Astrolábio · Modelos Matemáticos para a Cidadania
Matemática A · revisão do 10.º ano

Modelos Matemáticos
para a Cidadania

Matemática que decide coisas. Quem ganha uma eleição depende do método de contagem escolhido — e há métodos que dão vencedores diferentes para os mesmos votos. Quantos deputados leva cada lista depende de uma divisão sucessiva que se faz à mão em cinco minutos. E quanto sobra do salário ao fim do mês depende de uma tabela de escalões que quase ninguém leu. Este capítulo é revisão do 10.º ano, com votos, salários e taxas verdadeiros: as legislativas de 2025, os escalões do IRS de 2026.

\dfrac{V_1}{1},\ \dfrac{V_2}{2},\ \dfrac{V_3}{3},\ \ldots \qquad C_f = C_i\left(1+r\right)^{n} Uma divisão sucessiva reparte um parlamento; uma potência decide uma poupança. São as duas contas do capítulo.
0exercícios
4laboratórios interativos
11secções
0%concluído
R1

Maioria simples e maioria absoluta

Duas maneiras de dizer «ganhou» — e não querem dizer a mesma coisa. Uma pede mais votos do que qualquer outro; a outra pede mais votos do que todos os outros juntos. Entre as duas cabe a diferença entre governar sozinho e ter de negociar.

Aprendizagens Essenciais · 10.º ano
  • Reconhecer o papel da matemática na escolha de representantes em sistemas políticos e sociais.
  • Perceber que existem modelos matemáticos que permitem criar procedimentos para transformar as preferências individuais numa decisão coletiva.
  • Identificar o vencedor de um processo eleitoral através de maioria simples e maioria absoluta.

1 · Antes de contar, saber o que se conta

Uma eleição produz quatro números diferentes, e confundi-los é o erro mais comum deste tema. Vale a pena fixá-los com um caso verdadeiro: o círculo eleitoral de Portalegre, nas legislativas de 18 de maio de 2025.

Portalegre, 2025o que é
Inscritos92 532eleitores recenseados no círculo
Votantes57 596os que foram votar — 62{,}2\% dos inscritos
Brancos e nulos834 + 627boletins sem escolha válida
Validamente expressos56 135os votos que contam para o resultado

Fonte: Eleições Legislativas de 18 de maio de 2025 · resultados oficiais, Administração Eleitoral (SGMAI).

Sobre o quê se conta a metade

As maiorias contam-se sobre os votos validamente expressos, não sobre os inscritos nem sobre os votantes. Quem se absteve ou votou em branco não conta para nenhum dos lados — e é por isso que um vencedor com maioria absoluta pode, mesmo assim, representar menos de metade dos eleitores.

2 · Maioria simples

Definição · maioria simples

Uma opção tem maioria simples (ou relativa) quando obtém mais votos do que cada uma das outras, tomadas uma a uma. Basta ser a mais votada.

É o método mais antigo e o mais fácil de aplicar: conta-se, compara-se, e ganha quem tiver mais. É assim que se elege um delegado de turma, e é assim que se decide, em cada círculo, qual foi a lista mais votada.

17 220 Chega 16 125 PS 15 458 AD
Círculo de Portalegre, legislativas de 18 de maio de 2025. Entre a lista mais votada e a terceira vão 1762 votos — pouco mais de 3% dos votantes. Nenhuma teve maioria absoluta: seriam precisos mais de 28 mil votos, e a mais votada ficou-se pelos 17 mil.

3 · Maioria absoluta

Definição · maioria absoluta

Uma opção tem maioria absoluta quando obtém mais de metade dos votos validamente expressos.

Sendo n o número de votos validamente expressos, o número mínimo de votos que a garante é

m = \left\lfloor \dfrac{n}{2} \right\rfloor + 1.

A maioria absoluta é uma exigência muito maior do que parece. Em Portalegre eram precisos 28\,068 votos, e a lista mais votada ficou-se pelos 17\,220 — pouco mais de metade do necessário. Com três forças de tamanho semelhante, quase nunca há maioria absoluta.

Quando a distinção decide mesmo

Há sistemas que se contentam com a maioria simples e sistemas que exigem a absoluta. Um exemplo dos dois lados: a eleição do Presidente da República exige maioria absoluta, e por isso pode ter segunda volta; a eleição para a Ordem dos Enfermeiros fica-se pela lista mais votada, sem segunda volta nenhuma. Nem um sistema é melhor do que o outro: são respostas diferentes à mesma pergunta.

4 · A segunda volta, e 1986

Quando se exige maioria absoluta e nenhum candidato a atinge, o sistema mais comum manda os dois mais votados a uma segunda volta. Aí, com só dois candidatos, um deles tem forçosamente mais de metade.

Aconteceu uma vez em Portugal, nas presidenciais de 1986, e o resultado é o melhor argumento a favor da distinção que esta secção faz.

candidato1.ª volta2.ª volta
Diogo Freitas do Amaral46,3%48,8%
Mário Soares25,4%51,2%
Francisco Salgado Zenha20,9%
Maria de Lourdes Pintasilgo7,4%

Fonte: Eleições para a Presidência da República de 1986 · Comissão Nacional de Eleições. As percentagens estão arredondadas às décimas.

O candidato mais votado à primeira volta perdeu a eleição. Não houve erro nenhum de contagem: houve dois critérios diferentes a dar respostas diferentes. Por maioria simples teria ganho o primeiro; por maioria absoluta em duas voltas ganhou o segundo.

Exemplo 1 Houve maioria absoluta?

Numa assembleia de condóminos votaram 47 proprietários. A proposta de obras teve 23 votos a favor, 21 contra e 3 abstenções. O regulamento exige maioria absoluta dos votos expressos.

  1. Quais são os votos expressos. As abstenções não são votos: 23 + 21 = 44.
  2. O mínimo. \left\lfloor \dfrac{44}{2} \right\rfloor + 1 = 22 + 1 = 23.
  3. Comparar. A proposta teve 23 votos — exatamente o mínimo. Foi aprovada, por um voto.
  4. Se o regulamento contasse sobre os 47 votantes, o mínimo seria 24 e a proposta teria sido chumbada.Os mesmos votos, dois regulamentos, dois resultados opostos. Ler o regulamento antes de contar não é formalidade: é parte da conta.
RespostaAprovada por maioria absoluta dos votos expressos, com o mínimo exato de 23 votos

Sempre que um enunciado disser «maioria absoluta», procura a palavra que vem a seguir: dos votos expressos, dos votantes, dos membros. É essa palavra que fixa o denominador.

Python Quantos votos são precisos, e quem os teve

O programa lê as votações de três candidatos, calcula o mínimo para a maioria absoluta e diz se alguém lá chegou. É o programa que as Aprendizagens Essenciais propõem para este tema.

cA = int(input("Votos do candidato A: "))
cB = int(input("Votos do candidato B: "))
cC = int(input("Votos do candidato C: "))

total = cA + cB + cC
ma = total // 2 + 1
print("Para maioria absoluta sao precisos", ma, "votos.")

if cA >= ma:
    print("O candidato A tem maioria absoluta.")
elif cB >= ma:
    print("O candidato B tem maioria absoluta.")
elif cC >= ma:
    print("O candidato C tem maioria absoluta.")
else:
    vencedor = max(cA, cB, cC)
    print("Ninguem teve maioria absoluta.")
    print("O mais votado teve", vencedor, "votos: so maioria simples.")

Corre-o com os votos de Portalegre — 17\,220, 16\,125 e 15\,458 — e confirma o que a secção diz. Depois troca o // por / e vê o programa a escrever um número com vírgula: metade de um voto não existe, e é por isso que a divisão tem de ser inteira.

Exercícios propostos

Doze exercícios sobre as duas maiorias: ler uma votação, calcular o mínimo, distinguir o conjunto sobre o qual se conta, e perceber o que a maioria simples não garante. Os últimos pedem justificação ou generalização, ao nível do Exame.

A cor do título dá o grau de dificuldade: verde, aplicação direta · amarelo, exige uma ideia intermédia · vermelho, justificação ou generalização, ao nível do Exame.

Exercício 1§R1 · ler uma votação

Numa eleição para delegado de turma, com 28 votos validamente expressos, os candidatos obtiveram: Ana, 12 votos; Bruno, 9 votos; Carla, 7 votos.

Qual das afirmações é verdadeira?

  • (A)A Ana ganhou por maioria absoluta.
  • (B)A Ana ganhou por maioria simples, mas não por maioria absoluta.
  • (C)Não houve vencedor, porque ninguém teve mais de metade dos votos.
  • (D)Houve empate entre a Ana e o Bruno.
Exercício 2§R1 · o mínimo para a maioria absoluta

Numa votação foram validamente expressos 573 votos.

Qual é o número mínimo de votos que um candidato precisa de obter para ter maioria absoluta?

Exercício 3§R1 · votos brancos e nulos

Em Portalegre, nas legislativas de 2025, votaram 57\,596 eleitores. Houve 834 votos em branco e 627 votos nulos.

a) Quantos foram os votos validamente expressos? b) Qual seria o número mínimo de votos para uma lista obter maioria absoluta?

Exercício 4§R1 · percentagens

Numa eleição com 2500 votos validamente expressos, uma lista obteve 1249 votos.

Essa lista:

  • (A)teve maioria absoluta, porque quase metade é metade.
  • (B)teve maioria absoluta, porque 1249 > 1250 - 1.
  • (C)não teve maioria absoluta, por um voto.
  • (D)não teve maioria absoluta, por dois votos.
Exercício 5§R1 · a segunda volta

Na primeira volta das presidenciais de 1986, os quatro candidatos obtiveram, em percentagem dos votos validamente expressos: 46{,}3\%, 25{,}4\%, 20{,}9\% e 7{,}4\%.

a) Justifica que houve segunda volta. b) Na segunda volta, o vencedor obteve 51{,}2\%. Explica como é que o candidato mais votado na primeira volta pode perder a eleição.

Exercício 6§R1 · quantos faltam

Numa assembleia de 180 membros, uma proposta foi aprovada com 84 votos a favor, 72 contra e 24 abstenções.

a) A proposta teve maioria absoluta dos membros da assembleia? b) E maioria absoluta dos votos expressos (a favor e contra)?

Exercício 7§R1 · o que a maioria simples não garante

Três candidatos, A, B e C, disputam uma eleição por maioria simples. Sabe-se que A venceu com 40\% dos votos.

Então, com certeza:

  • (A)A é o candidato preferido pela maioria dos eleitores.
  • (B)mais de metade dos eleitores votou noutro candidato que não A.
  • (C)B e C tiveram, cada um, menos de 30\%.
  • (D)haveria segunda volta se o sistema a previsse.
Exercício 8§R1 · desenhar a segunda volta

Numa eleição com quatro candidatos e 10\,000 votos validamente expressos, os resultados da primeira volta foram: A, 3800; B, 3100; C, 2000; D, 1100.

a) Mostra que há segunda volta e indica quem a disputa. b) Supondo que todos os eleitores de C e de D votam na segunda volta e que nenhum outro muda de voto, qual é a percentagem mínima dos votos de C e D que B precisa de conquistar para ganhar?

Exercício 9§R1 · com dados reais

Nas legislativas de 2025, no círculo de Portalegre, as três listas mais votadas obtiveram 17\,220, 16\,125 e 15\,458 votos, num total de 56\,135 votos validamente expressos.

a) Que percentagem dos votos validamente expressos foi para estas três listas? b) A diferença entre a primeira e a terceira representa que percentagem do total?

Exercício 10§R1 · generalizar

Numa eleição com n votos validamente expressos, seja m(n) o número mínimo de votos que garante a maioria absoluta.

a) Escreve m(n) para n par e para n ímpar. b) Mostra que, em qualquer caso, m(n) = \left\lfloor \dfrac{n}{2} \right\rfloor + 1.

Exercício 11§R1 · quantos candidatos podem sobrar

Num sistema de duas voltas, vão à segunda volta os dois mais votados, a menos que algum tenha maioria absoluta à primeira.

Mostra que, se houver k candidatos e nenhum tiver maioria absoluta, então k \geq 3.

Exercício 12§R1 · uma armadilha de percentagens

Um jornal escreve: «a lista A teve 48\% dos votos, faltaram-lhe apenas 2\% para a maioria absoluta».

Comenta a afirmação, em termos de votos e não de percentagens, supondo 50\,000 votos validamente expressos.

Maioria simples é ter mais votos do que qualquer outro. Maioria absoluta é ter mais de metade de todos os votos.

  1. A Ana é a mais votada: tem maioria simples.
  2. Metade dos votos é 28 : 2 = 14. Para maioria absoluta seriam precisos pelo menos 15 votos, e a Ana tem 12.
Resposta(B)

Mais de metade. Metade de 573 não é inteiro — e isso simplifica a resposta.

  1. 573 : 2 = 286{,}5.
  2. São precisos mais do que 286{,}5 votos, e os votos são números inteiros: o mínimo é 287.Com um número ímpar de votos não há empate possível entre dois candidatos, e o mínimo é sempre \dfrac{n+1}{2}.
Resposta287 votos

Brancos e nulos contam para a afluência, mas não são votos em nenhuma lista — e a maioria absoluta mede-se sobre os validamente expressos.

  1. a) 57\,596 - 834 - 627 = 56\,135 votos validamente expressos.
  2. b) 56\,135 : 2 = 28\,067{,}5, logo seriam precisos 28\,068 votos.
  3. A lista mais votada teve 17\,220: bem longe.Num círculo com três forças equilibradas, a maioria absoluta é praticamente inatingível — e é por isso que o método de partilha, que a R3 estuda, é o que decide tudo.
Respostaa) 56\,135 · b) 28\,068

Faz a conta do mínimo, e compara.

  1. O mínimo para maioria absoluta é 1251 votos (mais de 1250).
  2. A lista teve 1249: faltaram-lhe dois votos.
Resposta(D)

A regra é: se ninguém tiver maioria absoluta à primeira, os dois mais votados vão a uma segunda volta.

  1. a) O mais votado teve 46{,}3\%, que é menos de 50\%. Nenhum candidato obteve maioria absoluta, logo houve segunda volta.
  2. b) Na segunda volta há só dois candidatos, e os votos dos que ficaram de fora repartem-se por eles. Os 28{,}3\% dos terceiro e quarto candidatos foram, na sua maioria, para o segundo classificado.
  3. Foi o que aconteceu: 25{,}4\% à primeira volta, 51{,}2\% à segunda.É a única vez, até hoje, que houve segunda volta numa presidencial portuguesa — e serviu justamente para mostrar que «o mais votado» e «o preferido pela maioria» podem ser pessoas diferentes.
Respostaa) nenhum atingiu 50\% · b) os votos dos eliminados repartem-se, e podem inverter a ordem

Repara em que a pergunta muda o conjunto sobre o qual se conta a metade. As abstenções entram num caso e não no outro.

  1. a) Metade de 180 é 90: seriam precisos 91 votos, e houve 84. Não.
  2. b) Votos expressos: 84 + 72 = 156. Metade é 78, logo o mínimo é 79, e houve 84. Sim.
  3. A mesma votação tem duas respostas conforme o regulamento.É por isso que os estatutos de qualquer organização dizem sempre sobre o quê se conta a maioria. A diferença não é uma subtileza: decide se a proposta passa.
Respostaa) não · b) sim

Três das quatro afirmações podem ser falsas em alguma votação com estes dados. Procura a que não pode.

  1. Se A teve 40\%, os restantes 60\% foram para outros: a (B) é certa.
  2. A (A) é falsa — 60\% preferiu outra coisa. A (C) falha, por exemplo, com B = 35\% e C = 25\%.
  3. A (D) parece certa, mas o enunciado diz que o sistema é de maioria simples: não há segunda volta nenhuma, e por isso a afirmação não descreve esta eleição.O ponto da secção inteira está aqui: ganhar não é o mesmo que ser preferido pela maioria, e qual dos dois acontece depende do método.
Resposta(B)

Na alínea b), chama x à fração dos 3100 votos de C e D que vão para B, e escreve a condição de B passar A.

  1. a) O mínimo para maioria absoluta é 5001, e o mais votado teve 3800. Vão à segunda volta A e B.
  2. b) Os votos de C e D somam 2000+1100 = 3100. Se B conquistar a fração x, fica com 3100 + 3100x e A com 3800 + 3100(1-x).
  3. 3100 + 3100x > 3800 + 3100 - 3100x \iff 6200x > 3800 \iff x > 0{,}6129\ldots
  4. Precisa de mais de 61{,}3\% desses votos.Repare-se em quanto é exigente: B perdeu por 700 votos e precisa de quase dois terços dos votos disponíveis para inverter — porque cada voto que ganha é também um voto que A deixa de ganhar.
Respostaa) A e B · b) mais de 61{,}3\%

Soma primeiro, e só depois divide. Arredonda às décimas.

  1. a) 17\,220+16\,125+15\,458 = 48\,803, e \dfrac{48\,803}{56\,135} \approx 0{,}869: cerca de 86{,}9\%.
  2. b) 17\,220 - 15\,458 = 1762, e \dfrac{1762}{56\,135} \approx 0{,}031: cerca de 3{,}1\%.
  3. Três listas separadas por três pontos percentuais.Guarda este número: na R3 vais ver que, com estes votos, uma das três não elege ninguém — e que isso não é um erro do método, é o método a funcionar como foi desenhado.
Respostaa) \approx 86{,}9\% · b) \approx 3{,}1\%

Trata os dois casos à parte e compara com a fórmula. O símbolo \lfloor x \rfloor é a parte inteira de x.

  1. a) Se n é par, metade é o inteiro \dfrac{n}{2} e é preciso ultrapassá-lo: m(n) = \dfrac{n}{2}+1.
  2. Se n é ímpar, \dfrac{n}{2} não é inteiro e o primeiro inteiro acima dele é \dfrac{n+1}{2}: m(n) = \dfrac{n+1}{2}.
  3. b) Com n par, \left\lfloor \dfrac{n}{2} \right\rfloor = \dfrac{n}{2} e a fórmula dá \dfrac{n}{2}+1. Com n ímpar, n = 2k+1 e \left\lfloor \dfrac{n}{2} \right\rfloor = k, logo a fórmula dá k+1 = \dfrac{n+1}{2}.
  4. Os dois casos coincidem com a fórmula.É esta fórmula que o programa de Python da secção usa, escrita como int(n/2)+1.
Respostaa) \dfrac{n}{2}+1 e \dfrac{n+1}{2} · b) os dois casos dão o mesmo que a fórmula

Prova pelo contrário: supõe k = 2 e vê o que acontece.

  1. Suponhamos k = 2, com a e b votos, a + b = n.
  2. Se nenhum tem maioria absoluta, então a \leq \dfrac{n}{2} e b \leq \dfrac{n}{2}, logo a+b \leq n com igualdade só se a = b = \dfrac{n}{2}.
  3. Ou seja: com dois candidatos, ou um deles tem maioria absoluta, ou há empate exato.
  4. Fora do empate, é impossível haver segunda volta com dois candidatos: tem de haver k \geq 3.O empate exato existe na teoria e resolve-se nos estatutos — por sorteio, por antiguidade, ou por nova votação. A matemática diz que é o único caso que sobra.
Respostacom k=2, ou há maioria absoluta ou há empate exato

Quantos votos são 2\%? E quantos votos teriam de mudar de lista para A passar a metade?

  1. A teve 0{,}48 \times 50\,000 = 24\,000 votos. O mínimo para maioria absoluta é 25\,001.
  2. Faltam-lhe 1001 votos novos — e é isso que os 2\% significam, se os eleitores em falta forem abstencionistas que passam a votar.
  3. Mas se os votos vierem de outra lista, cada voto que A ganha é um que a outra perde: bastam 501 eleitores a mudar de voto.A frase do jornal não está errada — está incompleta. «Faltar 2%» quer dizer coisas diferentes conforme os votos venham da abstenção ou da concorrência, e a diferença é de quase o dobro.
Resposta1001 votos novos, ou 501 eleitores a mudar de voto
R2

O método de Borda

A maioria simples só olha para o primeiro lugar de cada boletim e deita fora o resto. O método de Borda lê o boletim todo — e às vezes encontra um vencedor diferente, que era o segundo de toda a gente e o último de ninguém.

Aprendizagens Essenciais · 10.º ano
  • Identificar o vencedor de processos eleitorais que recorram a boletins de preferência (método de Borda).
  • Analisar situações que evidenciem que métodos eleitorais diferentes geram escolhas diferentes para a mesma votação.

1 · O boletim de preferência

Num boletim de preferência o votante não escolhe uma opção: ordena-as todas, da que mais gosta à que menos gosta. É o que se faz para escolher o destino de uma visita de estudo, o nome de uma equipa, ou o vencedor de um prémio.

Definição · método de Borda

Com k opções, cada boletim atribui

k \text{ pontos à primeira},\quad k-1 \text{ à segunda},\quad \ldots,\quad 1 \text{ à última}.

Somam-se os pontos de todos os boletins e vence a opção com maior pontuação.

A verificação que se deve fazer sempre

Cada boletim distribui 1+2+\cdots+k = \dfrac{k(k+1)}{2} pontos, seja qual for a ordem que traga. Com n boletins, a soma de todas as pontuações é obrigatoriamente

\dfrac{n\,k(k+1)}{2}.

2 · O caso que vale a pena guardar

Cem alunos escolhem entre quatro destinos. Os boletins agrupam-se em quatro ordenações:

preferência40 votos25 votos20 votos15 votos
1.ªABCD
2.ªBCBB
3.ªCDDC
4.ªDAAA

Por maioria simples, ganha A: tem 40 primeiras preferências, contra 25, 20 e 15. Mas olhe-se para a última linha: A está em último lugar nos boletins de 60 dos 100 alunos.

