de confiança
interativoCada traço é um intervalo, construído a partir de uma amostra diferente da mesma população, com
4 · Outros níveis de confiança
Para uma confiança de
| Confiança | ||
|---|---|---|
Uma amostra aleatória de
Constrói um intervalo de
- O que se tem:
\bar{x} = 248{,}6 ,s = 6 ,n = 144 . Como{\sigma} é desconhecido, usa-ses . - A margem de erro:
1{,}96 \times \frac{6}{\sqrt{144}} = 1{,}96 \times \frac{6}{12} = 1{,}96 \times 0{,}5 = 0{,}98. - O intervalo:
\left]248{,}6 - 0{,}98,\ \ 248{,}6 + 0{,}98\right[ = \left]247{,}62,\ 249{,}58\right[. - A leitura: construiu-se o intervalo por um método que, repetido muitas vezes, produz intervalos que contêm o verdadeiro peso médio em cerca de
95\% dos casos.Repara que250 g fica fora do intervalo. Se a embalagem anunciar250 g, os dados não sustentam essa afirmação.
Com
- O erro-padrão, igual nos três casos:
\frac{s}{\sqrt{n}} = \frac{10}{10} = 1. - As três margens:
1{,}645 ,1{,}96 e2{,}576 . - Os três intervalos:
\left]68{,}36,\ 71{,}64\right[, \quad \left]68{,}04,\ 71{,}96\right[, \quad \left]67{,}42,\ 72{,}58\right[. - Os três estão centrados no mesmo
70 e vão-se alargando.Não há aqui escolha «certa»: a confiança decide-se antes de olhar para os dados, em função do risco que se aceita correr. Escolhê-la depois, para obter o intervalo que convém, é fraude.
Python Cem intervalos, e quantos acertam
import random
import statistics
import math
num_amostras = 100
dim_amostra = 20
mu = 0
acertos = 0
for i in range(num_amostras):
amostra = [random.normalvariate(mu, 1) for k in range(dim_amostra)]
vmedio = statistics.mean(amostra)
desvio_padrao = statistics.stdev(amostra)
d = 1.96 * desvio_padrao / math.sqrt(dim_amostra)
if vmedio - d <= mu <= vmedio + d:
acertos = acertos + 1
print('intervalos que contem o valor medio:', acertos, 'em', num_amostras)
# E' o programa das Aprendizagens Essenciais, com uma contagem no fim.
# Como aqui SABEMOS que mu = 0, podemos verificar quais os intervalos que acertam.
import random
import statistics
import math
num_amostras = 100
dim_amostra = 20
mu = 0
acertos = 0
for i in range(num_amostras):
amostra = [random.normalvariate(mu, 1) for k in range(dim_amostra)]
vmedio = statistics.mean(amostra)
desvio_padrao = statistics.stdev(amostra) # o s, com n-1
d = 1.96 * desvio_padrao / math.sqrt(dim_amostra) # a margem de erro
if vmedio - d <= mu <= vmedio + d: # o intervalo contem mu?
acertos = acertos + 1
# esperam-se ~95; o valor exato muda de execucao para execucao
print('intervalos que contem o valor medio:', acertos, 'em', num_amostras)
Corre várias vezes: sai dim_amostra para
Exercícios propostos
Doze exercícios. Os que pedem interpretação valem tanto como os que pedem contas: é aí que se separa quem percebeu o que é a confiança de quem só aplicou a fórmula.
Uma amostra de
Constrói um intervalo de
Numa amostra de
Constrói um intervalo de
Obteve-se o intervalo de
Indica qual das leituras seguintes é correta, e porquê.
a) «A probabilidade de
Com
Numa simulação, construíram-se
Quantos intervalos se espera que não contenham
Numa amostra de
a) Constrói o intervalo a
Para a mesma amostra, constrói-se um intervalo a
Explica, sem contas, qual dos dois é mais largo e porquê.
De uma amostra sabe-se apenas que o intervalo de
Determina
Um fabricante afirma que os seus pacotes têm em média
Comenta a afirmação do fabricante.
Numa amostra de dimensão
Determina
Dois investigadores estudam a mesma população. O primeiro, com
Os resultados são contraditórios? Justifica.
Mostra que, mantendo tudo o resto igual, passar de
É
- A margem:
1{,}96 \times \frac{20}{\sqrt{100}} = 1{,}96 \times 2 = 3{,}92. - O intervalo:
\left]250-3{,}92,\ 250+3{,}92\right[ = \left]246{,}08,\ 253{,}92\right[.
Como
- A margem, com
s a substituir{\sigma} :1{,}96 \times \frac{4}{\sqrt{64}} = 1{,}96 \times 0{,}5 = 0{,}98. - O intervalo:
\left]11{,}52,\ 13{,}48\right[ horas.Substituir{\sigma} pors é o que se faz na prática, porque{\sigma} quase nunca se conhece. Comn grande — na ordem das dezenas — a aproximação é boa.
Pergunta-te o que é que é aleatório: o
- A correta é a b).
- Porquê. O valor
{\mu} é um número fixo: ou está dentro de\left]48{,}2,\ 51{,}8\right[ ou não está. Não há probabilidade nenhuma nisso. - O que é aleatório são os extremos, que dependem da amostra que calhou. A confiança de
95\% é uma propriedade do método, não deste intervalo em particular.É a distinção mais importante do capítulo, e a mais maltratada nos jornais. «A probabilidade de o intervalo conter{\mu} » está certo; «a probabilidade de{\mu} estar no intervalo» está errado.
A fórmula é a mesma; muda só o
- A margem:
2{,}576 \times \dfrac{12}{6} = 2{,}576 \times 2 = 5{,}152 . - O intervalo:
\left]74{,}85,\ 85{,}15\right[ .Compara com o que daria a95\% : margem3{,}92 , intervalo mais estreito. Mais confiança custa sempre menos precisão.
Espera-se que
- O esperado:
5\% de200 , ou seja10 intervalos. - Seriam
14 estranhos? Não. O número de falhas varia de simulação para simulação;14 está perfeitamente dentro do que se observa habitualmente. - O que seria estranho era obter, digamos,
60 falhas — aí haveria motivo para suspeitar do método.A confiança de95\% é uma média a longo prazo, não uma promessa exata para cada conjunto de200 intervalos.
A margem de erro é metade da amplitude do intervalo.