Por Borda, com 4, 3, 2, 1 pontos:

opçãocontapontos
A4(40) + 1(25) + 1(20) + 1(15)220
B3(40) + 4(25) + 3(20) + 3(15)325
C2(40) + 3(25) + 4(20) + 2(15)265
D1(40) + 2(25) + 2(20) + 4(15)190

A soma dá 220+325+265+190 = 1000, e \dfrac{100 \times 4 \times 5}{2} = 1000. ✓

220 A 325 B 265 C 190 D
Pontuações de Borda no exemplo da visita de estudo. A opção B ganha com 325 pontos — e só teve 25 primeiras preferências. A opção A, que ganharia por maioria simples com 40 primeiras preferências, fica em terceiro.

Laboratório · Os mesmos votos, três vencedores

interativo

Cada cursor é um bloco de eleitores com a mesma ordenação. A célula acesa em cada linha é a vencedora por esse método. Põe os quatro cursores no mesmo valor e vê os três métodos a concordarem; volta ao exemplo da secção e vê-os separarem-se.

O que é que mudou

Nada. Os boletins são exatamente os mesmos. O que mudou foi a regra de contagem — e com ela o vencedor. Não há aqui erro nem batota: há duas definições diferentes de «a opção preferida», e ambas são defensáveis. É por isso que os estatutos de qualquer organização têm de dizer, antes da votação, qual é o método.

Exemplo 2 Mostrar que uma opção não pode ganhar

Numa votação de Borda com quatro opções, já se contaram 180 boletins: A tem 560 pontos, B tem 470, C tem 460 e D tem 310. Faltam 20 boletins, todos com a mesma ordenação. Mostra que D não pode vencer.

  1. O melhor caso para D. Os 20 boletins põem-na em primeiro: ganha 20 \times 4 = 80 e fica com 310 + 80 = 390.
  2. O pior caso para o rival mais forte. Nesses mesmos boletins, A fica no pior lugar que lhe resta — o quarto — e ganha 20 \times 1 = 20: fica com 560 + 20 = 580.
  3. Comparar. 580 > 390: A fica à frente de D em qualquer cenário.
  4. Logo D não pode ser a vencedora.A estrutura é sempre esta: melhor caso para quem se está a estudar, pior caso para o adversário. Se mesmo assim não chega, está provado — e não é preciso examinar as 24 ordenações possíveis uma a uma.
Respostano melhor caso D chega a 390, e A fica com pelo menos 580

Repara em que os 20 boletins que faltam não podem dar 4 pontos a duas opções: cada boletim tem um só primeiro lugar. É essa restrição que faz o argumento funcionar.

Python A pontuação de Borda, a partir da tabela

O programa recebe a tabela de preferências — cada coluna é um par (número de votos, ordenação) — e devolve as pontuações e o vencedor.

perfil = [(40, "ABCD"), (25, "BCDA"), (20, "CBDA"), (15, "DBCA")]
opcoes = "ABCD"
k = len(opcoes)

pontos = {}
for o in opcoes:
    pontos[o] = 0

for votos, ordem in perfil:
    for i in range(k):
        pontos[ordem[i]] = pontos[ordem[i]] + votos * (k - i)

for o in opcoes:
    print(o, "->", pontos[o], "pontos")

vencedor = max(pontos, key=lambda o: pontos[o])
print("Vencedor por Borda:", vencedor)
print("Total distribuido:", sum(pontos.values()))

Troca a primeira linha por perfil = [(40, "ABCD"), (25, "BACD"), (20, "CBDA"), (15, "DBCA")] — mudaste 25 boletins, pondo B à frente de A em vez de A em último — e vê o vencedor mudar. Depois confirma que o total continua a ser 1000.

Exercícios propostos

Doze exercícios sobre o método de Borda: a conta base, a verificação do total, a reconstrução de uma pontuação em falta, e o argumento de «mostrar que não pode ganhar» — que é o que o Exame Nacional pediu em 2026. Um deles tem o enunciado errado de propósito.

Exercício 13§R2 · a conta base

Três amigos votam em três filmes, X, Y e Z, ordenando-os por preferência. Atribuem-se 3 pontos à primeira preferência, 2 à segunda e 1 à terceira.

Os boletins foram: X > Y > Z, Y > Z > X e Y > X > Z.

Determina o vencedor pelo método de Borda.

Exercício 14§R2 · a soma total

Numa votação de Borda com 5 opções e 60 boletins, atribuem-se 5 pontos à primeira preferência, 4 à segunda, e assim por diante até 1 ponto à quinta.

A soma das pontuações das cinco opções é:

  • (A)300
  • (B)900
  • (C)1500
  • (D)depende dos boletins.
Exercício 15§R2 · ler uma tabela de preferências

A tabela dá as preferências de 90 votantes sobre três destinos.

preferência34 votos31 votos25 votos
1.ªPQR
2.ªQRQ
3.ªRPP

Determina o vencedor por maioria simples e por Borda (3, 2, 1).

Exercício 16§R2 · uma pontuação impossível

Numa votação de Borda com 4 opções e 50 boletins, uma opção obteve 200 pontos.

Sobre essa opção pode afirmar-se que:

  • (A)foi a primeira preferência de todos os votantes.
  • (B)foi a segunda preferência de todos os votantes.
  • (C)teve a pontuação média das quatro opções.
  • (D)ganhou a votação.
Exercício 17§R2 · reconstruir uma coluna

Numa votação de Borda com quatro opções (4,3,2,1 pontos) e 60 boletins, sabe-se que A teve 190 pontos, B teve 150 e C teve 120.

Quantos pontos teve D? Justifica sem precisares de conhecer um único boletim.

Exercício 18§R2 · o efeito de um bloco de votos

Numa votação de Borda com três opções (3,2,1), a contagem provisória de 80 boletins deu: A, 170; B, 168; C, 142.

Faltam contar 10 boletins, todos com a mesma ordenação. Mostra que C não pode ganhar.

Exercício 19§R2 · dois métodos, dois vencedores

Uma turma de 27 alunos escolhe o destino da visita de estudo entre M, N e P. As preferências são:

preferência11 alunos9 alunos7 alunos
1.ªMNP
2.ªPPN
3.ªNMM

a) Quem ganha por maioria simples? b) Quem ganha por Borda (3,2,1)? c) Comenta o resultado, olhando para a última linha da tabela.

Exercício 20§R2 · o exame, em ponto pequeno

Numa votação com quatro opções (4,3,2,1), 120 boletins deram: A, 340; B, 300; C, 290; D, 270.

Faltam 30 boletins, todos com a mesma ordenação, e sabe-se que nessa ordenação B está acima de A.

Mostra que B não pode ganhar.

Exercício 21§R2 · quantas ordenações

Num boletim de preferência com 4 opções, o votante ordena-as todas, sem empates.

a) Quantas ordenações diferentes são possíveis? b) E com 5 opções?

Exercício 22§R2 · o intervalo das pontuações

Numa votação de Borda com k opções e n boletins, seja P a pontuação de uma opção qualquer.

a) Indica, justificando, o menor e o maior valor possível de P. b) Mostra que a soma das k pontuações é \dfrac{n\,k(k+1)}{2}.

Exercício 23§R2 · construir um contraexemplo

Constrói um perfil de preferências, com três opções e um número de votantes à tua escolha, em que a opção que ganha por maioria absoluta das primeiras preferências não ganha por Borda.

Ou, se for impossível, explica porquê.

Exercício 24§R2 · o argumento do exame

Numa votação de Borda com quatro opções, contaram-se 200 boletins e faltam 50, todos com a mesma ordenação. As pontuações provisórias são: A, 651; B, 497; C, 397; D, 455.

Sabe-se que, nos 50 boletins que faltam, B está numa posição superior à de A. Mostra que B não pode ser a vencedora.

Faz uma coluna por filme e soma os pontos que cada boletim lhe dá.

  1. X: 3 + 1 + 2 = 6
  2. Y: 2 + 3 + 3 = 8
  3. Z: 1 + 2 + 1 = 4
  4. Confirmação: 6+8+4 = 18 = 3 \times (3+2+1).A soma total é sempre o número de boletins vezes a soma dos pontos de um boletim. É a verificação mais rápida que há.
RespostaY, com 8 pontos

Cada boletim distribui sempre o mesmo total de pontos, seja qual for a ordem.

  1. Cada boletim dá 5+4+3+2+1 = 15 pontos.
  2. Com 60 boletins: 60 \times 15 = 900.
Resposta(B)

Maioria simples olha só para a linha das primeiras preferências.

  1. Maioria simples: P com 34, contra 31 e 25. Ganha P.
  2. Borda: P: 3(34) + 1(31) + 1(25) = 102+31+25 = 158.
  3. Q: 2(34) + 3(31) + 2(25) = 68+93+50 = 211.
  4. R: 1(34) + 2(31) + 3(25) = 34+62+75 = 171. Ganha Q.
  5. Soma: 158+211+171 = 540 = 90 \times 6. ✓Q não é a primeira preferência de quase ninguém — é a segunda de toda a gente. É exatamente o tipo de opção que Borda encontra e a maioria simples não vê.
Respostamaioria simples: P · Borda: Q

Calcula o total distribuído e divide pelas quatro opções.

  1. Cada boletim dá 4+3+2+1 = 10 pontos, logo o total é 50 \times 10 = 500.
  2. A média das quatro opções é 500 : 4 = 125... mas a opção teve 200, que não é a média.
  3. Se fosse a primeira de todos teria 50 \times 4 = 200. A (A) é possível — e é a única compatível com 200 pontos e um máximo de 200.
Resposta(A)

O total distribuído não depende dos boletins.

  1. Total: 60 \times (4+3+2+1) = 60 \times 10 = 600.
  2. D = 600 - 190 - 150 - 120 = 140.
  3. É uma consequência de cada boletim distribuir sempre os mesmos 10 pontos.Este argumento aparece com frequência nos exames: dá-se a pontuação de todas menos uma, e pede-se a que falta.
Resposta140 pontos

Dá a C o melhor caso possível e vê se chega.

  1. No melhor caso para C, os 10 boletins põem-na em primeiro: C ganha 10 \times 3 = 30 e fica com 172.
  2. Nesses mesmos boletins, A e B ficam em segundo e terceiro, ganhando pelo menos 10 \times 1 = 10 cada uma.
  3. A melhor das duas fica com pelo menos 170 + 20 = 190 (se ficar em segundo) — ou, no pior caso, 170+10 = 180.
  4. Em qualquer dos casos, 180 > 172: C não pode ganhar.O raciocínio é sempre o mesmo — dá-se o melhor caso ao candidato em questão e o pior aos rivais. Se mesmo assim não chega, está provado.
Respostano melhor caso C chega a 172, e A ou B passam dos 180

Na alínea c), soma quantos alunos puseram cada destino em último lugar.

  1. a) M tem 11 primeiras preferências, contra 9 e 7: ganha M.
  2. b) M: 3(11)+1(9)+1(7) = 33+9+7 = 49.
  3. N: 1(11)+3(9)+2(7) = 11+27+14 = 52.
  4. P: 2(11)+2(9)+3(7) = 22+18+21 = 61. Ganha P.
  5. c) M está em último para 16 dos 27 alunos — mais de metade da turma. P não está em último para ninguém.A maioria simples só conta primeiros lugares e é cega ao resto do boletim. Borda lê o boletim todo — e por isso encontra o destino que ninguém detesta.
Respostaa) M · b) P · c) M é o último de 16 alunos; P não é o último de ninguém

O melhor caso para B é ser a primeira; e nesse caso, quanto ganha A no mínimo?

  1. No melhor caso, os 30 boletins dão a B a primeira preferência: B ganha 30 \times 4 = 120 e fica com 420.
  2. Nesse boletim A está abaixo de B, mas pelo menos em quarto: ganha no mínimo 30 \times 1 = 30 e fica com 370. Ainda não chega.
  3. Mas 420 > 370! Falta ver melhor: se A ficar em segundo, ganha 90 e fica com 430 > 420.
  4. O caso a estudar é o pior para A: A em quarto, B em primeiro. Aí B tem 420 e A tem 370 — e B ganharia. Logo B pode ganhar, e o enunciado é falso.Este exercício está aqui de propósito, e a resposta é «não se consegue mostrar». Quando um enunciado pede para mostrar algo, o primeiro trabalho é verificar se é verdade — às vezes não é, e dizê-lo é a resposta certa.
Respostanão é possível: com B em 1.º e A em 4.º, B fica com 420 contra 370 e ganha

É uma contagem de permutações: quantas escolhas para o primeiro lugar, quantas para o segundo depois desse...

  1. a) 4 \times 3 \times 2 \times 1 = 24.
  2. b) 5! = 120.
  3. É por isso que as tabelas de preferências dos exames agrupam os boletins por ordenação: com quatro opções há no máximo 24 colunas, e normalmente aparecem quatro ou cinco.Com dez opções seriam 10! = 3\,628\,800 ordenações. Boletins de preferência só são práticos com poucas opções.
Respostaa) 24 · b) 120

Na alínea b), soma 1+2+\cdots+k.

  1. a) O mínimo é n — última em todos os boletins, 1 ponto de cada. O máximo é nk — primeira em todos.
  2. b) Cada boletim distribui 1+2+\cdots+k = \dfrac{k(k+1)}{2} pontos.
  3. Com n boletins, o total é n \cdot \dfrac{k(k+1)}{2} = \dfrac{n\,k(k+1)}{2}.
  4. Confere com o exemplo da secção: n=100, k=4, dá \dfrac{100 \times 4 \times 5}{2} = 1000. ✓
Respostaa) entre n e nk · b) cada boletim dá \frac{k(k+1)}{2} pontos

Se uma opção é a primeira de mais de metade dos votantes, quanto vale isso em pontos de Borda? Compara com o máximo que outra pode obter.

  1. Seja n o número de votantes e A a primeira preferência de a > \dfrac{n}{2} deles. Com 3 opções, A tem pelo menos 3a + (n-a) = 2a + n pontos.
  2. Outra opção B tem, no máximo, 2a (segunda nos boletins de A) mais 3(n-a): no máximo 2a + 3n - 3a = 3n - a.
  3. Ora 2a + n > 3n - a \iff 3a > 2n \iff a > \dfrac{2n}{3}.
  4. Ou seja: com maioria absoluta não chega — mas com mais de dois terços das primeiras preferências, A ganha sempre por Borda. Entre \dfrac{n}{2} e \dfrac{2n}{3} há contraexemplos.
  5. Um deles, com n = 10 e a = 6: seis boletins A > C > B e quatro boletins B > C > A. Pontuações: A = 18+4 = 22, B = 6+12 = 18, C = 12+8 = 20. A ganha na mesma.
  6. Com a = 6 e os quatro restantes a pôr A em último e B em primeiro, mas C em segundo nos seis primeiros: A = 18+4 = 22, C = 12+8=20... É preciso a mais perto de metade. Com n=10, a=6 não chega; com n = 100 e a = 51: 51 boletins A>C>B e 49 boletins B>C>A dão A = 153+49 = 202, C = 102+98 = 200, B = 51+147 = 198. A ganha por dois pontos — e basta trocar dois eleitores para C passar à frente.Este exercício é para se sujar as mãos. A conta da terceira linha diz exatamente onde procurar, e é ela que transforma a tentativa às cegas numa procura dirigida.
Respostaé possível quando \frac{n}{2} < a < \frac{2n}{3}; com a > \frac{2n}{3} é impossível

Melhor caso para B: primeira preferência. Que posição pode A ocupar, sabendo que está abaixo de B? Escolhe a pior para A e compara.

  1. No melhor caso, os 50 boletins dão 4 pontos a B: 497 + 200 = 697.
  2. A está abaixo de B, logo no pior caso fica em quarto e ganha 50 \times 1 = 50: 651 + 50 = 701.
  3. 701 > 697: mesmo no cenário mais favorável a B e mais desfavorável a A, A fica à frente.
  4. Logo B não pode ser a vencedora.Este é, com outros nomes, o item do Exame Nacional de 2026 — está no banco de exercícios com o enunciado original. A margem é de quatro pontos em setecentos: o argumento tem de ser exato, não aproximado.
Respostano melhor caso B chega a 697 e A fica com, pelo menos, 701
R3

O método de Hondt

Há sete lugares e três listas. Quantos cabem a cada uma? A resposta «proporcionalmente» não chega, porque os lugares não se partem ao meio. O método de Hondt é uma regra para os repartir — e é a regra que reparte o Parlamento português.

Aprendizagens Essenciais · 10.º ano
  • Perceber que existem modelos matemáticos que permitem criar procedimentos para fazer distribuições proporcionais.
  • Conhecer e aplicar o método de Hondt.
  • Identificar vantagens e limitações do método de Hondt.

1 · O problema, e porque é que não é fácil

Em Portalegre, em 2025, três listas tiveram 17\,220, 16\,125 e 15\,458 votos — 30{,}7\%, 28{,}7\% e 27{,}5\% dos votos validamente expressos. O círculo elege dois deputados.

A repartição proporcional exata daria 0{,}61, 0{,}57 e 0{,}55 de deputado a cada uma. Como não há deputados fracionários, é preciso uma regra que transforme estes números em inteiros — e que o faça sempre da mesma maneira, sem margem para discussão.

2 · A regra

Método de Hondt

Divide-se o número de votos de cada lista, sucessivamente, por 1, 2, 3, 4, \ldots Ordenam-se todos os quocientes obtidos por ordem decrescente. Atribui-se um mandato a cada um dos maiores quocientes, tantos quantos os mandatos a distribuir.

Em caso de empate na fronteira, o mandato cabe à lista com menos votos.

3 · Portalegre, 2025

A tabela dos quocientes, com os dois escolhidos a negrito:

lista: 1: 2: 3: 4: 5
Chega172208610574043053444
PS161258062,553754031,23225
AD1545877295152,73864,53091,6

Fonte: Eleições Legislativas de 18 de maio de 2025 · resultados oficiais, Administração Eleitoral (SGMAI). Os votos são os das três listas mais votadas; concorreram catorze forças políticas.

Os dois maiores quocientes de toda a tabela são 17\,220 e 16\,125 — os próprios votos das duas listas mais votadas. O terceiro maior é 15\,458, e já não há mandatos para ele.

O resultado, e o que ele custa

A terceira lista teve 26,8% dos votos do círculo e não elegeu ninguém. Não houve erro: com dois lugares para três forças de tamanho parecido, uma tem de ficar de fora. Repare-se no que resolveria o problema — um lugar a mais. Com três mandatos, os três maiores quocientes seriam os três primeiros da tabela, e as três listas elegeriam.

Exemplo 3 Sete mandatos, três listas

Numa associação com 7 lugares na direção, as listas X, Y e Z obtiveram 142, 231 e 425 votos. Distribui os lugares pelo método de Hondt.

  1. Os quocientes. Como há 7 lugares, basta dividir por 1 a 7: \begin{aligned} X&: 142;\ 71;\ 47{,}3;\ 35{,}5;\ \ldots\\ Y&: 231;\ 115{,}5;\ 77;\ 57{,}8;\ \ldots\\ Z&: 425;\ 212{,}5;\ 141{,}7;\ 106{,}3;\ 85;\ 70{,}8;\ \ldots \end{aligned}
  2. Os sete maiores, por ordem. 425\,(Z), 231\,(Y), 212{,}5\,(Z), 142\,(X), 141{,}7\,(Z), 115{,}5\,(Y), 106{,}3\,(Z).
  3. Contar. Z aparece quatro vezes, Y duas e X uma.
  4. Repare-se na disputa pelo quarto lugar: 142 contra 141{,}7, três décimas de diferença.É por isso que os quocientes se calculam com casas decimais e não se arredondam antes de ordenar. Arredondar às unidades daria 142 contra 142 — um empate que não existe.
RespostaZ: 4 · Y: 2 · X: 1

Confirma a soma: 4+2+1 = 7. Se não der o número de mandatos, contaram-se quocientes a mais ou a menos.

4 · Vantagens e limitações

O que o método faz bem

Garante uma boa proporcionalidade entre votos e mandatos, tanto melhor quanto mais lugares houver. É de aplicação simples e o resultado não depende de quem faz a conta. Favorece maiorias governáveis, dando alguma vantagem às listas maiores.

O que o método faz mal

Favorece as listas maiores — a mesma característica que na coluna de cima era uma vantagem. Se é bom ou mau depende do que se quer do sistema, e isso não é uma questão matemática. Exclui as listas pequenas: abaixo de um certo número de votos não se elege ninguém, e esse número sobe quando o círculo é pequeno.

A limitação que não está na tabela

Portugal não aplica o método de Hondt ao país: aplica-o 22 vezes, uma por círculo. E isso muda muito o resultado. Nas legislativas de 2025, a lista mais votada teve 33{,}2\% dos votos e 91 dos 230 deputados — 39{,}6\%. Aplicando o mesmo método de Hondt aos totais nacionais, num círculo único, teria 79. A diferença de doze deputados não vem do método: vem da divisão em círculos, e sobretudo dos círculos pequenos, onde a fronteira é alta.

Fonte: Eleições Legislativas de 18 de maio de 2025 · resultados oficiais, Administração Eleitoral (SGMAI). O número de 79 deputados é uma simulação nossa: é o que o método de Hondt daria aplicado aos totais nacionais, num círculo único. Não é um resultado oficial — é a conta que mostra o que a divisão em círculos faz.

Python A tabela de Hondt, e quem fica de fora

O programa recebe os votos e o número de mandatos, constrói todos os quocientes, ordena-os e conta.

votos = {"Chega": 17220, "PS": 16125, "AD": 15458}
mandatos = 2

quocientes = []
for lista in votos:
    for d in range(1, mandatos + 1):
        quocientes.append((votos[lista] / d, lista, d))

quocientes.sort(reverse=True)
eleitos = quocientes[:mandatos]

for q, lista, d in eleitos:
    print(lista, ": votos /", d, "=", round(q, 1))

print()
for lista in votos:
    n = 0
    for q, quem, d in eleitos:
        if quem == lista:
            n = n + 1
    print(lista, "->", n, "mandato(s)")

Muda o mandatos para 3 e vê a terceira lista entrar. Depois muda para 6: cada lista fica com dois. É a experiência que as Aprendizagens Essenciais pedem — «eleições com um número reduzido de mandatos» — e faz-se aqui em cinco segundos.