- a) A margem:
1{,}96 \times \dfrac{2{,}1}{7} = 1{,}96 \times 0{,}3 = 0{,}588 .\left]17{,}812,\ 18{,}988\right[. - b) A margem de erro é
0{,}588 horas — metade da amplitude, que é1{,}176 .
Mais confiança significa apanhar
- O de
99\% é mais largo, porque2{,}576 > 1{,}645 . - Porquê. Para que o método falhe menos vezes, o intervalo tem de ser mais generoso — tem de abrir mais para apanhar
{\mu} em mais casos. - Há sempre uma troca: mais confiança, menos precisão. Um intervalo de
100\% de confiança seria\left]-\infty,\ +\infty\right[ , que acerta sempre e não informa nada.É o argumento que fecha a questão: um intervalo que nunca falha é um intervalo que nada diz. A confiança só tem valor quando se paga em amplitude.
O intervalo é simétrico em torno de
- O centro:
\bar{x} = \dfrac{32{,}4+37{,}6}{2} = 35 . - A margem:
37{,}6 - 35 = 2{,}6 .
O valor
- O valor
500 não pertence ao intervalo, que termina em498{,}3 . - Os dados são, portanto, pouco compatíveis com a afirmação: se o valor médio fosse mesmo
500 , um intervalo destes teria menos de5\% de hipóteses de o deixar de fora. - Há motivo para duvidar da afirmação — sem que isso seja uma prova de que é falsa.É o mais longe que este capítulo vai em «testar» uma afirmação. O procedimento formal — os testes de hipóteses — fica fora das Aprendizagens Essenciais.
A amplitude é
2 \times 1{,}96 \times \frac{15}{\sqrt{n}} = 4 \iff \frac{58{,}8}{\sqrt{n}} = 4. \sqrt{n} = 14{,}7 \iff n = 216{,}09. - Como
n é inteiro, e para a amplitude não exceder4 , toma-sen = 217 .Cuidado com a amplitude e a margem: a amplitude é o dobro da margem. Confundi-las dá umn quatro vezes errado.
Vê se os dois intervalos se intersetam, e compara as amplitudes com as dimensões.
- Não são contraditórios: os dois intervalos intersetam-se em
\left]50{,}5,\ 51{,}5\right[ , e qualquer valor aí é compatível com ambos. - As amplitudes.
4 contra1 : o segundo é quatro vezes mais estreito porque a amostra é quatro vezes maior… e\sqrt{4} = 2 daria apenas metade. A diferença extra vem des ter saído menor nesta amostra. - O segundo intervalo é mais informativo, por ser mais estreito com a mesma confiança.Dois intervalos que não se intersetassem já seriam sinal de problema: ou uma das amostras não era aleatória, ou as populações não eram as mesmas.
A amplitude é proporcional a
- A amplitude é
2z\dfrac{{\sigma}}{\sqrt{n}} : com{\sigma} en fixos, é proporcional az . \frac{2{,}576}{1{,}96} \approx 1{,}314. - Um aumento de cerca de
31{,}4\% .Para o mesmo ganho por via da amostra seria preciso reduzirn em cerca de42\% — porque on entra debaixo da raiz e oz não. É por isso que a confiança é uma escolha barata e on uma escolha cara.
Margem de erro e proporções
O número que aparece no rodapé de todas as sondagens. Saber de onde vem — e o que é preciso pagar para o reduzir — é o que permite ler uma sondagem sem acreditar em coisas que ela não diz.
- Saber que a margem de erro é igual a metade da amplitude do intervalo.
- Explorar a relação entre a margem de erro, a confiança e a dimensão da amostra.
- Reconhecer que a proporção populacional
p é um caso particular do valor médio, e obter o intervalo de confiança parap . - Saber fazer uma leitura adequada da informação veiculada pela comunicação social quando apresenta resultados de sondagens.
1 · A margem de erro
A margem de erro é metade da amplitude do intervalo de confiança:
O intervalo escreve-se então, simplesmente,
Três quantidades a determinam, e só uma delas se decide livremente:
| Quantidade | Efeito na margem | Quem manda |
|---|---|---|
| confiança ( | mais confiança, maior margem | decide-se, e é grátis |
| desvio-padrão ( | mais dispersão, maior margem | é da população; não se escolhe |
| dimensão ( | maior | decide-se, e custa dinheiro |
A margem é proporcional a
Laboratório · A margem de erro
interativoAs três curvas são as três confianças. Repara na forma: desce muito depressa no início e depois quase não desce. Passar de
2 · Uma proporção é um valor médio
Para estimar a proporção
O valor médio desta variável é
É a fórmula da secção 3 com
A função
3 · Ler uma sondagem
Com a margem de erro à mão, três leituras passam a ser possíveis — e a terceira é a que mais falta faz.
Qual é a margem de erro? Sem ela, a percentagem não significa nada. Como foi recolhida a amostra? Uma amostra não aleatória invalida tudo o que se siga. A diferença é maior do que a margem? Se não for, não há conclusão — é um empate técnico, por muito que os títulos digam o contrário.
Numa sondagem a
Constrói o intervalo de
- A proporção amostral:
\hat{p} = 0{,}45 . - A margem de erro:
1{,}96\sqrt{\frac{0{,}45 \times 0{,}55}{800}} = 1{,}96\sqrt{0{,}000309} \approx 1{,}96 \times 0{,}0176 \approx 0{,}0345. - O intervalo:
\left]0{,}4155,\ 0{,}4845\right[, \quad\text{ou seja } \left]41{,}6\%,\ 48{,}5\%\right[. - A discussão. O valor
0{,}5 fica fora do intervalo, e acima dele. Os dados são pouco compatíveis com «metade ou mais a favor» — há, portanto, indício de oposição maioritária.Note-se a diferença em relação a um resultado de48\% : aí o intervalo conteria0{,}5 e não haveria conclusão nenhuma. São três pontos percentuais a separar «há indício» de «não se sabe».
Uma câmara municipal quer estimar a proporção de habitantes que usam transportes públicos, com margem de erro não superior a
Determina a dimensão mínima da amostra.