Exercícios propostos

Doze exercícios sobre o método de Hondt: construir a tabela, ler o resultado ao contrário, encontrar a fronteira a partir da qual uma lista elege, e perceber o efeito do tamanho do círculo. Os últimos pedem generalização, ao nível do Exame.

Exercício 25§R3 · a tabela, passo a passo

Três listas concorrem a 4 mandatos e obtêm 1200, 900 e 500 votos.

Aplica o método de Hondt e indica quantos mandatos cabem a cada lista.

Exercício 26§R3 · o primeiro mandato

Numa distribuição pelo método de Hondt, o primeiro mandato:

  • (A)vai sempre para a lista mais votada.
  • (B)vai para a lista com maior quociente na divisão por 2.
  • (C)depende do número total de mandatos a distribuir.
  • (D)é sorteado entre as duas listas mais votadas.
Exercício 27§R3 · quantos quocientes fazem falta

Vão distribuir-se 6 mandatos por 5 listas.

a) Por que números é preciso dividir os votos de cada lista? b) Quantos quocientes tem a tabela completa?

Exercício 28§R3 · repartir computadores

Uma escola tem 9 computadores para distribuir por três departamentos, proporcionalmente ao número de professores: Ciências, 28; Letras, 19; Artes, 13.

Aplica o método de Hondt.

Exercício 29§R3 · Portalegre, com mais lugares

Em Portalegre, em 2025, as três listas mais votadas tiveram 17\,220, 16\,125 e 15\,458 votos, e o círculo elege 2 deputados.

a) Confirma que a terceira lista não elege ninguém. b) Quantos mandatos teria de haver no círculo para que as três elegessem pelo menos um?

Exercício 30§R3 · o mandato que muda de mãos

Duas listas, A e B, disputam 3 mandatos. A teve 1000 votos e B teve N votos, com N < 1000.

Determina os valores de N para os quais B elege dois dos três mandatos.

Exercício 31§R3 · empate de quocientes

Duas listas obtiveram 600 e 300 votos, e há 3 mandatos a distribuir.

Mostra que há um empate de quocientes e explica por que razão ele não afeta o resultado.

Exercício 32§R3 · a limitação, em números

Num círculo com 2 mandatos, três listas obtiveram 34\%, 33\% e 33\% dos votos.

Pelo método de Hondt, a percentagem de eleitores sem representação é, aproximadamente:

  • (A)0\%
  • (B)33\%
  • (C)50\%
  • (D)67\%
Exercício 33§R3 · ler a tabela ao contrário

Numa distribuição de 5 mandatos por três listas, o quinto maior quociente foi 410 e pertenceu à lista C, tendo sido o seu primeiro quociente.

Que se pode concluir sobre o número de votos de C? E sobre os quocientes das outras listas?

Exercício 34§R3 · a fronteira

Três listas disputam 5 mandatos. A teve 5000 votos e B teve 3000. A lista C tem N votos.

Determina o menor valor inteiro de N para o qual C elege pelo menos um mandato.

Exercício 35§R3 · todos para o mesmo

Duas listas, A e B, disputam m mandatos. A teve a votos e B teve b votos, com a > b > 0.

Mostra que A ganha todos os mandatos se e só se \dfrac{a}{m} > b.

Exercício 36§R3 · o efeito dos círculos

Um território com 1000 eleitores elege 4 deputados. Duas listas, A e B, têm apoios uniformemente distribuídos: A tem 60\% em todo o lado e B tem 40\%.

a) Distribui os 4 mandatos num círculo único. b) Distribui-os supondo dois círculos de 2 mandatos cada, com a mesma proporção em cada um. c) Comenta.

Divide cada resultado por 1, 2, 3, 4 e escolhe os quatro maiores quocientes de toda a tabela.

  1. Quocientes de A: 1200, 600, 400, 300.
  2. Quocientes de B: 900, 450, 300, 225.
  3. Quocientes de C: 500, 250, 166{,}7, 125.
  4. Os quatro maiores: 1200\,(A), 900\,(B), 600\,(A), 500\,(C).
RespostaA: 2 · B: 1 · C: 1

O maior quociente de toda a tabela está sempre na primeira coluna. E qual é o maior da primeira coluna?

  1. A primeira coluna traz os votos a dividir por 1, ou seja, os próprios votos.
  2. Dividir por 2, 3, \ldots só faz descer. Logo o maior quociente da tabela é o número de votos da lista mais votada.
Resposta(A)

Uma lista não pode ganhar mais mandatos do que os que existem.

  1. a) Por 1, 2, 3, 4, 5, 6 — nunca faz falta ir além do número de mandatos.
  2. b) 5 \times 6 = 30 quocientes.
  3. Destes, escolhem-se os 6 maiores.Na prática as últimas colunas quase nunca são precisas: os quocientes das listas pequenas descem depressa e não chegam aos maiores.
Respostaa) por 1 a 6 · b) 30

É o mesmo método, com professores em vez de votos e computadores em vez de mandatos.

  1. Ciências: 28; 14; 9{,}3; 7; 5{,}6; \ldots
  2. Letras: 19; 9{,}5; 6{,}3; 4{,}75; \ldots
  3. Artes: 13; 6{,}5; 4{,}3; \ldots
  4. Os nove maiores: 28, 19, 14, 13, 9{,}5, 9{,}3, 7, 6{,}5, 6{,}3.
  5. Contando: Ciências 4, Letras 3, Artes 2.É o exemplo que as Aprendizagens Essenciais sugerem, e mostra que o método não tem nada de político: é uma regra de repartição proporcional de coisas indivisíveis.
RespostaCiências 4 · Letras 3 · Artes 2

Na alínea b), aumenta o número de mandatos e vê a partir de quando o quociente da terceira lista entra nos escolhidos.

  1. a) Os dois maiores quocientes de toda a tabela são 17\,220 e 16\,125, ambos da primeira coluna. O terceiro maior é 15\,458, e já não há mandatos.
  2. b) Com 3 mandatos, o terceiro maior quociente é 15\,458 — e a terceira lista elege.
  3. Bastava um lugar a mais.Não é a lista que é pequena: é o círculo. A mesma votação num círculo de 3 dá representação às três forças, e num círculo de 2 deixa 26,8% dos eleitores sem deputado.
Respostaa) o seu maior quociente é o 3.º da tabela · b) 3 mandatos

Escreve os quocientes das duas listas e ordena. Para B ter dois, o seu segundo quociente tem de bater o segundo de A.

  1. Quocientes de A: 1000, 500, 333{,}3. De B: N, \dfrac{N}{2}, \dfrac{N}{3}.
  2. Como N < 1000, o primeiro mandato é de A. O segundo é de B (porque N > 500) ou de A.
  3. Para B ter dois mandatos são precisos N > 500 e \dfrac{N}{2} > 500, ou seja N > 1000 — impossível.
  4. Logo B nunca pode eleger dois com menos votos do que A.É uma propriedade geral e reconfortante: no método de Hondt, uma lista com menos votos nunca elege mais mandatos do que outra com mais votos. Chama-se monotonia, e nem todos os métodos de partilha a têm.
Respostaé impossível: seria preciso N > 1000

Escreve as duas linhas de quocientes e procura dois números iguais.

  1. A: 600, 300, 200. B: 300, 150, 100.
  2. Há dois quocientes iguais a 300: o segundo de A e o primeiro de B.
  3. Os três maiores são 600 e os dois 300: entram os dois, um para cada lista.
  4. Como os dois empatados são escolhidos, a ordem entre eles não importa: A fica com 2 e B com 1.O empate só decide alguma coisa quando cai exatamente na fronteira — quando um entra e o outro não. Nesse caso a lei manda decidir pela lista com menos votos, e se persistir há sorteio.
RespostaA: 2 · B: 1; o empate não é na fronteira

Quantas listas elegem? E quantos por cento ficaram de fora?

  1. Os dois maiores quocientes da tabela são os das duas listas mais votadas, com 34\% e 33\%.
  2. A terceira lista, com 33\%, não elege.
Resposta(B)

Se o primeiro quociente de C é 410, quantos votos teve C?

  1. O primeiro quociente é o próprio número de votos: C teve 410 votos.
  2. C elegeu exatamente 1 mandato — o quinto e último.
  3. As outras duas listas repartiram os quatro primeiros, e todos os seus quocientes escolhidos são \geq 410.
  4. Além disso, o sexto maior quociente é \leq 410: os quocientes seguintes das outras listas já estão abaixo.Ler a tabela ao contrário — do resultado para os votos — é o que os itens de exame costumam pedir, e faz-se sempre com esta ideia: o último quociente escolhido é a fronteira.
RespostaC teve 410 votos e elegeu 1; os quocientes seguintes das outras estão abaixo de 410

Escreve os cinco maiores quocientes de A e B juntos, ignorando C. O quinto é a fronteira que C tem de bater.

  1. Quocientes de A: 5000; 2500; 1666{,}7; 1250; 1000.
  2. Quocientes de B: 3000; 1500; 1000; 750; 600.
  3. Juntos e por ordem: 5000; 3000; 2500; 1666{,}7; 1500; 1250; \ldots
  4. Sem C, os cinco mandatos iriam até 1500. Para C entrar, o seu primeiro quociente — que é N — tem de ultrapassar 1500.
  5. O menor inteiro é N = 1501.Repare-se em que 1501 votos em 9501 são 15{,}8\% — e dão um mandato em cinco, ou seja 20\%. Com menos um voto, dariam zero. É essa descontinuidade que faz a diferença entre ter e não ter representação.
RespostaN = 1501

A leva tudo exatamente quando o seu m-ésimo quociente ainda é maior do que o primeiro de B.

  1. Os quocientes de A são a, \dfrac{a}{2}, \ldots, \dfrac{a}{m}, e o maior de B é b.
  2. A leva os m mandatos se e só se os seus m quocientes forem todos maiores do que b.
  3. O menor deles é \dfrac{a}{m}, logo a condição é \dfrac{a}{m} > b.
  4. Reciprocamente, se \dfrac{a}{m} > b então todos os quocientes de A ultrapassam b e, por maioria de razão, todos os de B.
  5. Em Portalegre, com m=2: seria preciso \dfrac{17\,220}{2} = 8610 > 16\,125, o que é falso — e por isso o segundo mandato foi para a segunda lista.A condição diz uma coisa surpreendente: quanto mais mandatos houver, mais difícil é uma lista levá-los todos. Um círculo pequeno concentra; um círculo grande reparte.
Respostaa condição é \frac{a}{m} > b, isto é, a > mb

Faz as duas tabelas. Na b), cada círculo tem 300 e 200 votos.

  1. a) A: 600; 300; 200; 150. B: 400; 200; 133; 100. Os quatro maiores: 600, 400, 300, 200 — e há empate no 200. Tomando o de A (mais votos), fica A: 3, B: 1... mas se o empate for para B, fica 22.
  2. Resolvendo o empate a favor da lista com menos votos, como manda a lei: A: 2, B: 2.
  3. b) Em cada círculo, A: 300; 150 e B: 200; 100. Os dois maiores são 300 e 200: um mandato para cada. Nos dois círculos: A: 2, B: 2.
  4. c) Aqui deu o mesmo — porque o apoio está distribuído de forma uniforme e os números são pequenos. Em geral não dá: dividir em círculos pequenos favorece as listas maiores, porque em cada círculo há menos lugares e a fronteira sobe.
  5. Nas legislativas de 2025, a lista mais votada teve 33{,}2\% dos votos e 91 dos 230 deputados, ou seja 39{,}6\%. Num círculo único, com os mesmos votos, teria 79.A diferença — doze deputados — não vem do método de Hondt: vem de o país estar dividido em 22 círculos. É a limitação mais importante do sistema, e não se vê na tabela de quocientes de nenhum deles.
Respostaa) 2–2 · b) 2–2 · c) em geral os círculos pequenos favorecem as listas maiores
R4

O método de Sainte-Laguë

A mesma ideia do método anterior, com uma só alteração: divide-se por 1, 3, 5, 7 em vez de 1, 2, 3, 4. Parece um pormenor, e muda mandatos de mãos.

Aprendizagens Essenciais · 10.º ano
  • Conhecer e aplicar o método de Hondt e o método de St. Laguë.
  • Identificar vantagens e limitações dos métodos de Hondt e St. Laguë.
  • Analisar situações concretas que evidenciem que métodos de partilha diferentes geram distribuições diferentes para a mesma eleição.

1 · A regra

Método de Sainte-Laguë

Divide-se o número de votos de cada lista, sucessivamente, pelos números ímpares

1,\ 3,\ 5,\ 7,\ 9,\ \ldots

e atribui-se um mandato a cada um dos maiores quocientes, como em Hondt. O n-ésimo divisor é 2n-1.

Porque é que isto muda alguma coisa

O primeiro divisor é 1 nos dois métodos: o primeiro mandato vai sempre para a lista mais votada, seja qual for o método. A partir do segundo, dividir por 3 em vez de 2 faz o quociente descer mais — e quem depende de segundos e terceiros quocientes são as listas grandes. Sainte-Laguë encarece cada mandato adicional, e por isso reparte mais.

2 · A mesma votação, dois resultados

Três listas com 100, 60 e 25 votos, quatro mandatos a distribuir. Primeiro por Hondt:

lista: 1: 2: 3: 4
A1005033,325
B60302015
C2512,58,36,2

Os quatro maiores são 100, 60, 50 e 33{,}3: A leva três, B leva um, C não elege.

Agora por Sainte-Laguë:

lista: 1: 3: 5: 7
A10033,32014,3
B6020128,6
C258,353,6

Laboratório · Hondt contra Sainte-Laguë

dados reais

As células assinaladas são as que mudam de mãos entre os dois métodos. Em Portalegre, sobe os mandatos de 2 para 3 e vê a terceira lista entrar. No total nacional, põe 60 e repara em quantos lugares mudam — e sempre no mesmo sentido.

Os quatro maiores são 100, 60, 33{,}3 e 25: A leva dois, B leva um e C leva um.

Um mandato mudou de mãos

Os votos são exatamente os mesmos. O que mudou foi o divisor — e com ele um lugar, que saiu da lista maior e foi para a mais pequena. Para C, a diferença é entre ter representação e não ter nenhuma.

3 · Com os votos verdadeiros

Aplicando os dois métodos aos totais nacionais das legislativas de 2025, num círculo único de 230 mandatos:

listavotosHondtSainte-Laguëdif.
AD2 008 4887979
PS1 442 5465756-1
Chega1 438 5545756-1
IL338 9741313
Livre257 2911010
PCP-PEV183 68677
BE125 80845+1
PAN86 93033
JPP20 90001+1

Fonte: Eleições Legislativas de 18 de maio de 2025 · resultados oficiais, Administração Eleitoral (SGMAI). Os votos são oficiais; as duas colunas de mandatos são simulações nossas. Portugal aplica o método de Hondt 22 vezes, uma por círculo, e não uma vez ao país — os mandatos realmente eleitos foram 91, 58, 60, 9, 6, 3, 1, 1 e 1.

Dois mandatos mudam de mãos, e mudam no mesmo sentido: saem dos dois maiores e vão para os dois mais pequenos. Repare-se na última linha — a lista passa de zero a um.

Exemplo 4 Onde é que os métodos se separam

Duas listas disputam 3 mandatos. A tem 1200 votos e B tem 400. Distribui pelos dois métodos.

  1. Hondt. A: 1200; 600; 400. B: 400; 200; 133{,}3.
  2. Os três maiores: 1200, 600 e depois um empate a 400. A lei manda dar o mandato à lista com menos votos: fica A: 2, B: 1.
  3. Sainte-Laguë. A: 1200; 400; 240. B: 400; 133{,}3; 80.
  4. Os três maiores: 1200, e outra vez um empate a 400 — que agora vale dois lugares, e ambos entram. Fica A: 2, B: 1.
  5. Deu o mesmo, mas por caminhos diferentes: em Hondt o empate teve de ser desempatado, em Sainte-Laguë os dois empatados couberam.Vale a pena perceber quando é que um empate importa: só quando cai na fronteira — quando um dos empatados entra e o outro não.
Respostaos dois métodos dão A: 2 · B: 1

Muda os votos de B para 300 e refaz. Hondt dá 30; Sainte-Laguë dá 21. É a divergência do exercício c4k, com números.

4 · Vantagens e limitações

O que o método faz bem

Promove uma distribuição mais ampla, mais próxima da proporção exata dos votos. É tão simples de aplicar como o de Hondt: muda-se a lista de divisores e mais nada. Dá representação a listas que em Hondt ficariam a zero.

O que o método faz mal

Tende a fragmentar o parlamento, o que dificulta a formação de governos estáveis — é a mesma característica da coluna de cima, vista do outro lado. Não elimina a exclusão: uma lista muito pequena continua a não eleger, sobretudo em círculos com poucos mandatos.

O que a matemática decide, e o que não decide

A matemática diz exatamente o que cada método faz — e as duas tabelas desta secção provam-no sem margem para discussão. O que ela não diz é qual se deve usar: isso depende de se querer um parlamento que represente melhor ou que decida mais depressa, e essa é uma escolha de valores. Saber onde acaba uma coisa e começa a outra é metade do que este capítulo tem para ensinar.

Python Os dois métodos, lado a lado

O mesmo programa serve para os dois: só muda a lista de divisores.

def distribuir(votos, mandatos, divisores):
    quocientes = []
    for lista in votos:
        for d in divisores:
            quocientes.append((votos[lista] / d, lista))
    quocientes.sort(reverse=True)
    eleitos = quocientes[:mandatos]
    resultado = {}
    for lista in votos:
        resultado[lista] = 0
    for q, lista in eleitos:
        resultado[lista] = resultado[lista] + 1
    return resultado

votos = {"A": 100, "B": 60, "C": 25}
m = 4

hondt = list(range(1, m + 1))
laguë = list(range(1, 2 * m, 2))

print("divisores de Hondt        :", hondt)
print("divisores de Sainte-Lague :", laguë)
print("Hondt        ->", distribuir(votos, m, hondt))
print("Sainte-Lague ->", distribuir(votos, m, laguë))

A única diferença entre os dois métodos, em código, é o range da penúltima linha. Troca os votos pelos de Portalegre e põe m = 2: os dois dão o mesmo. Depois põe m = 5 e vê-os separarem-se.

Exercícios propostos

Doze exercícios sobre o método de Sainte-Laguë e a comparação com o de Hondt: aplicar a regra, descobrir a partir de quantos mandatos os métodos divergem, e argumentar a favor de cada um. O último não tem resposta certa — tem argumentos certos.

Exercício 37§R4 · os divisores

Vão distribuir-se 5 mandatos pelo método de Sainte-Laguë.

Por que números se dividem os votos de cada lista?

Exercício 38§R4 · aplicar o método

Três listas obtiveram 90, 52 e 31 votos, e há 4 mandatos.

Distribui-os pelo método de Sainte-Laguë.

Exercício 39§R4 · o primeiro divisor

Nos métodos de Hondt e de Sainte-Laguë, o primeiro quociente de cada lista:

  • (A)é o mesmo nos dois métodos.
  • (B)é maior em Hondt.
  • (C)é maior em Sainte-Laguë.
  • (D)depende do número de mandatos.
Exercício 40§R4 · a mesma eleição, dois métodos

Três listas obtiveram 100, 60 e 25 votos, e há 4 mandatos.

Distribui-os pelos dois métodos e compara.

Exercício 41§R4 · a partir de onde diverge

Duas listas, A com 90 votos e B com 50, disputam mandatos.

Determina o menor número de mandatos para o qual os dois métodos dão distribuições diferentes.

Exercício 42§R4 · dados reais

Nas legislativas de 2025, aplicando os dois métodos aos totais nacionais num círculo único de 230 mandatos, obter-se-ia:

listaHondtSainte-Laguë
AD7979
PS5756
Chega5756
IL1313
Livre1010
PCP-PEV77
BE45
PAN33
JPP01

a) Verifica que as duas colunas somam 230. b) Quantos mandatos mudam de mãos, e em que sentido?

Exercício 43§R4 · o divisor que falta

Numa distribuição por Sainte-Laguë, uma lista com 4500 votos obteve o seu terceiro mandato.

Qual foi o quociente que lho deu? E o que se pode concluir sobre o último quociente escolhido?

Exercício 44§R4 · qual favorece quem

Comparando os dois métodos aplicados à mesma votação, é geralmente verdade que:

  • (A)Hondt favorece as listas mais pequenas.
  • (B)Sainte-Laguë favorece as listas mais pequenas.
  • (C)os dois dão sempre o mesmo resultado.
  • (D)Sainte-Laguë favorece a lista mais votada.
Exercício 45§R4 · repartir turnos

Um hospital reparte 9 turnos de fim de semana por três equipas, proporcionalmente ao número de enfermeiros: 22, 14 e 9.

Compara as distribuições pelos dois métodos e comenta qual delas é mais justa para a equipa pequena.

Exercício 46§R4 · a fórmula do divisor

Seja d_n o n-ésimo divisor do método de Sainte-Laguë.

a) Escreve d_n em função de n. b) Mostra que, para n \geq 2, o n-ésimo quociente de uma lista é sempre menor em Sainte-Laguë do que em Hondt.

Exercício 47§R4 · construir a divergência

Duas listas disputam 3 mandatos. A tem 1000 votos e B tem N votos, com N < 1000.

Determina os valores de N para os quais os dois métodos dão distribuições diferentes.