- Sem informação prévia, usa-se o pior caso
\hat{p} = 0{,}5 , que maximiza\hat{p}(1-\hat{p}) = 0{,}25 . - A condição:
1{,}96\sqrt{\frac{0{,}25}{n}} \leq 0{,}04 \iff \frac{0{,}98}{\sqrt{n}} \leq 0{,}04. - Resolver:
\sqrt{n} \geq \frac{0{,}98}{0{,}04} = 24{,}5 \iff n \geq 600{,}25. - A dimensão mínima é
n = 601 .Se houvesse informação prévia — digamos, quep anda perto de0{,}2 —, o produto\hat{p}(1-\hat{p}) baixaria para0{,}16 e bastariam385 pessoas. A informação prévia vale dinheiro, literalmente.
Python A margem de erro, tabelada
import math
def margem(p, n, z=1.96):
return z * math.sqrt(p * (1 - p) / n)
print('%6s' % 'n', ''.join('%10s' % ('p=' + str(p)) for p in (0.1, 0.3, 0.5)))
for n in (100, 400, 1000, 2500, 10000):
print('%6d' % n, ''.join('%10.4f' % margem(p, n) for p in (0.1, 0.3, 0.5)))
print()
print('para margem 0,03 com p = 0,5 sao precisos',
math.ceil((1.96 * 0.5 / 0.03) ** 2), 'inquiridos')
# A margem depende de duas coisas: da dimensao e do proprio p.
# O pior caso e' sempre p = 0,5 - e e' esse que se usa quando nao se sabe nada.
import math
def margem(p, n, z=1.96):
return z * math.sqrt(p * (1 - p) / n)
print('%6s' % 'n', ''.join('%10s' % ('p=' + str(p)) for p in (0.1, 0.3, 0.5)))
for n in (100, 400, 1000, 2500, 10000):
# a coluna de p=0,5 e' sempre a maior: e' o pior caso
print('%6d' % n, ''.join('%10.4f' % margem(p, n) for p in (0.1, 0.3, 0.5)))
print()
# resolver 1,96*0,5/raiz(n) = 0,03 em ordem a n, arredondando por excesso
print('para margem 0,03 com p = 0,5 sao precisos',
math.ceil((1.96 * 0.5 / 0.03) ** 2), 'inquiridos')
A coluna de
Exercícios propostos
Doze exercícios. Os que dimensionam a amostra arredondam sempre por excesso; os que leem sondagens comparam a diferença com a margem antes de concluir seja o que for.
Um intervalo de
Determina a margem de erro.
Numa amostra de
Determina
Com os dados do exercício anterior, constrói o intervalo de
Indica, justificando, o efeito de cada mudança sobre a margem de erro.
a) Aumentar a dimensão da amostra. b) Aumentar o nível de confiança.
Pretende-se estimar
Determina a menor dimensão de amostra.
Numa sondagem a
a) Determina a margem de erro a
Uma amostra de
Determina a dimensão necessária.
Duas sondagens sobre o mesmo tema: a primeira com
Determina as duas margens de erro a
Com
Pretende-se estimar uma proporção
Determina a dimensão necessária, usando o pior caso.
Uma notícia afirma: «Sondagem a
Comenta a afirmação, calculando as margens de erro a
Mostra que, para estimar uma proporção com margem de erro
Aplica a fórmula para
A margem de erro é metade da amplitude.
- A amplitude:
21{,}6-18{,}4 = 3{,}2 . - A margem:
\dfrac{3{,}2}{2} = 1{,}6 .
A margem é
- A proporção:
\hat{p} = \dfrac{240}{400} = 0{,}6 . - A margem:
1{,}96\sqrt{\frac{0{,}6 \times 0{,}4}{400}} = 1{,}96\sqrt{0{,}0006} \approx 1{,}96 \times 0{,}0245 \approx 0{,}048. - Ou seja, cerca de
4{,}8 pontos percentuais.
É
\left]0{,}6-0{,}048,\ 0{,}6+0{,}048\right[ = \left]0{,}552,\ 0{,}648\right[. - Entre
55{,}2\% e64{,}8\% .
Olha para onde cada um aparece na fórmula
- a) O
n está no denominador: aumentarn diminui a margem — mas devagar, porque entra debaixo de uma raiz. - b) Mais confiança significa maior
z , logo aumenta a margem.Só uma das duas é uma decisão livre e barata: a confiança. On custa dinheiro e tempo — e o retorno é proporcional a\sqrt{n} , não an .
Resolve
1{,}96 \times \frac{8}{\sqrt{n}} \leq 1 \iff \sqrt{n} \geq 15{,}68 \iff n \geq 245{,}86. - A menor dimensão inteira é
n = 246 .Arredonda-se sempre por excesso, mesmo que a parte decimal seja pequena: com245 a margem já ultrapassaria1 .
Constrói o intervalo e vê se o valor
- a)
1{,}96\sqrt{\frac{0{,}52 \times 0{,}48}{1000}} \approx 1{,}96 \times 0{,}0158 \approx 0{,}031. Cerca de3{,}1 pontos percentuais. - b) O intervalo é
\left]0{,}489,\ 0{,}551\right[ , e contém0{,}5 . - Portanto não se pode afirmar que tem maioria: os dados são compatíveis com uma percentagem inferior a
50\% .É o erro mais comum na leitura de sondagens: com52\% e margem de3 pontos, o resultado é um empate técnico — e não uma vitória.
Metade da margem exige quadruplicar o
- A margem é proporcional a
\dfrac{1}{\sqrt{n}} . Para a reduzir a metade,\sqrt{n} tem de duplicar, logon tem de quadruplicar. n = 4 \times 100 = 400 .É a regra prática que vale a pena guardar: metade da margem custa quatro vezes a amostra.
Calcula as duas e vê se os intervalos se intersetam.
- Primeira:
1{,}96\sqrt{\dfrac{0{,}44 \times 0{,}56}{500}} \approx 0{,}044 . Intervalo\left]0{,}396,\ 0{,}484\right[ . - Segunda:
1{,}96\sqrt{\dfrac{0{,}46 \times 0{,}54}{2000}} \approx 0{,}022 . Intervalo\left]0{,}438,\ 0{,}482\right[ . - Os intervalos intersetam-se: os resultados não são contraditórios. A segunda é mais precisa — margem de metade, com quatro vezes a amostra.Duas sondagens com resultados «diferentes» são frequentemente compatíveis. Comparar só os valores centrais, sem as margens, leva a conclusões que os dados não sustentam.
O erro-padrão
- O erro-padrão:
\dfrac{9}{9} = 1 . - A
90\% :1{,}645 . A99\% :2{,}576 . - A margem é, aqui, o próprio
z — porque o erro-padrão deu exatamente1 .
A margem depende de
- O pior caso. A função
\hat{p}(1-\hat{p}) é uma parábola com a concavidade voltada para baixo e zeros em0 e1 : o máximo está no vértice,\hat{p} = 0{,}5 , e vale0{,}25 . - A condição:
1{,}96\sqrt{\frac{0{,}25}{n}} \leq 0{,}03 \iff \frac{0{,}98}{\sqrt{n}} \leq 0{,}03 \iff \sqrt{n} \geq 32{,}67. n \geq 1067{,}1 \implies n = 1068. - É por isto que quase todas as sondagens nacionais usam cerca de mil inquiridos: é o que dá
3 pontos de margem, aconteça o que acontecer.Usar\hat{p} = 0{,}5 é a escolha conservadora: garante a margem prometida seja qual for o valor verdadeiro dep . Qualquer outro valor daria umn menor — e uma promessa que poderia não se cumprir.
Constrói os dois intervalos e vê se se intersetam.
- Margem de
A :1{,}96\sqrt{\dfrac{0{,}34 \times 0{,}66}{1000}} \approx 0{,}029 . Intervalo\left]0{,}311,\ 0{,}369\right[ . - Margem de
B :1{,}96\sqrt{\dfrac{0{,}31 \times 0{,}69}{1000}} \approx 0{,}029 . Intervalo\left]0{,}281,\ 0{,}339\right[ . - Os dois intervalos intersetam-se largamente, entre
0{,}311 e0{,}339 . - A diferença de
3 pontos é inferior à margem de erro: os dados não permitem afirmar queA está à frente.É o «empate técnico». A regra prática dos jornais — comparar a diferença com a margem — é grosseira mas útil: se a diferença for menor do que a margem, não há conclusão.
Parte de
- A condição, com o pior caso
\hat{p} = 0{,}5 :1{,}96\sqrt{\frac{0{,}25}{n}} \leq m \iff 1{,}96 \times \frac{0{,}5}{\sqrt{n}} \leq m. - Isolar
\sqrt{n} :\sqrt{n} \geq \frac{0{,}98}{m} \iff n \geq \left(\frac{0{,}98}{m}\right)^{2}. - Com
m = 0{,}02 :n \geq \left(\dfrac{0{,}98}{0{,}02}\right)^{2} = 49^{2} = 2401 . - Para descer de
3 para2 pontos de margem, a amostra passa de1068 para2401 — mais do dobro, para um terço de ganho.A fórmula mostra o preço de uma só vez: a margem entra ao quadrado no denominador. Reduzi-la a metade multiplica o custo por quatro.
Python e pensamento computacional
Três problemas que só existem porque a máquina existe. Não são traduções de contas para código: são perguntas que a folha de papel não sabe responder — qual é o melhor
- Utilizar a tecnologia para resolver problemas que envolvam funções exponenciais e logarítmicas, incluindo equações sem solução algébrica.
- Explorar a utilização da programação na determinação aproximada de zeros, de extremos e de imagens por uma função inversa.
Os programas correm no Python Math Studio, a consola que já vive nesta página. Em cada bloco há o botão ▶ Correr no compilador — a consola abre com o programa escrito, basta carregar em Run Code. O botão 💬 Explicar o código troca o programa pela versão comentada linha a linha.
Nenhum destes três problemas se resolve com uma fórmula. Todos se resolvem com um algoritmo — e todos têm um caso de fronteira que o faz falhar se não for previsto. É esse caso de fronteira o verdadeiro conteúdo de cada problema.
Consola de Python
corre no navegadorprograma inserido no editor — carrega em Run CodeComo usar
- Num bloco de código desta página, carrega em ▶ Correr no compilador — a consola abre-se com o programa já escrito.
- Carrega em Run Code e lê a saída.
- Muda os valores e volta a correr — é assim que se explora.
from math import * · log, exp, e
numpy · malhas e vetores
sympy · contas exatas
matplotlib · gráficos
Corre tudo dentro do teu navegador: nada sai do computador, e funciona sem ligação à Internet.
A máquina confirma resultados; nos itens de construção o exame exige a resolução analítica justificada.
1 · O melhor h não é o mais pequeno
DecomposiçãoReconhecimento de padrõesErros de vírgula flutuante
A derivada é um limite:
A segunda é a média das razões incrementais dos dois lados, e os erros dos dois lados cancelam-se em parte. Por isso é a que se usa.
O desafio. Diminuir
from math import log
def f(x):
return log(x) / x
def D(f, x, h): # diferenca centrada
return (f(x + h) - f(x - h)) / (2*h)
# f'(x) = (1 - ln x) / x**2 -> f'(1) = 1. Qual e' o melhor h?
print(' h D(f,1,h) erro')
for k in range(1, 15):
h = 10.0**(-k)
d = D(f, 1, h)
print('1e-%-2d %18.14f %.3e' % (k, d, abs(d - 1)))
from math import log
def f(x):
return log(x) / x
# A definicao diz f'(x) = lim (f(x+h) - f(x)) / h.
# Na maquina nao ha limites: ha' um h pequeno mas FIXO.
# A diferenca CENTRADA usa os dois lados e engana-se muito menos.
def D(f, x, h):
return (f(x + h) - f(x - h)) / (2*h)
# Sabemos a resposta exata: f'(x) = (1 - ln x)/x**2, logo f'(1) = 1.
# Isso deixa-nos MEDIR o erro em vez de o adivinhar.
print(' h D(f,1,h) erro')
for k in range(1, 15):
h = 10.0**(-k) # h = 0.1, 0.01, 0.001, ...
d = D(f, 1, h)
# %.3e escreve em notacao cientifica: e' assim que se ve' uma ordem de grandeza
print('1e-%-2d %18.14f %.3e' % (k, d, abs(d - 1)))
O erro desce, atinge um mínimo por volta de
Segunda parte. Com o
from math import log, e
H = 1e-6 # o h que ganhou a corrida acima
EPS = 1e-12 # criterio de paragem da bissecao
def f(x):
return log(x) / x
def D(x):
return (f(x + H) - f(x - H)) / (2*H)
def varre(a, b, n):
"""Percorre a malha e devolve os intervalos onde D muda de sinal."""
passo = (b - a) / n
trocas = []
x0, d0 = a, D(a)
for i in range(1, n + 1):
x1 = a + i * passo
d1 = D(x1)
if (d0 < 0) != (d1 < 0): # mudou de sinal: ha' extremo entre os dois
trocas.append((x0, x1, d0))
x0, d0 = x1, d1
return trocas
def aperta(x0, x1, d0):
"""Bissecao sobre a derivada. Termina sempre: o intervalo e' sempre metade."""