Exercício 48§R4 · escolher o método

Uma federação desportiva vai fixar nos estatutos o método de distribuição dos 15 lugares da assembleia geral pelos clubes, proporcionalmente ao número de atletas.

Escreve um parágrafo, com argumentos matemáticos, a favor de cada um dos métodos. Termina dizendo qual escolherias e porquê.

São os ímpares, tantos quantos os mandatos.

  1. Por 1, 3, 5, 7, 9.
  2. Nunca faz falta ir além do quinto divisor, porque uma lista não pode ganhar mais de 5 mandatos.O n-ésimo divisor é 2n-1: para 5 mandatos, 2 \times 5 - 1 = 9.
Resposta1, 3, 5, 7 e 9

Divide por 1, 3, 5, 7 e escolhe os quatro maiores quocientes.

  1. A: 90; 30; 18; 12{,}9.
  2. B: 52; 17{,}3; 10{,}4; 7{,}4.
  3. C: 31; 10{,}3; 6{,}2; 4{,}4.
  4. Os quatro maiores: 90\,(A), 52\,(B), 31\,(C), 30\,(A).
RespostaA: 2 · B: 1 · C: 1

Qual é o primeiro divisor de cada método?

  1. Os dois começam a dividir por 1: o primeiro quociente é, nos dois casos, o próprio número de votos.
  2. É a partir do segundo que se separam — 2 contra 3.Consequência prática: o primeiro mandato vai sempre para a lista mais votada, nos dois métodos. As diferenças só começam no segundo.
Resposta(A)

Faz as duas tabelas: divisores 1,2,3,4 num caso e 1,3,5,7 no outro.

  1. Hondt. A: 100; 50; 33{,}3; 25. B: 60; 30; 20; 15. C: 25; 12{,}5; \ldots
  2. Os quatro maiores: 100, 60, 50, 33{,}3A: 3, B: 1, C: 0.
  3. Sainte-Laguë. A: 100; 33{,}3; 20; 14{,}3. B: 60; 20; 12; \ldots C: 25; 8{,}3; \ldots
  4. Os quatro maiores: 100, 60, 33{,}3, 25A: 2, B: 1, C: 1.
  5. Os mesmos votos, um mandato a mudar de mãos: sai da lista maior e vai para a mais pequena.
RespostaHondt 3–1–0 · Sainte-Laguë 2–1–1

Faz as duas tabelas até ao quarto quociente e vai comparando mandato a mandato.

  1. Hondt. A: 90; 45; 30; 22{,}5. B: 50; 25; 16{,}7; 12{,}5.
  2. Ordem: 90(A), 50(B), 45(A), 30(A), 25(B), 22{,}5(A), \ldots
  3. Sainte-Laguë. A: 90; 30; 18; 12{,}9. B: 50; 16{,}7; 10; 7{,}1.
  4. Ordem: 90(A), 50(B), 30(A), 18(A), 16{,}7(B), \ldots
  5. Com 1, 2, 3 mandatos, os dois dão 10, 11, 21. Com 4: Hondt dá 31 e Sainte-Laguë dá 31 também.
  6. Com 5: Hondt dá 32, Sainte-Laguë dá 41. É a partir de 5.Com duas listas só, Sainte-Laguë pode até favorecer a maior — a diferença entre os métodos não é uma regra simples, é o resultado de duas sequências de quocientes a intercalarem-se de maneiras diferentes.
Resposta5 mandatos: 32 contra 41

Na alínea b), soma só as diferenças positivas — é esse o número de lugares que trocam de dono.

  1. a) Hondt: 79+57+57+13+10+7+4+3+0 = 230. Sainte-Laguë: 79+56+56+13+10+7+5+3+1 = 230. ✓
  2. b) Perdem um cada: PS e Chega. Ganham um cada: BE e JPP. São dois mandatos a mudar de mãos.
  3. O sentido é sempre o mesmo: dos maiores para os mais pequenos.Repare-se em que o JPP passa de zero a um: é a diferença entre não ter representação nenhuma e tê-la. Para uma lista pequena, o método escolhido não é um pormenor técnico.
Respostaa) as duas somam 230 · b) dois mandatos, dos maiores para os menores

O terceiro mandato de uma lista vem do seu terceiro quociente. Qual é o terceiro divisor?

  1. Os divisores são 1, 3, 5, \ldots, logo o terceiro é 5.
  2. O quociente é \dfrac{4500}{5} = 900.
  3. Como esse quociente foi escolhido, o último quociente escolhido de toda a tabela é \leq 900.O n-ésimo divisor de Sainte-Laguë é 2n-1. Em Hondt seria n: para o terceiro mandato, 4500 : 3 = 1500. É por isso que Sainte-Laguë torna mais caro cada mandato adicional.
Resposta900; o último quociente escolhido não passa de 900

Compara o segundo divisor de cada método: 2 contra 3. A quem é que dividir por 3 em vez de 2 faz mais mal?

  1. Ao passar de 2 para 3, o segundo quociente de uma lista desce mais.
  2. As listas grandes são as que dependem dos segundos, terceiros e quartos quocientes; as pequenas só usam o primeiro, que é igual nos dois métodos.
  3. Logo Sainte-Laguë prejudica as grandes e, por consequência, favorece as pequenas.
Resposta(B)

Faz as duas tabelas com quatro divisores para cada equipa.

  1. Hondt. 22; 11; 7{,}3; 5{,}5 · 14; 7; 4{,}7; 3{,}5 · 9; 4{,}5; 3; \ldots
  2. Os nove maiores: 22, 14, 11, 9, 7{,}3, 7, 5{,}5, 4{,}7, 4{,}54, 3, 2.
  3. Sainte-Laguë. 22; 7{,}3; 4{,}4; 3{,}1 · 14; 4{,}7; 2{,}8; \ldots · 9; 3; 1{,}8; \ldots
  4. Os nove maiores: 22, 14, 9, 7{,}3, 4{,}7, 4{,}4, 3{,}1, 3, 2{,}84, 3, 2.
  5. Deu o mesmo. A proporção exata seria 4{,}4, 2{,}8 e 1{,}8, e os dois métodos arredondaram do mesmo modo.Nem sempre os métodos discordam — discordam quando os quocientes de fronteira estão próximos. Verificar que dão o mesmo é uma resposta tão boa como verificar que dão diferente.
Respostaos dois dão 432

Os divisores de Hondt são 1, 2, 3, \ldots e os de Sainte-Laguë são os ímpares.

  1. a) d_n = 2n-1. Confere: d_1 = 1, d_2 = 3, d_3 = 5.
  2. b) Com V votos, o n-ésimo quociente é \dfrac{V}{n} em Hondt e \dfrac{V}{2n-1} em Sainte-Laguë.
  3. Ora 2n-1 > n \iff n > 1, ou seja, para n \geq 2.
  4. Como o divisor é maior, o quociente é menor: \dfrac{V}{2n-1} < \dfrac{V}{n}.
  5. Para n=1 os divisores coincidem, e por isso o primeiro quociente é igual nos dois métodos.Esta é a demonstração de que Sainte-Laguë «encarece» todos os mandatos a partir do segundo — e é por isso que ele penaliza quem precisa de muitos.
Respostaa) d_n = 2n-1 · b) 2n-1 > n para n \geq 2

Escreve as duas tabelas com três quocientes cada e vê, em cada método, quando é que B ganha o seu segundo mandato.

  1. Hondt. A: 1000; 500; 333{,}3. B: N; \dfrac{N}{2}; \ldots
  2. B tem dois mandatos se \dfrac{N}{2} > 500, isto é N > 1000: impossível. Logo Hondt dá 21 se N > 500, e 30 se N < 500.
  3. Sainte-Laguë. A: 1000; 333{,}3; 200. B: N; \dfrac{N}{3}; \ldots
  4. B tem um mandato se N > 200 (bate o terceiro de A), e dois se \dfrac{N}{3} > 333{,}3, ou seja N > 1000: também impossível.
  5. Sainte-Laguë dá 21 se N > 200, e 30 se N < 200.
  6. Os métodos discordam quando 200 < N < 500: aí Hondt dá 30 e Sainte-Laguë dá 21.Em votos, N=300 em 1300 são 23\% — e num caso valem um terço dos lugares, no outro valem nada.
Respostapara 200 < N < 500

Não há resposta certa. Há argumentos certos e argumentos errados — e o que se avalia é se os teus assentam nos quocientes.

  1. A favor de Hondt. Dá alguma vantagem aos clubes maiores, e por isso produz maiorias mais estáveis: com 15 lugares, é mais provável que dois ou três clubes cheguem a metade e a assembleia consiga decidir. O divisor n torna cada lugar adicional relativamente mais barato para quem já tem muitos atletas.
  2. A favor de Sainte-Laguë. O divisor 2n-1 encarece cada lugar a partir do segundo, e por isso aproxima mais a distribuição da proporção exata. Clubes pequenos que em Hondt ficariam a zero passam a ter voz — e numa federação isso pode ser exatamente o que se quer.
  3. Um argumento que não serve: «Hondt é mais justo» ou «Sainte-Laguë é mais justo», sem mais. Os dois arredondam; o que muda é para que lado, e qual dos lados é preferível é uma decisão política, não matemática.
  4. Uma escolha defensável: Sainte-Laguë, porque com 15 lugares e clubes de tamanhos muito diferentes o risco de deixar metade dos clubes sem representação é real, e a assembleia geral de uma federação existe para representar, não para governar.A matemática decide o que cada método faz. Não decide qual se deve usar — e saber onde acaba uma coisa e começa a outra é metade deste capítulo.
Respostaargumentos assentes nos divisores n e 2n-1; a escolha final é uma decisão de valores, não de cálculo
R5

Do salário bruto ao líquido

O número que está no contrato não é o número que chega à conta. Entre um e outro há duas subtrações — e nenhuma delas é bem o que parece: a primeira não é imposto, e a segunda não é definitiva.

Aprendizagens Essenciais · 10.º ano
  • Calcular o valor dos salários mensal, anual e por hora, dadas as condições de um contrato.
  • Reconhecer as diferenças entre salário bruto e salário líquido.
  • Calcular contribuições obrigatórias para sistemas de segurança social.
  • Calcular a retenção na fonte para IRS e compreender o seu caráter provisório.

1 · As duas subtrações

Definição · bruto e líquido

O salário bruto é o valor acordado no contrato. O salário líquido é o que resta depois de dois descontos, ambos calculados sobre o bruto:

\text{líquido} = \text{bruto} \times \left(1 - s - r\right),

em que s é a taxa contributiva para a Segurança Social e r a taxa de retenção na fonte de IRS.

As duas taxas somam-se, não se encadeiam

Um erro frequente é aplicar a segunda taxa ao valor já descontado. Não é assim: as duas incidem sobre o mesmo valor, o bruto. Com 1600 €, 11\% e 9{,}2\%, o líquido é 1600 \times 0{,}798 = 1276{,}80 € — e não 1600 \times 0{,}89 \times 0{,}908 = 1293 €.

2 · A Segurança Social

Um trabalhador por conta de outrem desconta 11% do salário bruto. A entidade empregadora paga, além do salário, mais 23,75% — que não aparece no recibo mas faz parte do custo do trabalho.

sobre um salário de 1200 €
Trabalhador · 11\%132 € — sai do salário
Entidade empregadora · 23{,}75\%285 € — acresce ao salário
Custo total para a empresa1485 €
Recebido pelo trabalhador1068 € (antes de IRS)

Fonte: Taxas contributivas · Segurança Social.

Não é um imposto

A contribuição para a Segurança Social não é imposto: é o que paga as pensões, o subsídio de desemprego, a baixa médica e a licença parental. Chama-se contribuição justamente porque dá direito a algo em troca — ao contrário do IRS, que financia o Estado em geral.

3 · O salário mínimo, e o encaixe dos números

Em 2026 a retribuição mínima mensal garantida é de 920 €. A conta do líquido tem uma só subtração:

920 - 0{,}11 \times 920 = 920 - 101{,}20 = 818{,}80

Fonte: Retribuição mínima mensal garantida para 2026 · Decreto-Lei n.º 139/2025.

Não há retenção de IRS nenhuma. E a razão é bonita: 14 \times 920 = 12\,880 €, que é exatamente o mínimo de existência para 2026 — o rendimento anual abaixo do qual não se paga IRS. Os dois valores não são independentes: são fixados um em função do outro, para que quem ganha o mínimo não pague imposto sobre o rendimento.

4 · Mensal, anual, por hora

O mesmo contrato dá três números diferentes, e compará-los mal é o erro mais caro deste tema.

perguntacontacom 1300 € e 40 h/semana
rendimento anual14 \times R_m18\,200
média mensal do ano\dfrac{14 R_m}{12}1516{,}67
retribuição horária\dfrac{12 R_m}{52 n}7{,}50

Fonte: Código do Trabalho, artigo 271.º · cálculo da retribuição horária. A fórmula da retribuição horária é a do artigo 271.º, e usa 12 meses — os subsídios não são pagamento de horas trabalhadas.

5 · A retenção na fonte é um adiantamento

O caráter provisório da retenção

A retenção na fonte não é o imposto: é um adiantamento por conta dele. O imposto verdadeiro só se conhece no ano seguinte, quando se declara o rendimento anual e se aplicam os escalões e as deduções. Se se adiantou a mais, há reembolso; se a menos, há mais a pagar.

1500,00 € bruto 165,00 € Seg. Social 118,50 € retenção IRS 1216,50 € líquido
Um salário bruto de 1500 € com uma taxa de retenção de 7{,}9\%. Do bruto ao líquido vão duas subtrações — e nenhuma delas é imposto pago: a primeira é uma contribuição, a segunda é um adiantamento.
Exemplo 5 Um recibo de vencimento, de cima a baixo

Um trabalhador tem salário base de 1450 €, desconta 11\% para a Segurança Social e tem uma taxa de retenção de IRS de 8{,}6\%. Trabalha 40 horas por semana e recebe 14 meses.

  1. Segurança Social. 0{,}11 \times 1450 = 159{,}50 €.
  2. Retenção de IRS. 0{,}086 \times 1450 = 124{,}70 €.
  3. Líquido mensal. 1450 - 159{,}50 - 124{,}70 = 1165{,}80 €. \text{ou, de uma vez: } 1450 \times (1 - 0{,}11 - 0{,}086) = 1450 \times 0{,}804 = 1165{,}80.
  4. Rendimento anual bruto. 14 \times 1450 = 20\,300 €.
  5. Retribuição horária. \dfrac{12 \times 1450}{52 \times 40} = \dfrac{17\,400}{2080} \approx 8{,}37 €.
  6. Do bruto ao líquido perdem-se 19{,}6\%. Mas só 11 desses pontos são definitivos: os outros 8{,}6 são adiantamento, e no ano seguinte podem voltar em parte.Repare-se em que o rendimento anual usa 14 e o valor/hora usa 12. Não é distração: são perguntas diferentes, e cada uma tem o seu multiplicador.
Respostalíquido 1165{,}80 € · anual 20\,300 € · hora \approx 8{,}37

A conta de controlo mais rápida: o líquido tem de ser 1450 \times 0{,}804. Se as duas subtrações separadas não derem o mesmo, uma delas foi aplicada à base errada.

Python O recibo, de uma vez

O programa recebe o bruto e as duas taxas, e escreve o recibo inteiro: descontos, líquido, anual e valor/hora.

bruto = 1450
taxa_ss = 0.11
taxa_irs = 0.086
meses = 14
horas_semana = 40

ss = bruto * taxa_ss
irs = bruto * taxa_irs
liquido = bruto - ss - irs

print("Salario bruto     :", round(bruto, 2), "EUR")
print("  Seguranca Social:", round(ss, 2), "EUR")
print("  Retencao de IRS :", round(irs, 2), "EUR")
print("Salario liquido   :", round(liquido, 2), "EUR")
print()
print("Rendimento anual  :", round(meses * bruto, 2), "EUR")
print("Valor por hora    :", round(12 * bruto / (52 * horas_semana), 2), "EUR")
print("Fica com          :", round(100 * liquido / bruto, 1), "% do bruto")

Põe bruto = 920 e taxa_irs = 0: dá os 818{,}80 € do salário mínimo, e o rendimento anual dá 12\,880 € — o mínimo de existência. Depois experimenta subir o bruto sem mexer na taxa de IRS, e repara em que a percentagem que fica é sempre a mesma. Na realidade não é, e a secção seguinte explica porquê.

Exercícios propostos

Doze exercícios sobre o recibo de vencimento: os dois descontos e a base sobre que incidem, os três números do mesmo contrato — mensal, anual e por hora —, o custo do trabalho para a empresa, e o significado de um reembolso de IRS. Os últimos resolvem ao contrário e generalizam.

Exercício 49§R5 · o desconto da Segurança Social

Um trabalhador por conta de outrem tem um salário base de 1250 €. A taxa contributiva a seu cargo é de 11\%.

a) Qual é o valor do desconto? b) E o salário depois desse desconto?

Exercício 50§R5 · o salário mínimo

Em 2026, a retribuição mínima mensal garantida é de 920 €. O desconto para a Segurança Social é de 11\% e não há retenção de IRS.

Determina o salário líquido mensal.

Exercício 51§R5 · quatorze meses

Um contrato prevê um salário base de 1400 € e o pagamento de subsídio de férias e de subsídio de Natal, cada um de valor igual a um mês de salário.

O rendimento anual bruto é:

  • (A)16\,800
  • (B)18\,200
  • (C)19\,600
  • (D)21\,000
Exercício 52§R5 · a retribuição horária

O artigo 271.º do Código do Trabalho manda calcular a retribuição horária por

\text{valor/hora} = \dfrac{12 \times R_m}{52 \times n},

em que R_m é a retribuição mensal e n o período normal de trabalho semanal, em horas.

Calcula a retribuição horária de quem ganha 1300 € por mês com 40 horas semanais.

Exercício 53§R5 · do bruto ao líquido, completo

Um trabalhador tem um salário bruto mensal de 1600 €. Desconta 11\% para a Segurança Social e a sua taxa de retenção na fonte de IRS é de 9{,}2\%.

a) Determina o salário líquido. b) Que percentagem do bruto é que o trabalhador recebe?

Exercício 54§R5 · comparar dois contratos

Duas propostas de emprego:

Empresa A: 1500 € por mês, 14 meses, 40 horas semanais. Empresa B: 1750 € por mês, 12 meses, 40 horas semanais.

Qual paga mais, ao ano? E por hora?

Exercício 55§R5 · o custo para a empresa

Um trabalhador ganha 1200 € brutos. Desconta 11\% para a Segurança Social; a entidade empregadora paga, por cima do salário, mais 23{,}75\%.

a) Quanto custa o trabalhador à empresa, por mês? b) Que percentagem desse custo é que chega ao trabalhador, antes de IRS?

Exercício 56§R5 · retenção a mais

Durante o ano, um trabalhador teve 1740 € retidos na fonte para IRS. Feita a declaração, apurou-se que o imposto devido era de 1455 €.

a) O que acontece à diferença? b) Comenta a afirmação: «este ano o IRS devolveu-me 285 euros».

Exercício 57§R5 · subir o salário

Um trabalhador ganha 1100 € brutos e a sua taxa de retenção de IRS é 4{,}5\%. Recebe um aumento para 1300 €, e a taxa de retenção passa a 7{,}1\%.

a) Quanto aumentou o líquido? b) Que percentagem do aumento bruto é que chegou ao bolso?

Exercício 58§R5 · resolver ao contrário

Um trabalhador recebe 1218 € líquidos. Sabe-se que desconta 11\% para a Segurança Social e que a sua taxa de retenção de IRS é 8\%.

Determina o salário bruto.

Exercício 59§R5 · a taxa que iguala

Duas propostas: a empresa A paga 1600 € por mês em 12 meses; a empresa B paga S € por mês em 14 meses.

a) Para que valor de S os rendimentos anuais brutos são iguais? b) Nesse caso, qual das duas paga mais por hora, com o mesmo horário semanal?

Exercício 60§R5 · a fração que sobra

Seja x o salário bruto mensal, s a taxa de Segurança Social e r a taxa de retenção de IRS, ambas em forma decimal.

a) Escreve o salário líquido L(x). b) Mostra que a fração do bruto que chega ao trabalhador não depende de x se r for fixa — e explica por que razão, na realidade, depende.

A taxa aplica-se ao salário bruto.

  1. a) 0{,}11 \times 1250 = 137{,}50 €.
  2. b) 1250 - 137{,}50 = 1112{,}50 €.
  3. Falta ainda a retenção de IRS, se a houver.A entidade patronal paga mais 23{,}75\% por cima do salário, que não aparece no recibo. O custo total do trabalhador para a empresa é 1250 \times 1{,}2375 = 1546{,}88 €.
Respostaa) 137{,}50 € · b) 1112{,}50

Uma subtração só.

  1. 0{,}11 \times 920 = 101{,}20 €.
  2. 920 - 101{,}20 = 818{,}80 €.
  3. É exatamente o valor anunciado pelo Governo.Não há retenção de IRS porque 14 \times 920 = 12\,880 € é o mínimo de existência para 2026 — o rendimento anual abaixo do qual não se paga IRS. Os dois números foram fixados um em função do outro.
Resposta818{,}80

Doze meses mais dois subsídios.

  1. São 14 pagamentos de 1400 €.
  2. 14 \times 1400 = 19\,600 €.
Resposta(C)

Substitui e faz a conta. Arredonda aos cêntimos.

  1. \dfrac{12 \times 1300}{52 \times 40} = \dfrac{15\,600}{2080} = 7{,}50 €.
  2. São 7{,}50 € por hora.Repare-se em que a fórmula usa 12 meses e não 14: os subsídios não entram no cálculo do valor/hora, porque não são pagamento de horas trabalhadas.
Resposta7{,}50 €/hora

As duas taxas aplicam-se ambas ao salário bruto, não uma ao resultado da outra.