while x1 - x0 > EPS * (1 + abs(x0)):
m = (x0 + x1) / 2
dm = D(m)
if dm == 0:
return m
if (dm < 0) == (d0 < 0):
x0, d0 = m, dm
else:
x1 = m
return (x0 + x1) / 2
for (x0, x1, d0) in varre(0.5, 8, 300):
c = aperta(x0, x1, d0)
tipo = 'maximo' if d0 > 0 else 'minimo'
print('%s relativo em x = %.12f f(x) = %.12f' % (tipo, c, f(c)))
print('exato: e = %.12f 1/e = %.12f' % (e, 1/e))
from math import log, e
H = 1e-6 # h fixo: nem grande de mais (erro de aproximacao),
EPS = 1e-12 # nem pequeno de mais (erro de arredondamento)
def f(x):
return log(x) / x
def D(x): # derivada aproximada
return (f(x + H) - f(x - H)) / (2*H)
# PASSO 1 - VARRER. Nao procuramos o extremo: procuramos onde a derivada
# TROCA DE SINAL. E' o mesmo criterio do quadro de sinais feito a mao.
def varre(a, b, n):
passo = (b - a) / n
trocas = []
x0, d0 = a, D(a)
for i in range(1, n + 1):
x1 = a + i * passo
d1 = D(x1)
# (d0 < 0) != (d1 < 0) e' o teste de troca de sinal que nao rebenta
# quando um dos valores e' exatamente zero
if (d0 < 0) != (d1 < 0):
trocas.append((x0, x1, d0))
x0, d0 = x1, d1
return trocas
# PASSO 2 - APERTAR. Bissecao: parte-se ao meio ate' o intervalo ser minusculo.
def aperta(x0, x1, d0):
while x1 - x0 > EPS * (1 + abs(x0)): # criterio RELATIVO: funciona para
m = (x0 + x1) / 2 # numeros grandes e pequenos
dm = D(m)
if dm == 0:
return m
if (dm < 0) == (d0 < 0): # o zero esta' na metade da direita
x0, d0 = m, dm
else: # ... ou na da esquerda
x1 = m
return (x0 + x1) / 2
# PASSO 3 - CLASSIFICAR. Se a derivada passa de + a -, e' maximo; ao contrario,
# e' minimo. Nao e' preciso mais nada: e' a leitura do quadro de sinais.
for (x0, x1, d0) in varre(0.5, 8, 300):
c = aperta(x0, x1, d0)
tipo = 'maximo' if d0 > 0 else 'minimo'
print('%s relativo em x = %.12f f(x) = %.12f' % (tipo, c, f(c)))
print('exato: e = %.12f 1/e = %.12f' % (e, 1/e))
O programa devolve
Casos de fronteira. (i) O teste (d0 < 0) != (d1 < 0) em vez de d0 * d1 < 0 — o produto dá eps * (1 + abs(x)) — um critério absoluto como x1 - x0 > 1e-12 nunca terminaria para valores da ordem de while dm != 0 podia não terminar nunca.
Análise Cinco perguntas críticas
- O varrimento avalia
f em2n pontos: éO(n) . A bisseção divide o intervalo ao meio de cada vez, logo fazO(\log_{2}(1/\varepsilon)) passos. Qual das duas partes domina o tempo total quando\varepsilon = 10^{-12} en = 300 ? - Se aumentares
n para3000 , que erro deixas de cometer? E que erro não desaparece por mais que aumentesn ? - O que acontece se a malha for grosseira e
f tiver dois extremos muito próximos dentro do mesmo intervalo da malha? O algoritmo dá erro, ou dá uma resposta errada em silêncio? Qual dos dois é pior? - Experimenta
H = 10^{-14} na segunda parte. Quantos extremos falsos aparecem? Explica-os com o gráfico em V da primeira parte. - Numa função com um patamar —
f quase constante num intervalo — a derivada aproximada oscila em torno de zero por puro ruído. Que teste acrescentarias para não declarar um extremo em cada oscilação?
2 · Inverter uma função que não se sabe inverter
AbstraçãoOtimização algorítmicaDerivada nulaSeparação de ramos
Uma função estritamente monótona num intervalo é injetiva, logo tem inversa (secção 5). Calcular
O método de Newton sai diretamente da secção R2. A tangente ao gráfico de
Newton é isto e mais nada: trocar a curva pela sua tangente e ir onde a tangente vai.
O desafio. Inverter
| Sinal de | − | + | |
|---|---|---|---|
| Variação de | ↘ | ↗ |
Logo, para
from math import exp, e
def f(x): # queremos inverter y = x e^x
return x * exp(x)
def df(x): # regra do produto
return (1 + x) * exp(x)
def newton_seguro(y, a, b, eps=1e-14, maxit=80):
"""Resolve f(x) = y em [a, b]. Newton quando pode, bissecao quando deve."""
fa = f(a) - y
fb = f(b) - y
if (fa < 0) == (fb < 0):
raise ValueError('sem mudanca de sinal em [%g, %g]' % (a, b))
x = a
nn = nb = 0 # quantos passos de cada tipo
for n in range(1, maxit + 1):
d = df(x)
xn = None
if d != 0: # derivada nula: Newton nao serve
cand = x - (f(x) - y) / d
if a < cand < b: # saiu do intervalo: nao serve
xn = cand
if xn is None:
xn = (a + b) / 2 # rede de seguranca
nb += 1
else:
nn += 1
fn = f(xn) - y
if (fn < 0) == (fa < 0): # aperta o intervalo
a, fa = xn, fn
else:
b = xn
if abs(xn - x) <= eps * (1 + abs(xn)):
return xn, nn, nb
x = xn
return x, nn, nb
y = -0.2 # -1/e < y < 0: DOIS ramos
print('minimo de f em x = -1, f(-1) = -1/e = %.12f' % (-1/e))
for nome, a, b in (('direito', -1 + 1e-9, 20), ('esquerdo', -10, -1 - 1e-9)):
x, nn, nb = newton_seguro(y, a, b)
print('ramo %-9s x = %.12f f(x) = %.12f Newton: %d bissecao: %d'
% (nome, x, f(x), nn, nb))
from math import exp, e
# f(x) = x e^x NAO e' injetiva em R: f'(x) = (1+x)e^x anula-se em x = -1.
# Ha' um minimo em (-1, -1/e). Logo, para -1/e < y < 0 ha' DUAS solucoes.
# Inverter exige primeiro SEPARAR OS RAMOS.
def f(x):
return x * exp(x)
def df(x):
return (1 + x) * exp(x) # (uv)' = u'v + uv'
def newton_seguro(y, a, b, eps=1e-14, maxit=80):
fa = f(a) - y
fb = f(b) - y
# Sem mudanca de sinal nao ha' garantia de solucao: mais vale parar.
if (fa < 0) == (fb < 0):
raise ValueError('sem mudanca de sinal em [%g, %g]' % (a, b))
x = a
nn = nb = 0
for n in range(1, maxit + 1):
d = df(x)
xn = None
# NEWTON = onde a tangente corta Ox: x - (f(x) - y)/f'(x)
if d != 0:
cand = x - (f(x) - y) / d
if a < cand < b: # se a tangente atira para fora, ignoramos
xn = cand
if xn is None:
xn = (a + b) / 2 # ... e damos um passo de bissecao
nb += 1
else:
nn += 1
# o intervalo [a, b] vai encolhendo: e' isso que impede a fuga
fn = f(xn) - y
if (fn < 0) == (fa < 0):
a, fa = xn, fn
else:
b = xn
if abs(xn - x) <= eps * (1 + abs(xn)): # criterio RELATIVO
return xn, nn, nb
x = xn
return x, nn, nb # maxit trava o ciclo infinito
y = -0.2
print('minimo de f em x = -1, f(-1) = -1/e = %.12f' % (-1/e))
# afastamo-nos de -1 com 1e-9: e' la' que f'(x) = 0 e Newton explodiria
for nome, a, b in (('direito', -1 + 1e-9, 20), ('esquerdo', -10, -1 - 1e-9)):
x, nn, nb = newton_seguro(y, a, b)
print('ramo %-9s x = %.12f f(x) = %.12f Newton: %d bissecao: %d'
% (nome, x, f(x), nn, nb))
Para
Análise Cinco perguntas críticas
- A bisseção ganha um bit de precisão por iteração:
O(\log_{2}(1/\varepsilon)) , cerca de50 passos para10^{-15} . Newton duplica o número de algarismos corretos de cada vez. Conta as iterações dos dois no mesmo problema e confirma a diferença. - Porque é que o programa começa em
-1 + 10^{-9} e não em-1 ? O que imprimedf(-1)? - Retira a rede de segurança (fica só Newton, sem bisseção) e arranca em
x_0 = -0{,}999 . Para onde vai o primeiro iterado? E porque é que o contadornbé tão alto no ramo esquerdo? - O critério de paragem compara
|x_{n+1} - x_n| , não|f(x_n) - y| . Dá um exemplo de função em que estes dois critérios discordam — um diz «cheguei» e o outro não. - Este problema tem nome: a inversa de
x e^{x} chama-se função W de Lambert, e os seus dois ramos são exatamente os dois que separaste. Onde é que a escolha do ramo tem de ser feita por quem escreve o programa, e não pelo programa?
3 · A mesma equação, duas escritas, dois destinos
Reconhecimento de padrõesConvergênciaOtimização algorítmicaCiclos infinitos
A equação
São algebricamente equivalentes. Numericamente, comportam-se ao contrário uma da outra.
O desafio. Se
Uma converge, a outra foge. Escreve um iterador que sobreviva às duas: tem de detetar a divergência (o valor explode, ou sai do domínio do logaritmo) e tem de ter um travão de iterações — sem ele, o segundo caso nunca termina.
from math import exp, log
# Equacao: e^(-x) = x. Nao se resolve com as regras da seccao 3.
def g1(x): return exp(-x) # x = e^(-x) -> g1'(x) = -e^(-x)
def g2(x): return -log(x) # x = -ln x -> g2'(x) = -1/x
def ponto_fixo(g, x0, eps=1e-13, maxit=300):
"""Iteracao x <- g(x). Devolve (raiz, iteracoes) ou (None, iteracoes)."""
x = x0
for n in range(1, maxit + 1):
try:
xn = g(x)
except (ValueError, OverflowError):
return None, n # saiu do dominio: divergiu
if abs(xn) > 1e12:
return None, n # explodiu: divergiu
if abs(xn - x) <= eps * (1 + abs(xn)):
return xn, n
x = xn
return None, maxit # nao convergiu a tempo
def newton(x0, eps=1e-13, maxit=300):
x = x0
for n in range(1, maxit + 1):
fx = x - exp(-x)
d = 1 + exp(-x) # f'(x) = 1 + e^(-x) > 0 sempre
xn = x - fx / d
if abs(xn - x) <= eps * (1 + abs(xn)):
return xn, n
x = xn
return None, maxit
r1, n1 = ponto_fixo(g1, 0.5)
r2, n2 = ponto_fixo(g2, 0.5)
r3, n3 = newton(0.5)
print('x = e^(-x) ->', r1, 'em', n1, 'iteracoes')
print('x = -ln x ->', r2, 'em', n2, 'iteracoes')
print('Newton ->', r3, 'em', n3, 'iteracoes')
# Porque? Porque o erro e' multiplicado por |g'(x*)| em cada passo.
x = r3
print('|g1\'(x*)| =', abs(-exp(-x)), ' < 1 -> converge')
print('|g2\'(x*)| =', abs(-1/x), ' > 1 -> diverge')