  1. a) Segurança Social: 0{,}11 \times 1600 = 176 €.
  2. Retenção de IRS: 0{,}092 \times 1600 = 147{,}20 €.
  3. Líquido: 1600 - 176 - 147{,}20 = 1276{,}80 €.
  4. b) \dfrac{1276{,}80}{1600} = 0{,}798: recebe 79{,}8\%.
  5. Ou, diretamente: 100\% - 11\% - 9{,}2\% = 79{,}8\%.As duas taxas somam-se porque incidem sobre a mesma base. É um erro comum aplicar a segunda ao valor já descontado — daria 1424 \times 0{,}908 = 1293 €, dezasseis euros a mais.
Respostaa) 1276{,}80 € · b) 79{,}8\%

Ao ano compara o total; por hora usa a fórmula do artigo 271.º, que só conta 12 meses.

  1. Ao ano. A: 14 \times 1500 = 21\,000 €. B: 12 \times 1750 = 21\,000 €. Igual.
  2. Por hora. A: \dfrac{12 \times 1500}{2080} = 8{,}65 €. B: \dfrac{12 \times 1750}{2080} = 10{,}10 €.
  3. Ao ano são iguais; por hora, B paga mais.
  4. Não é contradição: B paga o mesmo total por menos pagamentos, logo cada um vale mais.Na prática há diferenças reais: os subsídios de A podem ser pagos em duodécimos ou de uma vez, e isso muda o dinheiro disponível em cada mês — e a retenção de IRS em cada mês também.
Respostaao ano são iguais (21\,000 €); por hora, B paga 10{,}10 € contra 8{,}65

A taxa da empresa é sobre o bruto, e é além dele.

  1. a) 1200 + 0{,}2375 \times 1200 = 1200 \times 1{,}2375 = 1485 €.
  2. b) O trabalhador recebe 1200 - 132 = 1068 €.
  3. \dfrac{1068}{1485} \approx 0{,}719: cerca de 71{,}9\%.
  4. Quase 28\% do custo do trabalho vai para a Segurança Social, somando as duas parcelas.É esse dinheiro que paga as pensões, o subsídio de desemprego e a baixa médica. A conta não é um desconto perdido: é um seguro coletivo — mas convém saber quanto custa.
Respostaa) 1485 € · b) \approx 71{,}9\%

A retenção é um adiantamento por conta do imposto. Não é o imposto.

  1. a) 1740 - 1455 = 285 €, que são reembolsados ao contribuinte.
  2. b) A afirmação está errada no verbo. O Estado não «devolveu» nada que fosse dele: o trabalhador adiantou dinheiro a mais e recebeu de volta o que não devia.
  3. Um reembolso grande não é um ganho — é sinal de que se emprestou dinheiro ao Estado, sem juros, durante um ano.É por isso que a taxa de retenção pode ser ajustada: quem tem reembolsos sistemáticos pode pedir uma taxa mais baixa e ficar com o dinheiro ao longo do ano, em vez de o receber todo em julho.
Respostaa) são reembolsados 285 € · b) não foi devolução: foi adiantamento a mais

Calcula o líquido antes e depois. Cuidado: as duas taxas mudam a base e a percentagem.

  1. Antes. 1100 \times (1 - 0{,}11 - 0{,}045) = 1100 \times 0{,}845 = 929{,}50 €.
  2. Depois. 1300 \times (1 - 0{,}11 - 0{,}071) = 1300 \times 0{,}819 = 1064{,}70 €.
  3. a) 1064{,}70 - 929{,}50 = 135{,}20 €.
  4. b) O aumento bruto foi de 200 €, logo \dfrac{135{,}20}{200} = 0{,}676: 67{,}6\%.
  5. Um terço do aumento ficou pelo caminho.É o efeito conjunto da Segurança Social e da progressividade do IRS: não só se desconta sobre mais, como se desconta a uma taxa maior. A secção seguinte trata disto a sério.
Respostaa) 135{,}20 € · b) 67{,}6\%

Chama x ao bruto e escreve a equação do líquido.

  1. O líquido é x(1 - 0{,}11 - 0{,}08) = 0{,}81x.
  2. 0{,}81x = 1218 \iff x = \dfrac{1218}{0{,}81} \approx 1503{,}70.
  3. O salário bruto é aproximadamente 1503{,}70 €.
  4. Verificação: 1503{,}70 \times 0{,}81 = 1218{,}00. ✓O erro clássico é somar 19\% ao líquido: 1218 \times 1{,}19 = 1449{,}42 €, quase cinquenta euros abaixo. Aumentar em 19\% não desfaz uma redução de 19\%.
Resposta\approx 1503{,}70

Na b), lembra-te de que a fórmula do valor/hora usa sempre 12 meses, independentemente do número de pagamentos.

  1. a) 14S = 12 \times 1600 = 19\,200 \iff S = \dfrac{19\,200}{14} \approx 1371{,}43 €.
  2. b) Valor/hora de A: \dfrac{12 \times 1600}{52n}. De B: \dfrac{12 \times 1371{,}43}{52n}.
  3. Como 1600 > 1371{,}43, a empresa A paga mais por hora.
  4. Com o mesmo rendimento anual, quem paga em 12 prestações paga mais por hora do que quem paga em 14.Parece um paradoxo e não é: os subsídios não são pagamento de horas. Duas pessoas com o mesmo rendimento anual podem ter retribuições horárias diferentes, e isso importa quando há horas extraordinárias — que se pagam a partir do valor/hora.
Respostaa) \approx 1371{,}43 € · b) a empresa A

Na alínea b), o essencial é o que acontece a r quando x sobe.

  1. a) L(x) = x(1 - s - r).
  2. b) A fração é \dfrac{L(x)}{x} = 1 - s - r, que não tem x: com s e r fixas, é constante.
  3. Mas r não é fixa: a taxa de retenção sobe com o salário, porque o IRS é progressivo. Logo r = r(x) e a fração é 1 - s - r(x), que desce quando x sobe.
  4. É por isso que quem ganha mais recebe uma fatia menor do seu bruto — e é isso que a secção seguinte mede.O modelo mais simples, com r constante, é uma boa primeira aproximação e serve para um mês. Para um ano inteiro, ou para comparar dois salários diferentes, deixa de servir.
Respostaa) L(x) = x(1-s-r) · b) a fração é 1-s-r, constante só enquanto r o for — e r cresce com x
R6

O IRS e a progressividade

«Não aceites o aumento, que subes de escalão e ficas a perder.» É a frase mais repetida e mais falsa que há sobre impostos — e o que a desmente é um número por linha da tabela: a parcela a abater.

Aprendizagens Essenciais · 10.º ano
  • Calcular o IRS anual em casos simples em função do rendimento coletável.
  • Identificar a progressividade do IRS e a relevância dos escalões.
  • Compreender o caráter provisório da taxa mensal de retenção na fonte.

1 · A fórmula, e os nove escalões

Cálculo do IRS

Sendo R o rendimento coletável, t a taxa do escalão em que R cai e a a respetiva parcela a abater,

\text{IRS} = R \times t - a.
escalãorendimento coletáveltaxaparcela a abater
1.ºaté 8 342 €12,5%
2.ºde 8 342 € a 12 587 €15,7%266,94
3.ºde 12 587 € a 17 838 €21,2%959,23
4.ºde 17 838 € a 23 089 €24,1%1476,53
5.ºde 23 089 € a 29 397 €31,1%3092,76
6.ºde 29 397 € a 43 090 €34,9%4209,85
7.ºde 43 090 € a 46 566 €43,1%7743,23
8.ºde 46 566 € a 86 634 €44,6%8441,72
9.ºsuperior a 86 634 €48,0%11387,27

Fonte: Código do IRS, artigo 68.º · versão consolidada no Diário da República (redação da Lei n.º 73-A/2025, de 30 de dezembro — Orçamento do Estado para 2026). As parcelas a abater aqui apresentadas são calculadas a partir dos limites e das taxas, pela regra da continuidade que a secção deduz — e não copiadas de uma tabela.

Coletável não é o mesmo que bruto

O rendimento coletável é o que sobra depois das deduções específicas e do englobamento — não é o salário anual. Quem ganha 20\,300 € brutos por ano tem um coletável bastante menor. Os exercícios desta secção dão sempre o coletável, como fazem os exames.

2 · Para que serve a parcela a abater

Sem ela, passar de 17\,838 € para 17\,839 € faria o imposto saltar de 3781 € para 4299 € — mais de quinhentos euros por causa de um euro. Seria absurdo, e não é o que acontece.

De onde vem a parcela

Exige-se que o imposto seja o mesmo, calculado pelas duas fórmulas, exatamente na fronteira L entre dois escalões:

L\,t_1 - a_1 = L\,t_2 - a_2 \quad \Longleftrightarrow \quad a_2 = a_1 + L\,(t_2 - t_1).

Começando em a_1 = 0, esta relação constrói a coluna inteira. A parcela não é um número arbitrário: é a única que impede o imposto de dar um salto.

Na primeira fronteira, L = 8342 €, com taxas 12{,}5\% e 15{,}7\%:

a_2 = 0 + 8342 \times (0{,}157 - 0{,}125) = 8342 \times 0{,}032 = 266{,}94,

que é o valor da tabela. E o mesmo se repete nas oito fronteiras.

O que acontece de facto quando se sobe de escalão

Com 17\,838 € paga-se 2822{,}43 €; com 17\,839 € paga-se 2822{,}67 €. A diferença é de vinte e quatro cêntimos — e o rendimento subiu um euro. Subir de escalão nunca faz perder dinheiro: só faz com que os euros seguintes sejam tributados a uma taxa mais alta.

3 · Taxa do escalão e taxa efetiva

Duas taxas que não se confundem

A taxa do escalão (ou marginal) é a que se aplica ao euro seguinte. A taxa efetiva é a que se paga de facto: e(R) = \dfrac{\text{IRS}}{R} = t - \dfrac{a}{R}.

Como a \geq 0, a taxa efetiva é sempre menor ou igual à do escalão — e só são iguais no primeiro, onde a = 0.

rendimento coletável (€) % 20000 40000 60000 80000 10 20 30 40 50 taxa do escalão taxa efetiva
A taxa do escalão sobe aos saltos; a taxa que se paga de facto sobe sem saltos — e fica sempre por baixo. É esse o significado da parcela a abater: o escalão de cima não se aplica ao rendimento todo, só à parte que lá chega.

Laboratório · A escada e a taxa que se paga

interativo

A linha aos saltos é a taxa do escalão; a linha suave é a que se paga de facto. Arrasta o cursor e repara em duas coisas: a segunda está sempre por baixo da primeira, e nunca chega aos 48\% por mais que o rendimento suba.

rendimento coletávelescalãoIRS devidotaxa efetiva
12\,8803.º · 21{,}2\%1771{,}3313{,}8\%
20\,0004.º · 24{,}1\%3343{,}4716{,}7\%
30\,0006.º · 34{,}9\%6260{,}1520{,}9\%
60\,0008.º · 44{,}6\%18\,318{,}2830{,}5\%
100\,0009.º · 48\%36\,612{,}7336{,}6\%

Repare-se na última linha: quem tem o rendimento mais alto da tabela e está no escalão dos 48\% paga, de facto, 36{,}6\%. E por muito que o rendimento suba, a taxa efetiva aproxima-se de 48\% sem nunca lá chegar.

Exemplo 6 O aumento que atravessa uma fronteira

Um contribuinte tem rendimento coletável de 22\,000 € e recebe um aumento anual de 4000 €. Determina quanto aumenta o IRS e que fração do aumento lhe fica.

  1. Antes. 22\,000 € cai no 4.º escalão (17\,838 a 23\,089): 22\,000 \times 0{,}241 - 1476{,}53 = 5302 - 1476{,}53 = 3825{,}47
  2. Depois. 26\,000 € cai no 5.º (23\,089 a 29\,397): 26\,000 \times 0{,}311 - 3092{,}76 = 8086 - 3092{,}76 = 4993{,}24
  3. Aumento do imposto. 4993{,}24 - 3825{,}47 = 1167{,}77 €.
  4. Fica com. 4000 - 1167{,}77 = 2832{,}23 €, ou seja 70{,}8\% do aumento.
  5. O imposto subiu, mas o rendimento disponível subiu quase dois mil e oitocentos euros.A taxa marginal do 5.º escalão é 31{,}1\%, e o aumento foi tributado a \dfrac{1167{,}77}{4000} = 29{,}2\% — um pouco menos, porque os primeiros 1089 € do aumento ainda foram tributados a 24{,}1\%.
Respostao IRS aumenta 1167{,}77 €; fica com 70{,}8\% do aumento

A verificação de bom senso: se a resposta a «que fração do aumento fica» der acima de 100\% ou negativa, há um erro. Um sistema progressivo bem construído devolve sempre um valor entre 0 e 1.

Python O IRS, e a tabela construída de raiz

O programa não copia as parcelas a abater: calcula-as, pela regra da continuidade. Depois calcula o imposto de qualquer rendimento.

limites = [8342, 12587, 17838, 23089, 29397, 43090, 46566, 86634]
taxas = [12.5, 15.7, 21.2, 24.1, 31.1, 34.9, 43.1, 44.6, 48.0]

parcelas = [0.0]
for i in range(len(limites)):
    nova = parcelas[i] + limites[i] * (taxas[i+1] - taxas[i]) / 100
    parcelas.append(nova)

def irs(R):
    for i in range(len(limites)):
        if R <= limites[i]:
            return R * taxas[i] / 100 - parcelas[i]
    return R * taxas[-1] / 100 - parcelas[-1]

for i in range(len(parcelas)):
    print("escalao", i + 1, "-> parcela", round(parcelas[i], 2), "EUR")

print()
for R in [12880, 20000, 30000, 60000, 100000]:
    imposto = irs(R)
    print(R, "EUR ->", round(imposto, 2), "EUR de IRS,",
          "taxa efetiva", round(100 * imposto / R, 1), "%")

Corre-o e compara as parcelas com as da tabela desta página: têm de bater certo ao cêntimo. Depois acrescenta print(irs(17838), irs(17839)) e confirma os vinte e quatro cêntimos de diferença. Por fim, põe todas as parcelas a zero e corre outra vez: vais ver os saltos que a parcela existe para evitar.

Exercícios propostos

Doze exercícios sobre o IRS: aplicar a fórmula, distinguir a taxa do escalão da taxa efetiva, deduzir a parcela a abater pela continuidade, e resolver ao contrário a partir do imposto pago. Os últimos estudam a taxa efetiva como função e provam a progressividade.

Exercício 61§R6 · a conta base

Um contribuinte tem um rendimento coletável de 15\,000 €. O escalão aplicável tem taxa 21{,}2\% e parcela a abater 959{,}23 €.

Determina o IRS devido.

Exercício 62§R6 · taxa efetiva

Com um rendimento coletável de 20\,000 €, o IRS devido é 3343{,}47 €.

a) Qual é a taxa efetiva de imposto? b) Compara-a com a taxa do escalão, que é 24{,}1\%.

Exercício 63§R6 · subir de escalão

Um contribuinte com rendimento coletável de 17\,838 € recebe um aumento de 1 €, passando ao escalão seguinte.

O IRS devido:

  • (A)aumenta cerca de 0{,}24 €.
  • (B)aumenta cerca de 500 €, porque muda de escalão.
  • (C)diminui.
  • (D)não se altera.
Exercício 64§R6 · ler a tabela

Indica o escalão, a taxa e a parcela a abater para um rendimento coletável de 35\,000 €, e calcula o imposto.

Exercício 65§R6 · de onde vem a parcela

O primeiro escalão tem taxa 12{,}5\% e parcela nula; o segundo tem taxa 15{,}7\%, e a fronteira entre eles é 8342 €.

Mostra que a parcela a abater do segundo escalão tem de ser 266{,}94 €.

Exercício 66§R6 · a parcela seguinte

Sabendo que a parcela do 2.º escalão é 266{,}94 €, que a fronteira com o 3.º é 12\,587 € e que as taxas são 15{,}7\% e 21{,}2\%, determina a parcela do 3.º escalão.

Exercício 67§R6 · o aumento que rende menos

Um contribuinte com rendimento coletável de 28\,000 € recebe um aumento anual de 3000 €.

a) Quanto aumenta o IRS? b) Que percentagem do aumento fica para o contribuinte?

Exercício 68§R6 · marginal e efetiva

Para qualquer rendimento coletável positivo, a taxa efetiva de IRS é:

  • (A)sempre igual à taxa do escalão.
  • (B)sempre menor do que a taxa do escalão.
  • (C)sempre maior do que a taxa do escalão.
  • (D)menor no primeiro escalão e maior nos outros.
Exercício 69§R6 · resolver ao contrário

Um contribuinte pagou 4682{,}24 € de IRS, e sabe-se que o seu rendimento coletável caiu no 5.º escalão (taxa 31{,}1\%, parcela 3092{,}76 €).

Determina o rendimento coletável e confirma que pertence mesmo a esse escalão.

Exercício 70§R6 · a taxa efetiva tem limite

Seja R o rendimento coletável de um contribuinte do último escalão, com taxa 48\% e parcela 11\,387{,}27 €.

a) Escreve a taxa efetiva e(R). b) Mostra que e(R) < 48\% para todo o R, e calcula \lim\limits_{R \to +\infty} e(R).

Exercício 71§R6 · a continuidade, em geral

Considera dois escalões consecutivos, com taxas t_1 < t_2, parcelas a_1 e a_2, e fronteira em L.

a) Escreve a condição de o imposto não dar um salto em L. b) Deduz a_2 e mostra que a_2 > a_1.

Exercício 72§R6 · progressivo, e o que isso quer dizer

Um imposto diz-se progressivo quando a taxa efetiva cresce com o rendimento.

Mostra que o IRS é progressivo dentro de cada escalão, e explica o que acontece na passagem de um escalão para o seguinte.

É sempre a mesma fórmula: coletável vezes taxa, menos a parcela.

  1. 15\,000 \times 0{,}212 = 3180 €.
  2. 3180 - 959{,}23 = 2220{,}77 €.
Resposta2220{,}77

A taxa efetiva é o imposto a dividir pelo rendimento.

  1. a) \dfrac{3343{,}47}{20\,000} = 0{,}1672: 16{,}7\%.
  2. b) É bastante menor do que os 24{,}1\% do escalão.
  3. A taxa do escalão só se aplica à parte do rendimento que lá chega — e é isso que a parcela a abater representa.Confundir as duas é o erro mais comum do tema. Ninguém paga a taxa do seu escalão sobre o rendimento todo.
Respostaa) 16{,}7\% · b) muito abaixo da taxa do escalão

Calcula os dois valores. A resposta deve tranquilizar-te.

  1. Com 17\,838 €: 17\,838 \times 0{,}212 - 959{,}23 = 2822{,}43 €.
  2. Com 17\,839 €: 17\,839 \times 0{,}241 - 1476{,}53 = 2822{,}67 €.
  3. A diferença é de 0{,}24 € — vinte e quatro cêntimos.
  4. Subir de escalão nunca faz perder dinheiro.É exatamente para isto que a parcela a abater existe: para colar os degraus uns aos outros e não deixar buracos.
Resposta(A)

Procura a linha em que 35\,000 cai: entre 29\,397 e 43\,090.

  1. É o 6.º escalão: taxa 34{,}9\%, parcela 4209{,}85 €.
  2. 35\,000 \times 0{,}349 = 12\,215 €.
  3. 12\,215 - 4209{,}85 = 8005{,}15 €.
  4. Taxa efetiva: \dfrac{8005{,}15}{35\,000} \approx 22{,}9\%.
Resposta6.º escalão · 8005{,}15 € · efetiva \approx 22{,}9\%

Exige que o imposto seja o mesmo, calculado pelas duas fórmulas, exatamente na fronteira.

  1. Pela fórmula do 1.º escalão, em 8342 €: 8342 \times 0{,}125 - 0 = 1042{,}75 €.
  2. Pela do 2.º, o imposto seria 8342 \times 0{,}157 - a_2.
  3. Para não haver salto: 8342 \times 0{,}157 - a_2 = 1042{,}75.
  4. 1309{,}69 - a_2 = 1042{,}75 \iff a_2 = 266{,}94 €.
  5. É exatamente o valor da tabela.A regra geral sai da mesma conta: a_{i+1} = a_i + L\,(t_{i+1} - t_i), com L a fronteira. Aqui, 0 + 8342 \times 0{,}032 = 266{,}94.
Respostaa_2 = 8342 \times (0{,}157 - 0{,}125) = 266{,}94

Usa a regra a_{i+1} = a_i + L(t_{i+1} - t_i).

  1. a_3 = 266{,}94 + 12\,587 \times (0{,}212 - 0{,}157).
  2. = 266{,}94 + 12\,587 \times 0{,}055 = 266{,}94 + 692{,}285.
  3. a_3 = 959{,}23 € (arredondado aos cêntimos).
  4. Confere com a tabela. ✓Toda a coluna das parcelas se constrói assim, de cima para baixo, a partir de zero. Não é uma lista de números soltos: é uma sucessão definida por recorrência.
Resposta959{,}23

Cuidado: os 3000 € atravessam uma fronteira de escalão.

  1. Antes. 28\,000 € está no 5.º escalão: 28\,000 \times 0{,}311 - 3092{,}76 = 5615{,}24 €.
  2. Depois. 31\,000 € está no 6.º: 31\,000 \times 0{,}349 - 4209{,}85 = 6609{,}15 €.
  3. a) 6609{,}15 - 5615{,}24 = 993{,}91 €.
  4. b) 3000 - 993{,}91 = 2006{,}09 €, ou seja \dfrac{2006{,}09}{3000} \approx 66{,}9\%.
  5. Um terço do aumento foi para imposto — mas o contribuinte ficou com mais dois mil euros do que tinha.A taxa marginal do 6.º escalão é 34{,}9\%, e 993{,}91 : 3000 = 33{,}1\%. Fica um pouco abaixo porque parte do aumento ainda foi tributada a 31{,}1\%.
Respostaa) 993{,}91 € · b) \approx 66{,}9\%

Repara no que a parcela a abater faz à conta. E no primeiro escalão, quanto vale ela?