from math import exp, log
# A MESMA equacao, escrita de duas maneiras algebricamente equivalentes.
# Uma converge; a outra nao. A algebra nao distingue: o calculo distingue.
def g1(x): return exp(-x) # de e^(-x) = x tira-se x = e^(-x)
def g2(x): return -log(x) # ... ou entao -x = ln x, x = -ln x
def ponto_fixo(g, x0, eps=1e-13, maxit=300):
x = x0
for n in range(1, maxit + 1):
# try/except apanha o caso em que g2 recebe um x negativo:
# log(x) rebenta, e isso E' informacao - a sucessao saiu do dominio
try:
xn = g(x)
except (ValueError, OverflowError):
return None, n
if abs(xn) > 1e12: # cresceu sem controlo
return None, n
if abs(xn - x) <= eps * (1 + abs(xn)): # dois termos ja' indistinguiveis
return xn, n
x = xn
return None, maxit # maxit: sem isto, um ciclo destes nao acaba
def newton(x0, eps=1e-13, maxit=300):
x = x0
for n in range(1, maxit + 1):
fx = x - exp(-x) # queremos o zero de f
d = 1 + exp(-x) # f'(x) = 1 + e^(-x)
xn = x - fx / d # onde a tangente corta Ox
if abs(xn - x) <= eps * (1 + abs(xn)):
return xn, n
x = xn
return None, maxit
r1, n1 = ponto_fixo(g1, 0.5)
r2, n2 = ponto_fixo(g2, 0.5)
r3, n3 = newton(0.5)
print('x = e^(-x) ->', r1, 'em', n1, 'iteracoes')
print('x = -ln x ->', r2, 'em', n2, 'iteracoes')
print('Newton ->', r3, 'em', n3, 'iteracoes')
# A explicacao esta' na derivada de g no ponto fixo: o erro fica multiplicado
# por |g'(x*)| de cada vez. Menor do que 1 encolhe; maior do que 1 cresce.
x = r3
print('|g1\'(x*)| =', abs(-exp(-x)), ' < 1 -> converge')
print('|g2\'(x*)| =', abs(-1/x), ' > 1 -> diverge')
A primeira escrita chega a None; Newton chega ao mesmo valor em quatro ou cinco. A diferença não está na equação — está na forma como a escrevemos.
Convergência linear e convergência quadrática. No ponto fixo o erro fica multiplicado por
Análise Cinco perguntas críticas
- Imprime
|x_{n+1} - x^{*}| em cada passo da primeira iteração e calcula o quociente entre erros consecutivos. Aproxima-se de0{,}567 ? Porquê? - Faz o mesmo com Newton. O quociente
|e_{n+1}|/|e_n|^{2} estabiliza — em que valor? - A segunda escrita diverge a partir de
x_0 = 0{,}5 . Existe algumx_0 a partir do qual ela convirja? (Cuidado: o ponto fixo é o mesmo. O que muda?) - O travão
maxité o que separa um programa de um bloqueio. Que outra condição de paragem acrescentarias para detetar cedo que a sucessão está a afastar-se, em vez de esperar pelas 300 iterações? - Aceleração de Aitken. Com três iterados consecutivos,
\tilde{x} = x_0 - \dfrac{(x_1 - x_0)^{2}}{x_2 - 2x_1 + x_0} costuma estar muito mais perto dex^{*} do quex_2 . Implementa-o sobre a primeira iteração e conta quantas iterações poupas. Que caso de fronteira tens de tratar no denominador?
Teste rápido
Dez questões de resposta imediata, com correção e explicação. Serve para verificares se podes avançar — ou se convém voltar atrás.
Formulário essencial e referências
Tudo o que este capítulo usa, numa página. A caixa das leituras erradas é a que mais falta faz — é lá que estão os enganos que aparecem nos jornais todas as semanas.
Parâmetro e estatística
| População | Amostra | |
|---|---|---|
| Valor médio | ||
| Desvio-padrão | ||
| Proporção |
Os da esquerda são parâmetros — fixos e desconhecidos. Os da direita são estatísticas — conhecidas e variáveis.
Média e desvio-padrão amostrais
Distribuição de amostragem da média
Teorema Limite Central
Para
Regra empírica
Intervalo de confiança para {\mu}
Quando
Valores de z
| Confiança | ||
|---|---|---|
Margem de erro
É metade da amplitude. Para a reduzir a metade, quadruplica-se
Intervalo para uma proporção
Dimensionar a amostra
Sem informação prévia sobre
A
As leituras erradas, e as certas
Errado: «a probabilidade de
Antes de dar uma resolução por fechada
o desvio-padrão amostral divide por
Referências
Aprendizagens Essenciais · Matemática A · 12.º ano (2023), tema opcional «Introdução à inferência estatística». Abraham de Moivre, The Doctrine of Chances (1733) — a primeira versão do Teorema Limite Central. Pierre-Simon Laplace, Théorie analytique des probabilités (1812) — a generalização. ALEA — Ação Local de Estatística Aplicada, Introdução à Inferência Estatística.
Exercícios globais
Os temas opcionais nunca foram avaliados em Exame Nacional — não há, por isso, itens de exame para este capítulo. O que se segue são exercícios originais, no formato e no grau de exigência de um item, arrumados por tema. Cada um traz sugestão e resolução passo a passo.
Exercícios globais · Amostragem e Teorema Limite Central
Cinco exercícios sobre amostras, estimadores e a distribuição da média. Em dois deles não há contas nenhumas — e são os mais difíceis.
O tempo de espera numa fila tem valor médio
a) Justifica que a média de
Numa população com
Qual é o valor de
- (A)
8 - (B)
16 - (C)
64 - (D)
400
Um investigador quer estimar o tempo médio diário que os jovens passam nas redes sociais. Publica um inquérito numa rede social e recolhe
Explica por que razão a estimativa será previsivelmente enviesada, e indica o sentido do enviesamento.
Para estimar o valor médio de uma população, dois estudantes propõem estimadores diferentes: o primeiro usa a média da amostra; o segundo usa a média entre o menor e o maior valor da amostra.
Comenta os dois, sabendo que a população é simétrica.
Numa população com
Determina a menor dimensão de amostra.
Na alínea a), invoca o TLC — que não exige nada à forma da população. Na b), conta os desvios-padrão.
- a) Pelo Teorema Limite Central, com
n = 100 suficientemente grande,\\bar{X} é aproximadamente Normal, qualquer que seja a distribuição da população:E\\left[\\bar{X}\\right] = 6, \\qquad {\\sigma}_{\\bar{X}} = \\frac{3}{\\sqrt{100}} = 0{,}3. - b)
\\dfrac{6{,}6-6}{0{,}3} = 2 : são dois desvios-padrão acima. - Pela regra empírica, acima de
2 desvios fica\\dfrac{1-0{,}954}{2} = 0{,}023 .A assimetria da população é irrelevante para a alínea b) — é isso que o TLC compra. Para uma espera, a regra empírica não valeria.
Resolve
\\frac{20}{\\sqrt{n}} = 2{,}5 \\iff \\sqrt{n} = 8 \\iff n = 64. - A opção (A) é a armadilha:
8 é o\\sqrt{n} , não on .Vale a pena verificar no fim:\\frac{20}{\\sqrt{64}} = \\frac{20}{8} = 2{,}5 . ✓
Quem é que pode responder a um inquérito publicado numa rede social?