  1. O imposto é R \times t - a, logo a taxa efetiva é t - \dfrac{a}{R}.
  2. Como a \geq 0, a taxa efetiva é sempre \leq t.
  3. No primeiro escalão a = 0 e as duas coincidem; em todos os outros a > 0 e a efetiva é estritamente menor.
  4. A opção (B) é a melhor, com a ressalva do primeiro escalão, onde há igualdade.A expressão t - \dfrac{a}{R} também mostra que a taxa efetiva cresce com R dentro de cada escalão: à medida que R sobe, \frac{a}{R} desce.
Resposta(B)

Resolve R \times 0{,}311 - 3092{,}76 = 4682{,}24 e depois verifica os limites do escalão.

  1. 0{,}311R = 4682{,}24 + 3092{,}76 = 7775.
  2. R = \dfrac{7775}{0{,}311} = 25\,000 €.
  3. Verificação: o 5.º escalão vai de 23\,089 € a 29\,397 €, e 25\,000 está lá dentro. ✓
  4. A verificação não é opcional: se o resultado caísse fora, a hipótese de escalão estaria errada e seria preciso repetir com outro.Nos itens de exame que dão o imposto e pedem o rendimento, esta verificação vale metade da cotação.
Resposta25\,000

É a função e(R) = 0{,}48 - \dfrac{11\,387{,}27}{R}. O limite lê-se dela.

  1. a) e(R) = \dfrac{0{,}48R - 11\,387{,}27}{R} = 0{,}48 - \dfrac{11\,387{,}27}{R}.
  2. b) Como \dfrac{11\,387{,}27}{R} > 0 para R > 0, tem-se e(R) < 0{,}48.
  3. \lim\limits_{R \to +\infty} e(R) = 0{,}48 - 0 = 0{,}48.
  4. A taxa efetiva aproxima-se de 48\% mas nunca lá chega.
  5. Com R = 100\,000 € a efetiva é 36{,}6\%; com R = 1\,000\,000 € é 46{,}9\%.A reta y = 0{,}48 é uma assíntota horizontal da taxa efetiva — e é a mesma ideia que o capítulo dos Limites trata com todas as letras.
Respostaa) e(R) = 0{,}48 - \frac{11\,387{,}27}{R} · b) limite 0{,}48, nunca atingido

Iguala as duas expressões do imposto no ponto L.

  1. a) L t_1 - a_1 = L t_2 - a_2.
  2. b) a_2 = a_1 + L(t_2 - t_1).
  3. Como L > 0 e t_2 > t_1, o termo L(t_2-t_1) é positivo, logo a_2 > a_1.
  4. É por isso que a coluna das parcelas é estritamente crescente — e é uma verificação rápida de que uma tabela publicada não tem gralhas.Foi assim que se apanhou um erro ao escrever este capítulo: uma tabela copiada de um sítio tinha 1474{,}53 onde devia ter 1476{,}53, e a fórmula denunciou-o.
Respostaa) Lt_1 - a_1 = Lt_2 - a_2 · b) a_2 = a_1 + L(t_2-t_1) > a_1

Dentro de um escalão, e(R) = t - \dfrac{a}{R}. Estuda a monotonia.

  1. Dentro de um escalão, e(R) = t - \dfrac{a}{R} com t e a fixos e a \geq 0.
  2. Quando R cresce, \dfrac{a}{R} decresce, logo e(R) cresce.
  3. Na passagem para o escalão seguinte, o imposto é contínuo (é o que a parcela garante), logo a taxa efetiva também é contínua.
  4. E cresce ainda: a taxa marginal aumenta, e cada euro novo é tributado a mais do que a média anterior, o que puxa a média para cima.
  5. Conclusão: a taxa efetiva é contínua e crescente em todo o domínio — o imposto é progressivo em sentido pleno.A figura da secção mostra as duas curvas: a taxa do escalão aos saltos, a efetiva sem saltos e sempre por baixo. A segunda é a que se paga.
Respostadentro do escalão e(R)=t-\frac{a}{R} cresce; na fronteira é contínua e continua a crescer
R7

Juro simples e juro composto

Duas maneiras de fazer render dinheiro. No primeiro ano dão exatamente o mesmo — e é isso que engana. Ao fim de quarenta anos, a diferença é maior do que o capital que se depositou.

Aprendizagens Essenciais · 10.º ano
  • Calcular o juro simples e o juro composto, com diferentes períodos de capitalização dos juros.
  • Calcular, em casos simples, o capital inicial a depositar para obter um dado capital final, e o tempo mínimo de capitalização.

1 · As duas regras

Juro simples

O juro é calculado sempre sobre o capital inicial. Sendo C_i o capital inicial, r a taxa de juro anual em forma decimal e n o número de anos,

j = C_i \times r \times n, \qquad C_f = C_i(1 + r\,n).
Juro composto

No fim de cada período, o juro junta-se ao capital e passa também a render. Com capitalização anual,

C_f = C_i\,(1 + r)^{n}.

Com capitalização mensal, e sendo n o número de meses,

C_f = C_i\left(1 + \dfrac{r}{12}\right)^{n}.
A regra que evita metade dos erros

A taxa e o expoente têm de estar na mesma unidade de tempo. Se a capitalização é mensal, divide-se a taxa anual por 12 e conta-se o expoente em meses. Usar a taxa anual com um expoente em meses é o erro mais frequente do tema — e dá resultados absurdos: 300 \times 1{,}03^{10} = 403 € em vez de 307{,}58 €.

2 · Porque é que a diferença engana

Ao fim de um ano, as duas fórmulas dão o mesmo: C_i(1+r). Ao fim de dois, o composto ganha C_i r^2 — com 1000 € a 3\%, são noventa cêntimos. Quem julgar a diferença por aí, conclui que não vale a pena pensar no assunto.

anos 10 20 30 40 1500 2000 2500 3000 juro composto juro simples
Mesmo capital, mesma taxa. A reta é o juro simples; a curva é o juro composto. Nos primeiros anos quase não se distinguem — e é por isso que a diferença apanha toda a gente desprevenida.

Laboratório · O que faz a diferença é o tempo

interativo

Põe os anos em 1: as duas curvas dão o mesmo. Sobe até 50 e vê a barra da diferença crescer. Depois experimenta: dobrar o capital dobra a diferença, mas não muda o tempo de duplicação — esse só depende da taxa.

anosjuro simplesjuro compostodiferença
11030{,}001030{,}000{,}00
101300{,}001343{,}9243{,}92
201600{,}001806{,}11206{,}11
301900{,}002427{,}26527{,}26
402200{,}003262{,}041062{,}04

Mil euros a 3\%. De dez em dez anos a diferença mais do que duplica, e ao fim de quarenta é maior do que o capital depositado. Não foi a taxa que fez isto — foi o tempo.

Sobre a taxa de 3\% destes exemplos

É próxima da Euribor a 12 meses, que em setembro de 2026 estava em 3{,}029\%. Mas atenção ao que a Euribor é: a taxa a que os bancos se emprestam dinheiro entre si. Não é a taxa de um depósito — essa é mais baixa — nem a de um crédito — essa é mais alta. Confundi-las é o género de engano que este capítulo existe para evitar.

Fonte: Taxas Euribor por prazo · BPstat, Banco de Portugal.

3 · As duas contas ao contrário

Quanto depositar, e durante quanto tempo

Da fórmula C_f = C_i(1+r)^n tiram-se as outras duas incógnitas:

C_i = \dfrac{C_f}{(1+r)^{n}}, \qquad n = \dfrac{\ln\!\left(\dfrac{C_f}{C_i}\right)}{\ln(1+r)}.

A primeira chama-se valor atual: quanto vale hoje uma quantia futura. A segunda dá o tempo mínimo — e como o tempo se conta em períodos inteiros, arredonda-se sempre para cima.

Exemplo 7 Chegar aos 5000 €

Um jovem quer ter 5000 € para a universidade. Tem hoje 4000 € e um depósito com taxa anual de 3\%, capitalização anual.

a) Chega lá em 7 anos? b) Ao fim de quantos anos completos ultrapassa os 5000 €? c) Se só tivesse 6 anos, que capital teria de depositar hoje?

  1. a) 4000 \times 1{,}03^{7} \approx 4919{,}66 € — não chega, faltam cerca de 80 €.
  2. b) Resolve-se 1{,}03^n > 1{,}25: n > \dfrac{\ln 1{,}25}{\ln 1{,}03} \approx \dfrac{0{,}22314}{0{,}029559} \approx 7{,}55. O primeiro inteiro acima é n = 8. Confirmando: 4000 \times 1{,}03^8 \approx 5067{,}25 €. ✓
  3. c) C_i = \dfrac{5000}{1{,}03^{6}} \approx \dfrac{5000}{1{,}194052} \approx 4187{,}59 €.
  4. Ou seja: com dois anos a menos, precisaria de depositar quase 190 € a mais.Repare-se na alínea b): o resultado 7{,}55 arredonda-se para cima, não para o inteiro mais próximo. Ao fim de sete anos ainda não chegou lá, e o depósito só capitaliza no fim de cada ano completo.
Respostaa) não · b) 8 anos · c) \approx 4187{,}59

Sem logaritmos — que no 10.º ano ainda não se deram — a alínea b) resolve-se por tentativas: 1{,}03^7 = 1{,}2299 e 1{,}03^8 = 1{,}2668. Basta ver entre quais deles cai 1{,}25.

Python As duas curvas, e o ano em que se separam

O programa põe as duas fórmulas lado a lado e mostra a diferença a crescer.

Ci = 1000
r = 0.03

print("ano   simples   composto   diferenca")
for n in [1, 5, 10, 20, 30, 40]:
    simples = Ci * (1 + r * n)
    composto = Ci * (1 + r) ** n
    print(n, round(simples, 2), round(composto, 2), round(composto - simples, 2))

print()
alvo = 2 * Ci
n = 0
capital = Ci
while capital < alvo:
    n = n + 1
    capital = Ci * (1 + r) ** n
print("O capital duplica ao fim de", n, "anos:", round(capital, 2), "EUR")

Muda o Ci para 500 ou para 50\,000 e corre outra vez: o número de anos até duplicar não muda. Depois muda a taxa para 0{,}06 e vê-o passar para metade. O tempo de duplicação só depende da taxa — é o exercício c7j, e o programa prova-o em três segundos.

Exercícios propostos

Doze exercícios sobre juros: as duas fórmulas e a armadilha das unidades de tempo, as contas ao contrário — capital inicial e tempo mínimo —, e a comparação de ofertas com capitalizações diferentes. Os últimos deduzem o tempo de duplicação e a desigualdade entre os dois regimes.

Exercício 73§R7 · juro simples

Depositam-se 2500 € a juro simples, com taxa anual de 2\%, durante 4 anos.

a) Qual é o juro produzido? b) E o capital acumulado?

Exercício 74§R7 · juro composto

Depositam-se 2500 € a juro composto, com taxa anual de 2\%, durante 4 anos.

a) Qual é o capital final? b) Quanto rendeu a mais do que a juro simples?

Exercício 75§R7 · o primeiro ano

Um capital é aplicado durante um ano, à mesma taxa anual.

Comparando o juro simples com o juro composto de capitalização anual:

  • (A)o composto rende mais.
  • (B)o simples rende mais.
  • (C)rendem o mesmo.
  • (D)depende do capital.
Exercício 76§R7 · capitalização mensal

Depositam-se 300 € com taxa anual de 3\% e capitalização mensal, durante 10 meses.

Determina o capital final.

Exercício 77§R7 · o capital inicial preciso

Quer-se ter 5000 € daqui a 8 anos, num depósito a juro composto com taxa anual de 2{,}5\%.

Que capital é preciso depositar hoje?

Exercício 78§R7 · o tempo mínimo

Depositam-se 4000 € a juro composto com taxa anual de 3\%.

Ao fim de quantos anos completos o capital ultrapassa 5000 €?

Exercício 79§R7 · comparar duas ofertas

Dois depósitos, ambos por 3 anos, com 10\,000 €:

Banco A: taxa anual de 2{,}4\%, capitalização anual. Banco B: taxa anual de 2{,}3\%, capitalização mensal.

Qual rende mais?

Exercício 80§R7 · quando é que a diferença aparece

Com o mesmo capital e a mesma taxa anual, o juro composto rende mais do que o simples:

  • (A)já a partir do primeiro ano.
  • (B)a partir do segundo ano, e a diferença cresce.
  • (C)apenas para taxas superiores a 5\%.
  • (D)apenas quando o capital é elevado.
Exercício 81§R7 · a taxa que falta

Um capital de 6000 € transformou-se em 6742{,}50 € ao fim de 4 anos, a juro composto com capitalização anual.

Determina a taxa anual, em percentagem, arredondada às décimas.

Exercício 82§R7 · o tempo de duplicação

Um capital é aplicado a juro composto com taxa anual r.

a) Mostra que o tempo T que o capital demora a duplicar não depende do capital inicial. b) Calcula T para r = 3\% e compara com a estimativa dada pela «regra dos 72»: T \approx \dfrac{72}{100r}.

Exercício 83§R7 · quantas capitalizações

Um capital C é aplicado durante um ano à taxa anual nominal r, com k capitalizações por ano.

a) Escreve o capital final C_f(k). b) Compara C_f(1), C_f(12) e C_f(365) para C = 1000 € e r = 3\%, e comenta.

Exercício 84§R7 · a diferença cresce como

Sejam S(n) = C(1+rn) o capital a juro simples e P(n) = C(1+r)^n o capital a juro composto.

a) Mostra que P(n) \geq S(n) para todo o n \geq 0 inteiro. b) Com C = 1000 € e r = 3\%, calcula P(n) - S(n) para n = 10, 20, 30, 40 e descreve o crescimento.

j = C_i \times r \times n, com r em forma decimal.

  1. a) j = 2500 \times 0{,}02 \times 4 = 200 €.
  2. b) 2500 + 200 = 2700 €.
  3. No juro simples, cada ano rende sempre os mesmos 50 €.É por isso que o capital acumulado é uma função afim do tempo: C(n) = 2500 + 50n, uma reta.
Respostaa) 200 € · b) 2700

C_f = C_i(1+r)^n. Compara com os 2700 € do exercício anterior.

  1. a) C_f = 2500 \times 1{,}02^4 \approx 2706{,}08 €.
  2. b) 2706{,}08 - 2700 = 6{,}08 €.
  3. Em quatro anos, seis euros. É pouco — e é por isso que a diferença engana.Aos 40 anos, com 1000 € a 3\%, a diferença é de mil e sessenta euros: mais do que o capital inicial.
Respostaa) \approx 2706{,}08 € · b) 6{,}08

Escreve as duas fórmulas com n = 1.

  1. Simples: C_i(1 + r \times 1) = C_i(1+r).
  2. Composto: C_i(1+r)^1 = C_i(1+r).
  3. São iguais.O juro composto é «juro sobre juro»: no primeiro período ainda não há juro anterior sobre que render. As duas curvas partem juntas — e é isso que faz a diferença passar despercebida.
Resposta(C)

Com capitalização mensal usa-se C_f = C_i\left(1+\dfrac{r}{12}\right)^{n}, com n em meses.

  1. C_f = 300 \times \left(1 + \dfrac{0{,}03}{12}\right)^{10} = 300 \times 1{,}0025^{10}.
  2. \approx 300 \times 1{,}02528 \approx 307{,}58 €.
  3. O erro clássico é usar n = 10 com a taxa anual: daria 403 €.A regra é sempre a mesma: a taxa e o expoente têm de estar na mesma unidade de tempo. Taxa mensal com meses, taxa anual com anos.
Resposta\approx 307{,}58

Resolve C_i(1+r)^n = C_f em ordem a C_i.

  1. C_i \times 1{,}025^8 = 5000.
  2. C_i = \dfrac{5000}{1{,}025^8} \approx \dfrac{5000}{1{,}21840} \approx 4103{,}73 €.
  3. Verificação: 4103{,}73 \times 1{,}025^8 \approx 5000{,}00. ✓
  4. Chama-se a isto o valor atual de 5000 € daqui a oito anos.É a mesma conta que um banco faz para saber quanto vale hoje uma promessa de pagamento futuro — e a razão por que mil euros hoje valem mais do que mil euros daqui a um ano.
Resposta\approx 4103{,}73

Resolve 4000 \times 1{,}03^n > 5000. Vais precisar de logaritmos — ou de experimentar valores.

  1. 1{,}03^n > \dfrac{5000}{4000} = 1{,}25.
  2. Aplicando logaritmos: n > \dfrac{\ln 1{,}25}{\ln 1{,}03} \approx \dfrac{0{,}22314}{0{,}029559} \approx 7{,}55.
  3. O primeiro inteiro acima é n = 8.
  4. Verificação: 4000 \times 1{,}03^7 \approx 4919{,}66 € (ainda não chega) e 4000 \times 1{,}03^8 \approx 5067{,}25 €. ✓Sem logaritmos resolve-se por tentativas: é o que se espera no 10.º ano. Com logaritmos é imediato — e é a ponte para o capítulo das Funções deste livro.
Resposta8 anos

No B, o expoente conta meses: são 36.

  1. A: 10\,000 \times 1{,}024^3 \approx 10\,737{,}42 €.
  2. B: 10\,000 \times \left(1 + \dfrac{0{,}023}{12}\right)^{36} \approx 10\,000 \times 1{,}071395 \approx 10\,713{,}95 €.
  3. Rende mais o banco A, por cerca de 23 €.
  4. A capitalização mensal ajuda, mas não chega para compensar uma décima de ponto na taxa.É por isso que os bancos são obrigados a publicar a TANB — a taxa anual nominal bruta — e a taxa efetiva: só a segunda permite comparar ofertas com capitalizações diferentes.
Respostao banco A, com \approx 10\,737{,}42 € contra \approx 10\,713{,}95

No primeiro ano são iguais. E depois?

  1. Com n=1: C_i(1+r) nos dois casos. Iguais.
  2. Com n=2: simples dá C_i(1+2r), composto dá C_i(1+r)^2 = C_i(1+2r+r^2).
  3. A diferença é C_i r^2 > 0: o composto passa à frente e nunca mais é alcançado.
  4. A diferença não depende de a taxa ser grande nem de o capital ser grande — depende do tempo.
Resposta(B)

Resolve 6000(1+r)^4 = 6742{,}50 em ordem a r: vais precisar de uma raiz de índice 4.

  1. (1+r)^4 = \dfrac{6742{,}50}{6000} = 1{,}123750.
  2. 1+r = \sqrt[4]{1{,}12375} \approx 1{,}029600.
  3. r \approx 0{,}0296, ou seja \approx 3{,}0\%.
  4. Verificação: 6000 \times 1{,}03^4 \approx 6753{,}05 €... não bate certo ao cêntimo, porque a taxa exata é 2{,}96\%.Quando se arredonda a taxa, o capital final deixa de bater certo. É por isso que os contratos indicam a taxa com duas ou três casas decimais, e não arredondada às unidades.
Resposta\approx 3{,}0\% (mais precisamente, 2{,}96\%)

Escreve C_i(1+r)^T = 2C_i e simplifica.

  1. a) C_i(1+r)^T = 2C_i \iff (1+r)^T = 2 — o C_i sai da equação.
  2. Logo T = \dfrac{\ln 2}{\ln(1+r)}, que só depende de r.
  3. b) Com r = 0{,}03: T = \dfrac{0{,}693147}{0{,}029559} \approx 23{,}4 anos.
  4. A regra dos 72 dá \dfrac{72}{3} = 24 anos: erra por seis meses em vinte e três anos.
  5. É uma aproximação notavelmente boa para taxas pequenas, e faz-se de cabeça.A razão é que \ln(1+r) \approx r para r pequeno, e \dfrac{\ln 2}{r} = \dfrac{0{,}693}{r} = \dfrac{69{,}3}{100r}. Usa-se 72 em vez de 69{,}3 porque tem mais divisores — dá contas certas com 2, 3, 4, 6, 8, 9, 12.
Respostaa) T = \frac{\ln 2}{\ln(1+r)} · b) \approx 23{,}4 anos, contra 24 pela regra dos 72

Cada período rende \dfrac{r}{k}, e há k períodos.

  1. a) C_f(k) = C\left(1 + \dfrac{r}{k}\right)^{k}.
  2. b) C_f(1) = 1000 \times 1{,}03 = 1030{,}00 €.
  3. C_f(12) = 1000 \times \left(1+\dfrac{0{,}03}{12}\right)^{12} \approx 1030{,}42 €.
  4. C_f(365) \approx 1030{,}45 €.
  5. Capitalizar mais vezes rende mais, mas cada vez menos: de anual para mensal ganham-se 42 cêntimos, de mensal para diária ganham-se 3.
  6. O limite, quando k \to +\infty, é 1000\,e^{0{,}03} \approx 1030{,}45 €.É o juro contínuo, e é uma das maneiras clássicas de encontrar o número e. O capítulo das Funções deste livro trata-o com todas as letras.
Respostaa) C\left(1+\frac{r}{k}\right)^k · b) 1030{,}00, 1030{,}42 e 1030{,}45 €, a convergir para 1000e^{0{,}03}

Na alínea a), usa a desigualdade de Bernoulli: (1+r)^n \geq 1+rn para r > -1 e n inteiro não negativo.

  1. a) Pela desigualdade de Bernoulli, (1+r)^n \geq 1 + rn. Multiplicando por C > 0: P(n) \geq S(n).
  2. A igualdade só vale para n = 0 e n = 1.
  3. b) n=10: 1343{,}92 - 1300 = 43{,}92 €.
  4. n=20: 1806{,}11 - 1600 = 206{,}11 €.
  5. n=30: 2427{,}26 - 1900 = 527{,}26 €.
  6. n=40: 3262{,}04 - 2200 = 1062{,}04 €.
  7. De dez em dez anos a diferença mais do que duplica: 44, 206, 527, 1062. É uma exponencial menos uma reta — e a exponencial ganha sempre.Aos quarenta anos, a diferença é maior do que o capital inicial. Não é a taxa que faz isto: é o tempo. É por isso que começar a poupar aos vinte e cinco não é o mesmo que começar aos quarenta.
Respostaa) Bernoulli · b) 43{,}92, 206{,}11, 527{,}26 e 1062{,}04
A1

Quando os métodos discordam

Sete secções a mostrar que métodos diferentes dão vencedores diferentes. Fica a pergunta: haverá então um método que esteja certo? A resposta é não — e não é uma opinião, é um teorema.

Aprofundamento · não é matéria de avaliação

As Aprendizagens Essenciais põem o método de Condorcet em «possíveis aprofundamentos», e pedem que se debatam «situações em que existe e em que não existe transitividade das escolhas». É disso que esta secção trata. Nada aqui sai no Exame — o que não quer dizer que não seja o mais interessante do capítulo.

1 · A ideia de Condorcet

O Marquês de Condorcet publicou em 1785 um ensaio com uma ideia simples e forte: em vez de contar pontos, façam-se todos os confrontos diretos.

Definição · vencedor de Condorcet

Uma opção é vencedora de Condorcet se vencer todos os confrontos diretos, um a um, contra cada uma das outras. Em cada confronto conta-se em quantos boletins uma aparece acima da outra — não importa em que posição.

Com k opções há \dfrac{k(k-1)}{2} duelos a fazer: três com 3 opções, dez com 5, quarenta e cinco com 10. É o método mais defensável em teoria e o menos usado na prática, e a razão é essa.

2 · O paradoxo

Três eleitores, três opções, e nada de estranho em nenhum boletim:

preferênciaeleitor 1eleitor 2eleitor 3
1.ªABC
2.ªBCA
3.ªCAB

Os três duelos:

confrontoresultadoquem prefere
A contra B2 – 1 para Aeleitores 1 e 3
B contra C2 – 1 para Beleitores 1 e 2
C contra A2 – 1 para Celeitores 2 e 3
A maioria prefere A a B, B a C, e C a A

Não há vencedor de Condorcet: nenhuma opção ganha todos os duelos. E não há erro nenhum — cada eleitor, sozinho, tem preferências perfeitamente coerentes. O que falha é a transitividade da preferência coletiva: juntar preferências individuais coerentes pode dar uma preferência coletiva que anda em círculo.

Chama-se paradoxo de Condorcet, e não é uma curiosidade rara. Com três eleitores e três opções todas diferentes, acontece em 2 dos 20 casos possíveis. Com muitos candidatos e muitos eleitores, a probabilidade de não haver vencedor de Condorcet aproxima-se de 1.

Exemplo 8 Três métodos, três vencedores

Vinte e sete alunos escolhem o destino da visita de estudo:

preferência11 alunos9 alunos7 alunos
1.ªMNP
2.ªPPN
3.ªNMM
  1. Maioria simples. M tem 11 primeiras preferências, contra 9 e 7. Ganha M.
  2. Borda (3,2,1). M: 33+9+7 = 49; N: 11+27+14 = 52; P: 22+18+21 = 61. Ganha P.
  3. Condorcet. N contra M: 1611. N contra P: 1611. Ganha N.
  4. Os mesmos vinte e sete boletins, três métodos, três vencedores diferentes.
  5. E repare-se em N: é vencedora de Condorcet com apenas 9 primeiras preferências — nem sequer tem maioria simples.É este exemplo que torna o teorema da secção seguinte inevitável. Não há aqui nenhum erro a corrigir: há três definições razoáveis de «o que a turma prefere», e elas apontam para sítios diferentes.
Respostamaioria simples M · Borda P · Condorcet N

Antes de contar seja o que for, decide-se o método. Depois de conhecidos os boletins, escolher o método é escolher o vencedor — e é por isso que os estatutos de qualquer organização o fixam por escrito.

3 · O teorema de Arrow

Teorema de Arrow, 1951

Com três ou mais opções, não existe nenhum método de agregação de preferências individuais numa preferência coletiva que satisfaça simultaneamente um pequeno conjunto de condições razoáveis — a não ser que seja ditatorial, isto é, que siga sempre as preferências de um único eleitor.

Kenneth Arrow tinha trinta anos quando o demonstrou, e recebeu por isso o Nobel da Economia em 1972. O que o teorema diz não é que as eleições sejam inúteis nem que os resultados sejam arbitrários: cada método é determinístico e auditável, e dá sempre a mesma resposta aos mesmos boletins.

O que o teorema obriga é a escolher conscientemente. Já que não se pode ter tudo, decide-se, antes da votação, o que se está disposto a sacrificar — e escreve-se.

4 · Onde isto aparece na vida real

organizaçãométodoconsequência
Presidente da Repúblicamaioria absoluta, duas voltaspode haver segunda volta — aconteceu em 1986
Assembleia da RepúblicaHondt, por círculoproporcionalidade com vantagem para as listas maiores
Ordem dos Enfermeiroslista mais votada, uma só voltapode ganhar-se com menos de metade dos votos
Um exercício para levar para casa

Vai aos estatutos de um clube, de uma associação de estudantes ou de uma ordem profissional e procura o artigo que diz como se elegem os corpos gerentes. Vais encontrar uma destas quatro regras — e, com o que este capítulo tem, consegues dizer quem é que ela favorece.

Python Os três métodos, sobre os mesmos boletins

O programa recebe um perfil de preferências e devolve o vencedor por maioria simples, por Borda e por Condorcet — ou avisa que não há vencedor de Condorcet.

perfil = [(11, "MPN"), (9, "NPM"), (7, "PNM")]
opcoes = "MNP"

# maioria simples
primeiras = {}
for o in opcoes:
    primeiras[o] = 0
for n, ordem in perfil:
    primeiras[ordem[0]] = primeiras[ordem[0]] + n
print("Maioria simples:", max(primeiras, key=lambda o: primeiras[o]), primeiras)

# Borda
k = len(opcoes)
pontos = {}
for o in opcoes:
    pontos[o] = 0
for n, ordem in perfil:
    for i in range(k):
        pontos[ordem[i]] = pontos[ordem[i]] + n * (k - i)
print("Borda          :", max(pontos, key=lambda o: pontos[o]), pontos)

# Condorcet
vencedor = None
for x in opcoes:
    ganha_todos = True
    for y in opcoes:
        if y == x:
            continue
        vx = 0
        vy = 0
        for n, ordem in perfil:
            if ordem.index(x) < ordem.index(y):
                vx = vx + n
            else:
                vy = vy + n
        if vx <= vy:
            ganha_todos = False
    if ganha_todos:
        vencedor = x
if vencedor:
    print("Condorcet      :", vencedor)
else:
    print("Condorcet      : nao ha vencedor (ha um ciclo)")

Corre-o como está: dá M, P e N — três vencedores. Depois troca a primeira linha por perfil = [(1, "ABC"), (1, "BCA"), (1, "CAB")] e opcoes = "ABC", e vê o programa dizer que não há vencedor de Condorcet. É o paradoxo, detetado por um computador.

Exercícios propostos

Dez exercícios de aprofundamento sobre o método de Condorcet e o seu paradoxo: fazer os duelos, encontrar o vencedor quando existe, reconhecer o ciclo quando não existe, e argumentar sobre a escolha de um método. Nada disto é matéria de avaliação.

Exercício 85§A1 · um duelo

Numa votação por preferências, 60 eleitores ordenaram três candidatos. Em 35 boletins A aparece acima de B; nos restantes 25, B aparece acima de A.

Quem vence o confronto direto entre A e B?

Exercício 86§A1 · quantos duelos

Numa votação com 5 candidatos, quantos confrontos diretos há a fazer para aplicar o método de Condorcet?

Exercício 87§A1 · encontrar o vencedor de Condorcet

Três candidatos e 27 eleitores:

preferência1197
1.ªMNP
2.ªPPN
3.ªNMM

Determina o vencedor de Condorcet, se existir.

Exercício 88§A1 · o paradoxo

Três eleitores ordenam três opções assim: A>B>C, B>C>A e C>A>B.

a) Determina o vencedor de cada duelo. b) Existe vencedor de Condorcet? Comenta.

Exercício 89§A1 · o que o ciclo significa

Num perfil de preferências em que a maioria prefere A a B, B a C e C a A:

  • (A)algum eleitor tem preferências incoerentes.
  • (B)houve erro na contagem dos boletins.
  • (C)a preferência coletiva não é transitiva, embora as individuais o sejam.
  • (D)o vencedor tem de ser decidido por sorteio, por lei.
Exercício 90§A1 · Condorcet contra Borda

Cinco eleitores ordenam três opções: três boletins A>B>C e dois boletins B>C>A.

a) Determina o vencedor de Condorcet. b) Determina o vencedor por Borda (3,2,1). c) Comenta.

Exercício 91§A1 · quando é que o ciclo aparece

Com três opções e três eleitores, cada um com uma ordenação diferente das 6 possíveis.

Quantas escolhas dos três boletins (sem repetição, sem contar a ordem dos eleitores) produzem um ciclo? Justifica.

Exercício 92§A1 · Condorcet implica maioria?

Mostra que, se uma opção tem maioria absoluta das primeiras preferências, então é vencedora de Condorcet.

E mostra, com um exemplo, que o recíproco é falso.

Exercício 93§A1 · escolher os estatutos

Uma associação vai fixar nos estatutos o método de eleição da direção. Estão em cima da mesa: maioria simples, duas voltas, Borda e Condorcet (com sorteio em caso de ciclo).

Escreve uma recomendação fundamentada, indicando para cada método uma situação concreta em que ele dá um resultado que dificilmente seria aceite como justo.

Exercício 94§A1 · o teorema, em palavras

O teorema de Arrow (1951) diz, em linguagem corrente, que nenhum método de agregação de preferências com três ou mais opções pode satisfazer, ao mesmo tempo, um pequeno conjunto de condições razoáveis — a não ser que seja ditatorial, isto é, que siga sempre as preferências de um único eleitor.

Explica por que razão este teorema não significa que as eleições sejam inúteis.

Num confronto direto só interessa quem está acima de quem, não em que posição.

  1. A vence B por 35 contra 25.
  2. Não importa se A está em primeiro ou em quinto lugar nesses boletins: só importa que esteja acima de B.É esta a ideia de Condorcet: em vez de contar pontos, fazer todos os duelos possíveis.
RespostaA, por 3525

É o número de pares que se podem formar com 5 elementos.

  1. Cada par de candidatos dá um duelo, e a ordem não conta.
  2. São \dfrac{5 \times 4}{2} = 10 duelos.
  3. Com k candidatos são \dfrac{k(k-1)}{2}.Com 10 candidatos seriam 45 duelos. É por isso que o método de Condorcet, sendo o mais defensável em teoria, é o menos usado na prática.
Resposta10 duelos

Faz os três duelos: MN, MP e NP.

  1. M contra N: M acima em 11; N acima em 9+7 = 16. Ganha N.
  2. M contra P: M acima em 11; P acima em 16. Ganha P.
  3. N contra P: N acima em 9+7 = 16; P acima em 11. Ganha N.
  4. N vence os dois duelos: é o vencedor de Condorcet.
  5. Mas por maioria simples ganharia M, e por Borda ganharia P — como se viu no exercício c2g.Três métodos, três vencedores diferentes, os mesmos boletins. É o capítulo inteiro num exemplo.
RespostaN — que não ganha por nenhum dos outros dois métodos

Faz os três duelos com atenção. O resultado vai parecer impossível, e não é.

  1. a) A contra B: o 1.º e o 3.º põem A acima. A ganha, 21.
  2. B contra C: o 1.º e o 2.º põem B acima. B ganha, 21.
  3. C contra A: o 2.º e o 3.º põem C acima. C ganha, 21.
  4. b) A maioria prefere A a B, B a C e C a A. Não há vencedor de Condorcet: nenhum ganha todos os duelos.
  5. É o paradoxo de Condorcet. Cada eleitor tem preferências transitivas, e a preferência coletiva não é transitiva.Não é um erro de contagem nem um caso raro construído de propósito. É uma propriedade da agregação: juntar preferências individuais coerentes pode dar uma preferência coletiva incoerente.
Respostaa) A>B, B>C e C>A · b) não existe: as preferências coletivas formam um ciclo

Verifica se cada eleitor, sozinho, tem preferências coerentes.

  1. Cada eleitor ordenou as três opções numa lista: as suas preferências são transitivas por construção.
  2. O ciclo aparece só na agregação.
  3. Não há erro nenhum, e não há lei nenhuma que o resolva — há métodos diferentes, que dão respostas diferentes.
Resposta(C)

Faz os três duelos e depois a contagem de pontos.

  1. a) A contra B: 32 para A. A contra C: 32 para A. A é vencedor de Condorcet.
  2. b) A: 3(3) + 1(2) = 11. B: 2(3) + 3(2) = 12. C: 1(3) + 2(2) = 7. Ganha B.
  3. c) Existe vencedor de Condorcet e Borda não o escolhe.
  4. É a crítica clássica de Condorcet ao método de Borda: se uma opção vence todas as outras em confronto direto, devia ganhar — e Borda pode não a escolher.Borda respondeu que o seu método «é para homens honestos». A discussão entre os dois, na Academia das Ciências de Paris nos anos 1780, é o começo da teoria matemática das eleições.
Respostaa) A · b) B · c) há vencedor de Condorcet e Borda não o escolhe

\binom{6}{3} = 20 conjuntos de três ordenações distintas. Procura os que dão ciclo — há uma simetria que ajuda.

  1. As seis ordenações são ABC, ACB, BAC, BCA, CAB, CBA.
  2. Os ciclos vêm das «rotações»: \{ABC, BCA, CAB\} dá o ciclo A>B>C>A.
  3. O outro é \{ACB, CBA, BAC\}, que dá o ciclo no sentido contrário: A>C>B>A.
  4. Qualquer outro conjunto de três contém duas ordenações «opostas» (uma o inverso da outra), e essas anulam-se num dos duelos, deixando o terceiro eleitor a decidir — sem ciclo.
  5. São 2 em 20: 10\%.Com mais eleitores e mais opções a probabilidade sobe. Com muitos candidatos e eleitores ao acaso, a probabilidade de não haver vencedor de Condorcet aproxima-se de 1 — o paradoxo não é a exceção, é o caso geral.
Resposta2 dos 20 conjuntos, os dois ciclos de rotações

Se mais de metade dos eleitores põe A em primeiro, como é que A se sai num duelo contra qualquer outra?

  1. Seja A a primeira preferência de mais de metade dos eleitores.
  2. Num duelo de A contra qualquer X, todos esses eleitores põem A acima de X — porque A está em primeiro no boletim deles.
  3. Logo A tem mais de metade dos votos em cada duelo: vence todos, e é vencedora de Condorcet.
  4. O recíproco é falso. No exercício cAc, N é vencedora de Condorcet com apenas 9 primeiras preferências em 27 — nem sequer maioria simples.
  5. Ser vencedor de Condorcet é uma condição mais fraca do que ter maioria absoluta, e por isso mais frequente.É esse o argumento a favor do método: quando há maioria absoluta, escolhe o mesmo que todos os outros métodos; quando não há, escolhe alguém que a maioria prefere a cada um dos rivais, um a um.
Respostaa maioria absoluta garante vitória em todos os duelos; o recíproco falha (ver cAc)

Cada método tem um contraexemplo conhecido. Procura-os nas secções R1, R2 e nesta.

  1. Maioria simples: o exemplo da R2 — A ganha com 40\% e é a última preferência de 60\% dos votantes.
  2. Duas voltas: 1986 — o mais votado à primeira volta perde. Defensável, mas exige explicar por que razão a segunda volta vale mais do que a primeira.
  3. Borda: o exercício cAf — existe uma opção que vence todas em confronto direto, e Borda escolhe outra.
  4. Condorcet: o paradoxo — pode simplesmente não haver vencedor, e aí decide-se por sorteio, o que é difícil de defender numa eleição.
  5. Uma recomendação defensável: duas voltas para eleger uma pessoa (é o que a lei já usa e todos entendem) e Borda para escolher entre opções, como um destino ou um nome, onde o segundo lugar de toda a gente é uma boa escolha.O que se avalia aqui não é a conclusão — é se cada afirmação vem acompanhada do seu contraexemplo. Uma recomendação sem contraexemplos é uma opinião.
Respostacada método tem um contraexemplo conhecido; a escolha depende de se eleger uma pessoa ou de decidir entre opções

Repara na diferença entre «não há um método perfeito» e «todos os métodos são igualmente maus».

  1. O teorema diz que não existe um método que satisfaça todas as condições desejáveis ao mesmo tempo.
  2. Não diz que todos os métodos sejam equivalentes: uns falham condições que nos importam pouco, outros falham condições essenciais.
  3. Não diz que os resultados sejam arbitrários: cada método é determinístico e auditável, e dá sempre a mesma resposta aos mesmos boletins.
  4. O que o teorema obriga é a escolher conscientemente: já que não se pode ter tudo, decide-se antes da votação o que se prefere sacrificar — e escreve-se nos estatutos.
  5. É por isso que este capítulo insiste tanto em fixar o método antes de contar os votos: depois de conhecidos os boletins, escolher o método é escolher o vencedor.Kenneth Arrow tinha 30 anos quando o demonstrou, e recebeu o Nobel da Economia em 1972. O resultado é um teorema de matemática, não uma opinião política — e é isso que o torna incontornável.
Respostanão há método perfeito, mas há métodos melhores e piores para cada fim — e a escolha tem de ser feita antes de se conhecerem os votos
01

Teste rápido

Doze questões de resposta imediata, com correção e explicação, sobre as oito secções. Metade delas é a mesma pergunta com outra roupa: sobre o quê é que se conta esta percentagem? — que é onde este tema se ganha ou se perde.

Pergunta 1 de 12
0 / 0
02

Formulário e referências

Tudo o que o capítulo usa, numa página. E no fim, a proveniência de cada número.

Eleições

Maiorias

Maioria simples: mais votos do que cada uma das outras opções, tomadas uma a uma. Maioria absoluta: mais de metade dos votos validamente expressos.

Com n votos validamente expressos, o mínimo que garante a maioria absoluta é

m = \left\lfloor \dfrac{n}{2} \right\rfloor + 1.
Método de Borda

Com k opções: k pontos à 1.ª preferência, k-1 à 2.ª, …, 1 à última. Vence a mais pontuada.

Verificação obrigatória — com n boletins, a soma de todas as pontuações é

\dfrac{n\,k(k+1)}{2}.

Partilha

Hondt e Sainte-Laguë

Dividem-se os votos de cada lista pelos divisores, ordenam-se todos os quocientes por ordem decrescente, e atribui-se um mandato a cada um dos maiores.

Hondt: divisores 1, 2, 3, 4, \ldots  — o n-ésimo é n. Sainte-Laguë: divisores 1, 3, 5, 7, \ldots  — o n-ésimo é 2n-1.

Em caso de empate na fronteira, o mandato cabe à lista com menos votos.

O que os separa

O primeiro quociente é igual nos dois (divisor 1), logo o primeiro mandato vai sempre para a lista mais votada. A partir do segundo, 2n-1 > n: Sainte-Laguë encarece cada mandato adicional, prejudica as listas grandes e favorece as pequenas.

Salários

Do bruto ao líquido \text{líquido} = \text{bruto} \times (1 - s - r)

com s a taxa de Segurança Social (11\% para o trabalhador) e r a taxa de retenção na fonte. As duas incidem sobre o bruto, não uma sobre o resultado da outra.

Os três números do mesmo contrato

Rendimento anual: 14 R_m (com subsídios de férias e de Natal). Média mensal do ano: \dfrac{14 R_m}{12}. Retribuição horária: \dfrac{12 R_m}{52\,n}, com n horas semanais — e aqui são 12, não 14.

IRS

O imposto, e as duas taxas \text{IRS} = R \times t - a, \qquad e(R) = \dfrac{\text{IRS}}{R} = t - \dfrac{a}{R}

t é a taxa do escalão (marginal) e e(R) a taxa efetiva, que é sempre menor ou igual. A parcela a abater a não é arbitrária: é a única que impede o imposto de dar um salto na fronteira,

a_{i+1} = a_i + L_i\,(t_{i+1} - t_i), \qquad a_1 = 0.

Juros

As três fórmulas \begin{aligned} \text{juro simples: } & \quad j = C_i\,r\,n, \qquad C_f = C_i(1 + r n)\\[2pt] \text{composto, anual: } & \quad C_f = C_i(1+r)^{n}\\[2pt] \text{composto, mensal: } & \quad C_f = C_i\left(1 + \dfrac{r}{12}\right)^{n} \ \ (n \text{ em meses}) \end{aligned}

Com k capitalizações por ano: C_f = C_i\left(1+\dfrac{r}{k}\right)^{kn}. A taxa e o expoente têm de estar na mesma unidade de tempo.

As duas contas ao contrário C_i = \dfrac{C_f}{(1+r)^{n}}, \qquad n = \dfrac{\ln\!\left(\dfrac{C_f}{C_i}\right)}{\ln(1+r)}

O tempo arredonda-se sempre para cima: o depósito só capitaliza no fim de cada período completo.

Sobre a calculadora

O que é preciso, e o que não é

Este capítulo não tem tutoriais da calculadora gráfica, e não é descuido: não há aqui funções para representar nem equações para resolver graficamente. O que faz falta é uma calculadora que faça potências — para 1{,}03^{40} — e, no 10.º ano, tentativas organizadas onde mais tarde se usarão logaritmos. A folha de cálculo, que as Aprendizagens Essenciais sugerem para as simulações de mandatos, faz o mesmo que os programas de Python de cada secção.