- Quem entra na amostra. Só quem usa a rede social e a usa com frequência suficiente para ver o inquérito e decide responder. Quem não usa redes sociais tem probabilidade nula de entrar.
- O sentido. Os utilizadores mais intensivos são os que mais provavelmente veem e respondem: a estimativa fica acima do verdadeiro tempo médio dos jovens.
- A dimensão não salva nada. As
5000 respostas tornam a estimativa mais precisa — mas em torno do valor errado.É a distinção entre precisão e exatidão. Uma amostra enviesada de5000 é pior do que uma amostra aleatória de300 : dá uma resposta errada com mais convicção.
Numa população simétrica, ambos acertam em média. A diferença está noutro sítio.
- Ambos são centrados. Numa população simétrica, tanto a média como o ponto médio entre extremos têm valor médio igual a
{\\mu} . - A diferença está na variabilidade. O segundo usa apenas dois valores da amostra — e precisamente os dois mais extremos, que são os mais instáveis. O primeiro usa todos.
- O segundo tem muito maior desvio-padrão: é centrado mas mau. Além disso, não melhora com
n ao mesmo ritmo.Ser centrado não chega para ser bom estimador. Entre dois estimadores centrados, escolhe-se o de menor variabilidade — e é por isso que a média amostral é a escolha.
Com probabilidade
1{,}96 \\times \\frac{25}{\\sqrt{n}} < 4 \\iff \\sqrt{n} > \\frac{49}{4} = 12{,}25. n > 150{,}06 \\implies n = 151. - Arredonda-se por excesso.Com
n = 150 a condição já não se cumpre — por pouco, mas não se cumpre. Neste tipo de problema, arredondar por defeito é sempre erro.
Exercícios globais · Intervalos de confiança e sondagens
Cinco exercícios de intervalos, margens de erro e leitura de sondagens. O último é uma notícia verdadeira em tudo menos no título.
Uma amostra aleatória de
a) Constrói o intervalo de
Um estudo apresenta o intervalo de
Qual das afirmações é correta?
- (A)
95\\% da população está entre12{,}3 e15{,}7 - (B)A probabilidade de
{\\mu} estar entre12{,}3 e15{,}7 é0{,}95 - (C)Repetindo o processo, cerca de
95\\% dos intervalos conteriam{\\mu} - (D)
95\\% das amostras têm média entre12{,}3 e15{,}7
Numa amostra aleatória de
a) Constrói o intervalo de
Uma empresa quer encomendar uma sondagem com margem de erro de
a) Determina a dimensão necessária, sem informação prévia sobre
Uma notícia diz: «Sondagem realizada a
a) Confirma a margem de erro anunciada, usando o pior caso.b) Comenta a afirmação final.
Na alínea b), vê se
- a) A margem:
1{,}96 \\times \\frac{90}{\\sqrt{225}} = 1{,}96 \\times \\frac{90}{15} = 1{,}96 \\times 6 = 11{,}76. O intervalo é\\left]1168{,}24,\\ 1191{,}76\\right[ . - b) O valor
1200 fica fora do intervalo, acima dele. - Os dados são pouco compatíveis com a duração anunciada: há indício de que o fabricante exagera.«Pouco compatível» não é «provado falso». Se a duração média fosse mesmo
1200 , um intervalo destes deixá-la-ia de fora em menos de5\\% das amostras — é pouco, mas não é impossível.
Só uma das quatro fala do método em vez de falar deste intervalo em concreto.
- (C) é a correta: a confiança é uma propriedade do método, verificada ao longo de muitas repetições.
- (A) é falsa: o intervalo é para o valor médio, não para os valores individuais da população.
- (B) é a armadilha:
{\\mu} é fixo — ou está ou não está. Não há probabilidade a atribuir-lhe. - (D) é falsa: confunde a distribuição de
\\bar{X} com o intervalo construído a partir de uma amostra.A diferença entre (B) e (C) é a mais subtil e a mais importante do capítulo. Em (B) o aleatório estaria em{\\mu} ; em (C) está, corretamente, nos extremos.
Um terço é
- a)
\\hat{p} = \\dfrac{150}{625} = 0{,}24 . A margem:1{,}96\\sqrt{\\frac{0{,}24 \\times 0{,}76}{625}} = 1{,}96\\sqrt{0{,}00029184} \\approx 1{,}96 \\times 0{,}01708 \\approx 0{,}0335. O intervalo é\\left]0{,}2065,\\ 0{,}2735\\right[ . - b) Um terço é
\\approx 0{,}333 , que fica acima do extremo superior do intervalo. - Sim: os dados sustentam que a proporção é inferior a um terço.Note-se a assimetria da conclusão. Dizer «é inferior a um terço» é seguro porque todo o intervalo está abaixo desse valor. Se o intervalo o contivesse, nada se poderia afirmar.
Usa o pior caso
- a)
1{,}96\\sqrt{\\frac{0{,}25}{n}} \\leq 0{,}02 \\iff \\sqrt{n} \\geq \\frac{0{,}98}{0{,}02} = 49 \\iff n \\geq 2401. - b) Com
3 pontos:\\sqrt{n} \\geq \\dfrac{0{,}98}{0{,}03} \\approx 32{,}67 , logon = 1068 . - Os custos:
2401 \\times 4 = 9604 € contra1068 \\times 4 = 4272 €. - Ganhar um ponto percentual de precisão custa mais do dobro.É a conta que decide o orçamento de qualquer sondagem — e a razão por que quase todas ficam nos
3 pontos. A margem entra ao quadrado no denominador don .
Na alínea a), calcula
- a)
1{,}96\\sqrt{\\frac{0{,}25}{1200}} = 1{,}96 \\times \\frac{0{,}5}{34{,}64} \\approx 0{,}0283. São de facto cerca de2{,}8 pontos percentuais. ✓ - b) A diferença entre os dois partidos é
27{,}5-25{,}2 = 2{,}3 pontos — inferior à margem de2{,}8 . - Os intervalos dos dois partidos intersetam-se: os dados não permitem afirmar que
X ultrapassaY . É um empate técnico. - A ficha técnica está correta; a conclusão do título é que não.É o padrão mais comum: o rodapé traz a informação certa e o título ignora-a. Saber ler a ficha técnica é o que este capítulo dá.