De onde vêm os números

Todos os dados deste capítulo são reais e têm data. Estas são as fontes primárias, e é aí que se vai confirmar — ou ver, daqui a um ano, o que mudou.

Duas advertências sobre os dados

Onde o capítulo apresenta uma conta nossa e não um resultado publicado — como a simulação do método de Hondt aplicado aos totais nacionais num círculo único — isso está dito no próprio sítio. As parcelas a abater do IRS não foram copiadas de nenhuma tabela: são calculadas a partir dos limites e das taxas, pela regra da continuidade. Foi assim que se apanhou um erro de dois euros numa tabela publicada.

03

Exercícios de Exame

Itens de prova, com o enunciado tal como saiu. Aqui não se diz de que secção vem cada um — descobri-lo é metade do trabalho.

Exercícios de Exame · Modelos Matemáticos para a Cidadania

Dois dos itens são de Prova Nacional de Matemática A, ambos dos Exames de 2026 — o da 1.ª fase, sobre o método de Borda, e o da época especial, sobre juro composto: são os primeiros que existem sobre este tema, que entrou nas Aprendizagens Essenciais em janeiro de 2023. Os restantes vêm dos exames de Matemática Aplicada às Ciências Sociais, disciplina que trata estes mesmos assuntos há vinte anos e tem por isso um manancial de itens excelentes — os enunciados são os originais, com o ano e a fase indicados em cada cartão. Todas as distribuições de mandatos foram verificadas por cálculo.

Item 1 construçãoMACS · Exame 2014 · 2.ª Fase

Na eleição para uma assembleia municipal com 15 mandatos, os cinco partidos mais votados obtiveram:

PartidoABCDE
Número de votos22 01017 12415 14412 33311 451

Determine as diferenças entre os números de mandatos que resultariam da aplicação do método de Hondt e do método de Sainte-Laguë. Conserve uma casa decimal nos arredondamentos.

Item 2 construçãoMACS · Exame 2015 · 1.ª Fase

Numa eleição para um órgão consultivo com 9 lugares, as listas obtiveram:

ListaABCD
Número de votos220530650150

Os mandatos foram atribuídos dividindo os votos por 1, 3, 5, 7, 9, etc., e escolhendo os nove maiores quocientes.

Os representantes da lista A defenderam que os mandatos podiam ter sido atribuídos na proporção direta dos votos, com arredondamento à unidade — por exemplo, à lista C caberiam 4 mandatos, porque \dfrac{650}{1550} \times 9 \approx 3{,}774.

Verifique se o método proposto modificaria a distribuição.

Item 3 construçãoMACS · Exame 2017 · 2.ª Fase

Uma escola vai formar uma equipa de 10 alunos. Realizou-se uma eleição a que concorreram as listas V, X, Y e Z:

ListaVXYZ
Número de votos373602318157

A direção aplicou o método de Hondt. Um aluno afirmou que, com esse método, a equipa teria tantos alunos da lista V como da lista Y.

Verifique se o aluno tinha razão, apresentando os quocientes e o número de elementos de cada lista.

Item 4 construçãoMACS · Exame 2020 · 2.ª Fase

Um grupo de amigos vai escolher a cidade a visitar. Consultaram um blogue com as listas de preferências de 23 pessoas; cada lista equivale a 1 voto.

Preferências8753
1.ªVenezaFlorençaMilãoNápoles
2.ªFlorençaMilãoNápolesVeneza
3.ªNápolesVenezaFlorençaFlorença
4.ªMilãoNápolesVenezaMilão

Aplica-se o método seguinte: conta-se o número de primeiras preferências de cada cidade e vê-se se alguma tem maioria absoluta. Se tiver, é a vencedora; se não, elimina-se a cidade menos votada e reconstrói-se a tabela, subindo as restantes.

Determine a cidade escolhida, indicando todas as fases do processo.

Item 5 construçãoMACS · Exame 2020 · Época especial

Na eleição da direção de uma associação ambientalista, constituída por 7 elementos, concorreram as listas X, Y e Z, com os votos validamente expressos da tabela.

ListaXYZ
N.º de votos142231425

Para converter os votos nos sete mandatos, dividiu-se o número de votos de cada lista, sucessivamente, por 1, 3, 5, 7, 9, etc., ordenaram-se os quocientes por ordem decrescente e atribuíram-se os mandatos aos sete maiores.

Determine a constituição da direção.

Item 6 escolha múltiplaMACS · Exame 2021 · Época especial

Numa rádio local, apenas parte dos 480 eleitores inscritos votou. Finalizada a votação, apenas 75\% dos votos foram considerados validamente expressos, por se ter considerado que 96 dos votos recolhidos não eram válidos.

Qual foi a taxa de abstenção registada nesse ato eleitoral?

  • (A)28\%
  • (B)12{,}5\%
  • (C)10\%
  • (D)20\%
Item 7 construçãoMACS · Exame 2022 · Época especial

Um jornal desportivo convidou os leitores a elegerem o melhor jogador de futebol do ano, entre os jogadores P, Q, R e S. Cada leitor ordenou os quatro jogadores de acordo com a sua preferência, e cada ordenação corresponde a 1 voto. Foram apurados 1200 votos válidos, distribuídos por três listas de preferências:

PreferênciaLista 1
200 votos
Lista 2
400 votos
Lista 3
600 votos
1.ªPQR
2.ªQPQ
3.ªRSP
4.ªSRS

Aplica-se o método de Borda, com 4 pontos à 1.ª preferência, 3 à 2.ª, 2 à 3.ª e 1 à 4.ª.

Determine o vencedor e verifique a sua resposta pelo total de pontos distribuídos.

Item 8 construçãoExame 2026 · 1.ª Fase

Uma agência de viagens pretende organizar um passeio que inclui a visita a uma praia portuguesa. Para escolher a praia a visitar, a agência realizou uma votação junto de 250 dos seus clientes, de modo a saber qual destas quatro praias preferiam: praia do Almograve (A); praia do Barril (B); praia do Cabedelo (C); praia da Duquesa (D).

Ao votar, cada cliente preencheu um boletim no qual ordenou as quatro praias de acordo com as suas preferências. Cada boletim preenchido com uma certa ordenação corresponde a 1 voto. A tabela seguinte apresenta as preferências de 200 desses 250 clientes.

Preferências82245143
1.ªBCAD
2.ªAADA
3.ªCDBC
4.ªDBCB

Os 50 clientes restantes votaram todos numa mesma ordenação das quatro praias, colocando a praia B numa posição superior à da praia A.

Concluída a votação, aplicou-se o método a seguir descrito.

São atribuídos pontos a cada uma das praias, em função do seu lugar na ordem de preferência: quatro pontos por cada voto na 1.ª preferência, três na 2.ª, dois na 3.ª e um na 4.ª. Contabiliza-se a pontuação total de cada uma das praias, e a mais pontuada é considerada a praia preferida.

Mostre que a praia B não poderá ser a escolhida. Na sua resposta, apresente a pontuação de cada praia resultante dos votos registados na tabela, e uma justificação para que a praia B não possa ser a escolhida, mesmo incluindo as votações possíveis dos 50 clientes.

Item 9 escolha múltiplaExame 2026 · Época especial

A Inês depositou 5740 euros numa instituição financeira, na modalidade de juro composto, capitalizado mensalmente, à taxa de juro anual de 2\%.

Durante dois anos, a Inês não fez nenhum levantamento nem nenhum depósito.

Qual foi o capital acumulado, em euros, arredondado às unidades, obtido pela Inês, no final dos dois anos?

  • (A)5970
  • (B)5972
  • (C)5973
  • (D)5974
Item 10 construçãoMACS · adaptado

Uma poupança de 2500 € é aplicada durante 6 anos, com taxa de juro anual de 2{,}8\%.

a) Determine o capital acumulado a juro simples. b) Determine o capital acumulado a juro composto, com capitalização anual. c) Indique, em euros e cêntimos, quanto rendeu a mais o regime de juro composto.

Item 11 escolha múltiplaMACS · adaptado

Um capital de C euros é aplicado a juro composto com taxa anual de 4\% e capitalização trimestral.

O capital ao fim de 2 anos é dado por:

  • (A)C \times 1{,}04^{2}
  • (B)C \times 1{,}04^{8}
  • (C)C \times 1{,}01^{8}
  • (D)C \times 1{,}01^{2}
Item 12 construçãoMACS · adaptado

Um trabalhador tem um contrato com salário base mensal de 1350 €, pago 14 vezes por ano, e horário de 40 horas semanais. Desconta 11\% para a Segurança Social e tem uma taxa de retenção na fonte de IRS de 7{,}8\%.

a) Determine o salário líquido mensal. b) Determine o rendimento anual bruto. c) Determine a retribuição horária, sabendo que é dada por \dfrac{12 R_m}{52 n}.

Item 13 construçãoMACS · adaptado

Considere a tabela de taxas gerais de IRS:

Rendimento coletávelTaxaParcela a abater
de 17 838 € a 23 089 €24,1%1476,53 €
de 23 089 € a 29 397 €31,1%3092,76 €

a) Determine o IRS devido por um rendimento coletável de 21\,000 €. b) Determine a taxa efetiva de imposto e compare-a com a taxa do escalão. c) Um contribuinte pagou 4400 € de IRS e sabe-se que o seu rendimento coletável está no segundo escalão da tabela. Determine esse rendimento.

São duas tabelas. Em cada uma bastam quatro ou cinco quocientes por partido — os seguintes já não entram nos quinze maiores.

  1. Hondt (divisores 1, 2, 3, 4, \ldots). Os quinze maiores quocientes dão: A: 5 \quad B: 3 \quad C: 3 \quad D: 2 \quad E: 2
  2. Sainte-Laguë (divisores 1, 3, 5, 7, \ldots): A: 4 \quad B: 3 \quad C: 3 \quad D: 3 \quad E: 2
  3. Diferenças. O partido A perde um mandato e o partido D ganha um; os restantes ficam iguais.
  4. Um mandato muda de mãos, do partido mais votado para o quarto.É exatamente o comportamento que a secção R4 prevê: Sainte-Laguë tira aos maiores e dá aos menores. Aqui a soma continua a ser 15 nos dois casos — a repartição é que muda.
RespostaHondt 53322; Sainte-Laguë 43332: A perde um, D ganha um

Faz as duas distribuições e compara-as lista a lista. Confirma também que a soma dos arredondamentos dá mesmo 9 — nem sempre dá.

  1. Método dos divisores ímpares. Quocientes: A: 220; 73{,}3; \ldots; B: 530; 176{,}7; 106; 75{,}7; \ldots; C: 650; 216{,}7; 130; 92{,}9; 72{,}2; \ldots; D: 150; 50; \ldots
  2. Os nove maiores: 650, 530, 220, 216{,}7, 176{,}7, 150, 130, 106, 92{,}9.
  3. Distribuição: C: 4 · B: 3 · A: 1 · D: 1.
  4. Método proporcional. Total 1550 votos. A: \tfrac{220}{1550}(9) \approx 1{,}277 \to 1 \quad B: \approx 3{,}077 \to 3 \quad C: \approx 3{,}774 \to 4 \quad D: \approx 0{,}871 \to 1
  5. Soma dos arredondamentos: 1+3+4+1 = 9. ✓
  6. As duas distribuições são iguais: o método proposto não modificaria nada.Não é sempre assim. Se os arredondamentos não somassem 9, o método proposto nem sequer seria aplicável — e é essa a fragilidade que os métodos de divisores sucessivos vêm resolver.
Respostanão modificaria: as duas dão C: 4 · B: 3 · A: 1 · D: 1

Constrói a tabela com divisores 1 a 10 — na prática bastam quatro ou cinco por lista — e escolhe os dez maiores quocientes.

  1. V: 373; 186{,}5; 124{,}3; 93{,}3; \ldots
  2. X: 602; 301; 200{,}7; 150{,}5; 120{,}4; \ldots
  3. Y: 318; 159; 106; \ldots
  4. Z: 157; 78{,}5; \ldots
  5. Os dez maiores: 602, 373, 318, 301, 200{,}7, 186{,}5, 159, 157, 150{,}5, 124{,}3.
  6. Contando: X quatro, V três, Y dois, Z um.
  7. O aluno não tinha razão: V fica com três elementos e Y com dois.O engano é natural — 373 e 318 são números próximos. Mas o terceiro mandato de V vem do quociente 124{,}3, e o terceiro de Y seria 106, que já fica de fora.
Respostanão tinha razão: X: 4 · V: 3 · Y: 2 · Z: 1

São 23 votos: a maioria absoluta precisa de 12. Elimina a menos votada e volta a contar as primeiras preferências das que sobram.

  1. 1.ª contagem. Veneza 8, Florença 7, Milão 5, Nápoles 3. Nenhuma chega a 12. Elimina-se Nápoles.
  2. 2.ª contagem. Os 3 votos de Nápoles passam à sua 2.ª preferência, que é Veneza: Veneza 11, Florença 7, Milão 5. Ainda ninguém chega a 12. Elimina-se Milão.
  3. 3.ª contagem. Os 5 votos de Milão passam à preferência seguinte ainda em prova, que é Florença: Veneza 11, Florença 7+5 = 12.
  4. Florença tem 12 em 23: maioria absoluta. É a cidade escolhida.Veneza esteve à frente em todas as contagens menos na última. Por maioria simples à primeira volta teria ganho; por este método perde. É o mesmo fenómeno de 1986, com cidades em vez de candidatos.
RespostaFlorença, com 12 votos na terceira contagem

Os divisores são os ímpares: é o método de Sainte-Laguë. Basta ir até ao quociente que der o sétimo lugar.

  1. X: 142; 47{,}3; 28{,}4; \ldots
  2. Y: 231; 77; 46{,}2; \ldots
  3. Z: 425; 141{,}7; 85; 60{,}7; 47{,}2; \ldots
  4. Os sete maiores, por ordem: 425\,(Z), 231\,(Y), 142\,(X), 141{,}7\,(Z), 85\,(Z), 77\,(Y), 60{,}7\,(Z).
  5. Contando: Z quatro, Y dois, X um.Repare-se no terceiro e quarto lugares: 142 contra 141{,}7. Sete décimas separam X de não eleger ninguém — e é por isso que se guardam as casas decimais até ao fim.
RespostaZ: 4 · Y: 2 · X: 1

Se 75\% foram válidos, os 96 não válidos são 25\% dos votantes. Daí sai o número de votantes — e a abstenção conta-se sobre os inscritos.

  1. Os 96 votos não válidos são 25\% dos votantes: 0{,}25 \times V = 96 \iff V = 384.
  2. Abstiveram-se 480 - 384 = 96 eleitores.
  3. Taxa de abstenção: \dfrac{96}{480} = 0{,}20, ou seja 20\%.A coincidência de aparecer 96 nas duas contas é armadilha do enunciado: são 96 votos nulos e 96 abstenções, e não é o mesmo 96.
Resposta(D)

Uma coluna por jogador, e a soma final tem de dar 1200 \times 10.

  1. P: 4(200) + 3(400) + 2(600) = 800 + 1200 + 1200 = 3200.
  2. Q: 3(200) + 4(400) + 3(600) = 600 + 1600 + 1800 = 4000.
  3. R: 2(200) + 1(400) + 4(600) = 400 + 400 + 2400 = 3200.
  4. S: 1(200) + 2(400) + 1(600) = 200 + 800 + 600 = 1600.
  5. Verificação: 3200+4000+3200+1600 = 12\,000 = 1200 \times 10. ✓
  6. Vence Q, com 4000 pontos — e repare-se em que Q só é a primeira preferência de 400 dos 1200 leitores.R tem mais primeiras preferências (600) do que Q, e perde: está em último em 400 boletins. É o padrão de Borda.
RespostaQ, com 4000 pontos

Calcula primeiro as quatro pontuações com os 200 boletins conhecidos. Depois dá aos 50 que faltam o melhor caso possível para B — e vê o que isso obriga em relação a A, que tem de ficar abaixo.

  1. As pontuações dos 200 boletins conhecidos. \begin{aligned} A &: 3(82) + 3(24) + 4(51) + 3(43) = 246 + 72 + 204 + 129 = \mathbf{651}\\ B &: 4(82) + 1(24) + 2(51) + 1(43) = 328 + 24 + 102 + 43 = \mathbf{497}\\ C &: 2(82) + 4(24) + 1(51) + 2(43) = 164 + 96 + 51 + 86 = \mathbf{397}\\ D &: 1(82) + 2(24) + 3(51) + 4(43) = 82 + 48 + 153 + 172 = \mathbf{455} \end{aligned} Verificação: 651+497+397+455 = 2000 = 200 \times (4+3+2+1). ✓
  2. O melhor caso para B. Os 50 boletins em falta dão a B a 1.ª preferência, ou seja 50 \times 4 = 200 pontos: B \leq 497 + 200 = 697.
  3. O pior caso para A. O enunciado garante que B está acima de A nesses boletins, logo A ocupa, no pior dos casos, a 4.ª posição: ganha pelo menos 50 \times 1 = 50 pontos. A \geq 651 + 50 = 701.
  4. Comparar. Ainda no cenário mais favorável a B e mais desfavorável a A, A \geq 701 > 697 \geq B.
  5. Logo A fica sempre à frente de B, e a praia B não pode ser a escolhida.A margem é de quatro pontos em setecentos. Um argumento aproximado — «B está muito atrás» — não vale nada aqui: é preciso o cenário extremo, calculado.
RespostaA: 651, B: 497, C: 397, D: 455; no melhor caso B \leq 697 e A \geq 701

A taxa anual reparte-se pelos doze meses, e cada mês é uma capitalização: em dois anos são vinte e quatro.

  1. A taxa de cada período. A capitalização é mensal, logo cada mês rende à taxa \dfrac{0{,}02}{12}.
  2. Quantos períodos. Dois anos são 2 \times 12 = 24 meses, e em nenhum deles houve levantamentos ou depósitos.
  3. O capital acumulado. C_f = C_i\left(1+\frac{r}{12}\right)^{n} = 5740\left(1+\frac{0{,}02}{12}\right)^{24} \approx 5974{,}05.
  4. Arredondado às unidades, 5974 €: a opção correta é a (D).As outras três opções são exatamente os valores que saem se a capitalização for outra: a juro simples, 5740 \times (1+0{,}02 \times 2) = 5969{,}60, dá 5970 — a opção (A); com capitalização anual, 5740 \times 1{,}02^{2} \approx 5971{,}90, dá 5972 — a opção (B); com capitalização semestral, 5740 \times 1{,}01^{4} \approx 5973{,}07, dá 5973 — a opção (C). Quanto mais vezes se capitaliza, mais rende: é a mesma taxa anual a trabalhar sobre juros já vencidos.
Resposta(D)

Juro simples: C_i(1+rn). Juro composto: C_i(1+r)^n. As duas partem do mesmo sítio e separam-se a partir do segundo ano.

  1. a) 2500 \times (1 + 0{,}028 \times 6) = 2500 \times 1{,}168 = 2920{,}00 €.
  2. b) 2500 \times 1{,}028^{6} \approx 2500 \times 1{,}180614 \approx 2951{,}54 €.
  3. c) 2951{,}54 - 2920{,}00 = 31{,}54 €.
  4. Em seis anos, trinta e um euros e cinquenta e quatro cêntimos.Aos 30 anos, com os mesmos valores, a diferença passaria dos 600 €. A diferença não cresce em linha reta: cresce como a exponencial menos a reta.
Respostaa) 2920{,}00 € · b) \approx 2951{,}54 € · c) \approx 31{,}54

Quantas capitalizações há por ano? E qual é a taxa de cada uma?

  1. Trimestral: 4 capitalizações por ano, cada uma à taxa \dfrac{0{,}04}{4} = 0{,}01.
  2. Em 2 anos há 2 \times 4 = 8 capitalizações.
  3. Logo C_f = C(1 + 0{,}01)^{8} = C \times 1{,}01^{8}.
Resposta(C)

As duas taxas aplicam-se ambas ao bruto. E atenção ao 12 da alínea c) — não é 14.

  1. a) 1350 \times (1 - 0{,}11 - 0{,}078) = 1350 \times 0{,}812 = 1096{,}20 €.
  2. b) 14 \times 1350 = 18\,900 €.
  3. c) \dfrac{12 \times 1350}{52 \times 40} = \dfrac{16\,200}{2080} \approx 7{,}79 €/hora.
  4. Repare-se em que a alínea b) usa 14 e a c) usa 12.Os subsídios de férias e de Natal contam para o rendimento anual, mas não são pagamento de horas trabalhadas — e por isso não entram no valor/hora, que é o que serve de base ao pagamento de horas extraordinárias.
Respostaa) 1096{,}20 € · b) 18\,900 € · c) \approx 7{,}79 €/hora

Na alínea c), resolve a equação 0{,}311R - 3092{,}76 = 4400 — e não te esqueças de verificar que o resultado cai mesmo dentro do escalão.

  1. a) 21\,000 \times 0{,}241 - 1476{,}53 = 5061 - 1476{,}53 = 3584{,}47 €.
  2. b) \dfrac{3584{,}47}{21\,000} \approx 0{,}1707: taxa efetiva de 17{,}1\%, bastante abaixo dos 24{,}1\% do escalão.
  3. c) 0{,}311R = 4400 + 3092{,}76 = 7492{,}76 \iff R \approx 24\,092{,}48 €.
  4. Verificação: 24\,092{,}48 está entre 23\,089 e 29\,397. ✓Se o resultado caísse fora do escalão, a hipótese estaria errada e seria preciso repetir com a linha seguinte. A verificação é parte da resposta, não um extra.
Respostaa) 3584{,}47 € · b) \approx 17{,}1\% · c) \approx 24\,092{,}48

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